O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 19
Lágrimas escorriam pelas bochechas de Laura enquanto ela descia a estrada em alta velocidade. Não tinha certeza do que mais a chateava; se chorava de alívio por ter escapado daquelas duas idosas loucas ou por causa da menção à “fita de Wilson”. Olhou para a luminosidade das lanternas traseiras dos carros na frente do seu. As lágrimas dificultavam sua visão da estrada. Sabia que poderia fazer uma parada, mas queria sair daquele lugar o mais rápido possível.
Passava das onze horas quando chegou em casa. Fechou a porta de entrada e nesta se encostou. Ao menos se sentia segura. No entanto, a sensação não durou muito. O apartamento estava escuro e vazio. Michael ainda estava fora, em reunião. Desejava tanto vê-lo que temporariamente se esqueceu de que ainda jantaria com colegas após o evento e não voltaria tão cedo.
Ainda sentia-se um pouco trêmula, então foi à cozinha e serviu uma taça de vinho para si, mas este parecia não acalmá-la. “Por que raio de motivo elas estavam tirando fotos minhas daquela forma?”, porém logo percebeu que era algo muito mais profundo que de fato a perturbava.
De repente, tomou conhecimento do que era. E, agora que sabia, não poderia deixar isso de lado um momento sequer. Tinha de investigar as palavras da velha mulher para descobrir se o que ela dissera sobre a fita de Wilson era realmente verdade.
Ainda de casaco, virou-se e correu para as escadas. Disparou pela porta, entrando no quarto vazio de sua filha. Ao acender a luz, precipitou-se em direção ao pesado guarda-roupa de madeira, atrás da porta, e começou a fazer força para empurrá-lo, afastando-o da parede. Incapaz de movimentá-lo, abriu suas portas e começou a espalhar de modo frenético seu conteúdo pelo chão.
Ergueu uma caixa grande repleta de tiaras e coroas de princesas cor-de-rosa e douradas brilhantes, asas de fada e varinhas mágicas. Removeu uma grande caixa plástica cheia, com uma miscelânea de brinquedos. Bonecas e jogos estavam despejados pelo quarto. Tentou empurrar o guarda-roupa novamente, porém ele não saía do lugar. Levantou uma porção de vestidos, casacos e calças jeans de criança, lançando-os sobre a cama, e puxou uma coleção de pequenos sapatos e botas para fora, antes que conseguisse afastar o guarda-roupa gigante da parede. Detrás do móvel, espreitou o carpete coberto de poeira. Ali, no chão, abaixo do rodapé, estava a fitinha de seda. vermelha amarrotada.
Assim que a olhou, desmoronou contra a parede e caiu de joelhos. Era apenas uma fita, tão trivial e inocente. Mesmo para Laura, a imagem daquela simples fita cortou o coração, mais profundamente do que a lâmina mais afiada. Para ela, aquela fita simbolizava uma mudança terrível no destino de sua família, uma mudança a qual não queria reviver. Porém, com a aparição da fita, sua mente voltou dolorosamente aos acontecimentos de dois anos antes.
Rememorando, havia existido um tempo em que encontrar aquela fita teria feito Laura a mulher mais feliz do mundo. Ela, claro, desconhecia isso na época. Mas encontrar a fita agora, com dois anos de atraso, pareceu uma piada infeliz. Esticou o braço para alcançá-la, mas não conseguiu. Simplesmente não conseguia pegá-la.
Quando levantou os olhos em direção à cama, de repente tudo a invadiu de novo, tão vivo como no dia em que acontecera.
Era um dia ensolarado e brilhante, um sábado, na primavera de 2010. Eles estavam radiantes, todos eles. Tinham planos para o final de semana. Michael estava concluindo o artigo que escrevia, então iam ao zoológico — uma família passeando, um tempo para se divertirem juntos, rir e relaxar após a semana cheia. Laura voltara a trabalhar em período integral agora que Alice havia começado a pré-escola e estava ansiosa para passar cada momento de folga que fosse possível com sua alegre filha de quatro anos.
Pela janela era possível ver o sol raiar atrás de Alice, que estava sentada na beira da cama segurando o urso de pelúcia, quando percebeu que sua fita se perdera. Ela chamou:
— Mamãe, onde está a fita de Wilson?! Não consigo encontrar.
Laura foi ao socorro de sua menininha e agachou-se ao lado dela.
— O que aconteceu com sua fita, Wilson? — ela perguntou ao urso antes de se voltar para a filha. — Tenho certeza que está aqui, em algum lugar. Logo vamos encontrá-la — disse, empurrando suavemente para trás da orelha o cabelo que havia caído sobre o rosto de Alice e beijando-a na bochecha.
Lançou um olhar pelo quarto. Não conseguia ver a fita em nenhum lugar óbvio. Lágrimas caíam dos olhos da menina. Laura pôde ver como a fita do urso de pelúcia era importante para a filha. — Talvez esteja presa em algum lugar. Vamos olhar embaixo da cama? — perguntou, enquanto agachava-se no chão para começar a procurar.
Como de costume, a parte inferior da cama de Alice era uma verdadeira arca do tesouro de tralhas. Laura havia deitado no chão para procurar melhor. A primeira coisa que viu foi a velha caixa de música que pertencera à sua mãe.
— Veja, Alice — disse, entregando-lhe a caixa, lembrando-se do deleite que ela mesma havia tido diante da visão da caixinha de madeira, seu forro acolchoado de veludo vermelho e a bailarina vestida com tutu cor-de-rosa e sapatilhas
que giravam ao som da música O Lago dos Cisnes.
Alice esticou o braço e pegou a caixa da mão de Laura. Um sorriso de encanto espalhou-se por todo o rosto. Assim que girou a chavinha na ranhura, lembrou-se que Neil, seu amigo do berçário, havia lhe dado duas balas enormes, que escondera cuidadosamente dos pais dentro da caixa. Então ela ficou em silêncio, pulando de volta para o meio da cama, longe das vistas da mãe, enquanto esta desaparecia de novo, à procura da fita de Wilson.
Alice pegou um dos doces e colocou na boca. Estava feliz agora, deitada, chupando o doce e ouvindo o som falho da caixa de música enquanto os raios de sol da primavera enchiam o quarto. Pensou em um jogo que poderia jogar sozinha — lançar a bala ao ar e ver se conseguia pegá-la na boca. Após algumas tentativas, ela conseguiu. Foi tão divertido que tentou novamente. Desta vez, lançou a bala mais alto. Nesta tentativa, assim que apanhou o doce, este parou no fundo de sua traquéia.
Laura ainda revistava embaixo da cama. Ela realmente deveria ter uma conversa com Alice sobre arrumar isso — pensou —, mas sabia que aquele era um dos lugares secretos da filha, no qual gostava de guardar coisas com que de fato adorava brincar. Procurou embaixo de uma pilha de gibis de menina e levantou um montão de vestidos no guarda-roupa da Barbie, mas não havia sinal da fita de Wilson em lugar algum.
“É isso”, pensou, quando localizou um clarão vermelho fora de alcance, no canto extremo da cama, próximo à pilha de livros infantis. Esforçando-se no espaço limitado, se lançou em direção à fita, apoiada nos cotovelos.
Assim que sua mão chegou lá, Alice estava deitada na cama, incapaz de respirar. Estava asfixiada, em silêncio. Houve um som áspero e fraco quando tentou desesperadamente pegar mais ar, mas ao fazer isso acabou afundando o doce ainda mais em sua traquéia. Entrou em pânico, esticando-se, procurando agarrar desesperadamente sua mãe, seu pai ou qualquer um que ajudasse.
Laura infelizmente não conseguiu ouvir nada disso sobre os sons suaves e falhos da caixa da música. Em vez disso, embaixo da cama, conversava alegremente com a filha, tentando mantê-la animada.
— Aposto que é aquele gato levado de novo! Ele ama perseguir fitas! — disse, feliz, sem saber o que acontecia. Deu de cara com um daqueles brinquedos eletrônicos que funcionam sozinhos. Era um palhaço roxo de plástico que gritava: “Rápido! Rápido! Divirtam-se no parque de diversões!”, enquanto suas luzes vermelhas e amarelas piscavam.
Enquanto isso, em cima da cama, Alice se contorcia em silêncio, seu rosto e perdia a cor, os lábios ficavam lentamente azuis. — “Rápido! Rápido! Divirtam-se no parque de diversões!” — gritava o palhaço — Laura tateava à procura do botão de desligamento.
— Achei — falou em voz alta assim que alcançou o que pensava que fosse a fita, mas depois se deu conta de que se tratava da jaqueta vermelha cintilante da Barbie.
Foi quando notou que Alice havia ficado surpreendentemente calada:
— Querida, você está me ouvindo?
Não houve resposta.
— Alice, você está brincando comigo? — perguntou, assim que finalmente surgiu debaixo da cama para encontrar a menina imóvel, quando o rosto já começava a ficar branco.
— Santo Deus, Alice! — sussurrou, aterrorizada.
Naquele momento, o mundo inteiro de Laura parou. De repente, nada mais existia, exceto sua filha deitada, parecendo morta, bem diante dela.
Agarrou a filha e a chacoalhou, dando-lhe tapas, virando-a de ponta-cabeça.
— Michael! — gritou, enquanto tentava desesperadamente reanimá-la antes de perceber que tinha algo preso na garganta. — Chame uma ambulância! — gritou enquanto a virava de frente e a ventilava. — Michael! Michael! — ela gritava. — Chame uma ambulância!
Lá sentada, observando a fita, ainda podia ouvir aquele grito em sua mente, seu terror desesperado e flamejante, mesmo tendo-se passado mais de dois anos desde a morte de Alice. Às vezes sentia como se parte dela ainda gritasse diante do que acontecera, e nunca, nunca pararia.
Não tinha certeza de quanto tempo havia ficado sentada lá contemplando a fita. Poderia ter sido minutos, ou horas, o tempo todo com lágrimas escorrendo pelo rosto. Quando finalmente alcançou a fita e a pegou, sentiu-se como se fosse uma das coisas mais difíceis que havia feito. Ao fazê-lo, sentou como se uma corda invisível que a conectara com o passado houvesse se quebrado para sempre. Mergulhou no chão e deitou-se, encurvada como um feto, enquanto soluços tomavam seu corpo.
Quando Michael chegou, foi assim que a encontrou: deitada no chão do quarto, atrás do guarda-roupa, chorando inconsolavelmente. Ele deixou a maleta perto da porta e foi até Laura em silêncio. Ele se jogou ao chão e a abraçou. Conhecia a futilidade das palavras nessa situação, a inutilidade do lugar-comum. Não havia nada que pudesse fazer ou dizer, algo que fizesse Laura se sentir melhor. Queria consertar as coisas, mas sabia que não era possível.
— Por que, Michael? Por quê? — ela soluçava. Ele balançava a cabeça negativamente. Era uma pergunta que havia feito a si mesmo mil vezes, e nunca sabia responder.
— Por que não consegui salvá-la, Michael? Por que não? — caiu no choro, com a cabeça encostada no ombro dele.
— Você tem que parar de se culpar, querida. Não foi sua culpa — sussurrou, enquanto a acalentava para frente e para trás em seus braços.
Ele viu a fita vermelha na mão dela. Isso o fez se sentir com raiva e triste ao mesmo tempo e, antes que se desse conta, sentiu a dor de lágrimas amargas brotando de seus próprios olhos. Lutou para reprimi-las, para ser forte para Laura. Ele não queria que ela visse seu sofrimento.