O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 31
- Bom dia, Laura — cumprimentou Michael, trazendo-a de volta ao presente com um solavanco.
Ele entrou e a beijou.
— Quer café?
Laura não percebera a passagem do tempo. Ainda estava escuro lá fora, mas a cidade já parecia cheia de vida, enquanto as pessoas começavam seu dia. A “Big Apple” sempre acorda cedo, e Michael já estava pronto para o trabalho.
Ele retornou da cozinha e entregou a Laura uma caneca de café borbulhante:
— Como está progredindo?
— É absolutamente fascinante, mas não mencionou a caveira de cristal até agora — ela se espreguiçou e percebeu o quanto se sentia cansada. — E eu acabei de chegar a um ponto em que parece haver algumas páginas faltando.
— Vejamos se eu consigo algumas respostas — Michael apanhou a maleta que continha a caveira. — Importa-se se eu levar isto?
Laura havia se esquecido de que a caveira estava lá. Mas agora havia se lembrado de que a queria consigo.
— Para que você precisa dela? — perguntou.
— Pensei que pudesse realizar mais alguns testes com ela no laboratório — Michael explicou.
Laura refletiu. Tinha somente até o final daquela semana para finalizar seu relatório sobre a caveira. Talvez os testes de Michael pudessem trazer mais algumas informações.
— Ok, mas eu precisarei que ela esteja de volta até sexta-feira — disse, antes de tornar a prestar atenção no diário de Anna.
A anotação seguinte lhe despertou o interesse:
Minha Grande Aventura:
Nada poderia ter me preparado para o que aconteceria em seguida. Nunca, nem em meus sonhos mais loucos, pude imaginar. Foi um dia que mudou o rumo da minha vida. Parecia que era meu destino, e despertou em mim um propósito que ninguém poderia ter previsto.
Até o momento tínhamos limpado a Grande Praça no centro da cidade e descoberto que a íngreme colina coberta de vegetação na outra extremidade era, na verdade, uma enorme pirâmide escalonada. Havíamos iniciado sua limpeza, mas tínhamos instruções rigorosas de nunca a escalarmos. Papai dizia que era muito íngreme e perigosa. Peveria ter cerca de sessenta e um metros de altura.
Fiquei chateada por papai não ter permitido que eu a escalasse. Eu não era mais uma criança, embora às vezes ele agisse como se eu ainda fosse. Eu morri de vontade de chegar ao alto daquela pirâmide. Almejava subir no terraço e no topo do pequeno templo, para observar a floresta. Parecia que todos os demais haviam subido lá, e só eu não subir era muito injusto para mim.
Um dia, tive minha chance. Era a hora do almoço. Todos tiravam uma sesta no calor do meio-dia, e eu decidi arriscar e subir ao cume enquanto eles descansavam. Planejava retornar antes que pudessem perceber que eu tinha saído. Esperei até ouvir roncos vindo de dentro das barracas e então parti. Os trabalhadores haviam pendurado suas redes sob as árvores e também não me viram passar.
Entrei na praça e comecei a escalar cuidadosamente os degraus íngremes da pirâmide. O sol do meio-dia me queimava, e eu estava satisfeita com a proteção de meu chapéu. Insetos zuniam ruidosamente nas árvores ao meu redor. Eu precisei redobrar a atenção na minha subida pela lateral da pirâmide. Era mais difícil do que eu havia imaginado.
Embora fosse conhecida como uma “pirâmide escalonada” em seu projeto geral, na verdade em apenas em um dos lados uma série de degraus fora feita no tamanho adequado para uma pessoa escalar, porém também eram extremamente grandes e íngremes.
Foi dificultoso pelo fato de alguns deles estarem faltando, então tive que contorná-los ou até mesmo subir alguns de uma vez só. Mais de cem degraus acima, olhei para baixo para observar como agora parecia pequena a praça, mas o topo da pirâmide ainda parecia um pouco distante.
Eu deveria estar a cerca de doze metros do topo quando um dos degraus em que pisei cedeu de repente embaixo de mim, e eu comecei a cair. Estiquei-me, agarrando-me a uma trepadeira que misericordiosamente ainda não havia sido arrancada da pirâmide. Foi a única coisa que me impediu de cair, em direção à minha morte, na praça logo abaixo. Agora podia compreender por que papai havia se oposto tanto à minha escalada, mas eu estava tão perto do cume que não poderia voltar. Além do mais, ao que parecia, seria ainda mais difícil descer os degraus do que subi-los!
Finalmente, arrastei-me até o terraço, no topo. Eu estava cansada e ofegante. Olhei ao meu redor e o que vi foi esplêndido: mata virgem por todos os lados, espalhando-se por quilômetros, em todas as direções, tão longe quanto os olhos conseguiam ver. Era um vasto oceano verde sobre o qual pássaros coloridos planavam livres no que assemelhava-se a um céu azul infinito. Fui então absorvida pela sensação profunda de vastidão ao meu redor. Apesar de tudo, a escalada árdua tinha valido a pena.
Havia um pequeno templo no centro do terraço, no ponto mais alto da pirâmide. Eu estava ávida por explorá-lo antes de retornar. Teria de fazer isso rapidamente, pois a equipe em breve acordaria de sua sesta.
O templo era uma estrutura de calcário mais ou menos sólida, não muito maior do que uma sala de visitas ou uma casa pequena. Era adornado com os restos de um telhado escalonado que outrora se assemelhara a um enfeite de penas. Suas paredes eram decoradas com delicadas inscrições em estuque que agora estavam muito corroídas, e sua única entrada era cercada por espessas trepadeiras da floresta que pareciam arquear para um lado, como cortinas ao redor da porta aberta. Algum dia, somente os mais consagrados sacerdotes xamãs tiveram permissão para entrar nessa construção sagrada, na qual ministraram orações e rituais para satisfazer os deuses e os ancestrais.
Arrastei-me pela porta até a friagem, a umidade e a escuridão do interior, ao mesmo tempo em que meus olhos ainda se acostumavam às trevas na qual pensei que pudesse distinguir uma imagem lindamente esculpida de Cimi, a grande deusa maia da morte, na parede distante. Dei um passo à frente para olhar mais de perto, quando ouvi um estalo forte. De repente, o chão cedeu sob meus pés, e eu comecei a cair. Podia ser um terremoto, lembro-me de ter pensado isso enquanto caía, certa de que morreria.
Dentro da Pirâmide
Quanto tempo fiquei lá na escuridão, eu não sei. A luz fraca brilhando pela porta do templo sobre mim parecia obscura e desfocada. Eu sentia alívio por descobrir que estava viva e, milagrosamente, assim que me estiquei para sentir minhas pernas, parecia ilesa, exceto pelo que percebi como sendo hematomas. Minha cabeça ficou confusa assim que tentei compreender o que acontecera comigo.
Lentamente, me recompus. O assoalho de madeira no qual havia pisado cedera, e eu caí em uma câmara secreta embaixo do chão do templo. Ao meu redor, consegui ver as vigas de madeira podres que caíram. Apesar de terem sido incapazes de suportar meu peso, felizmente também haviam amortecido minha queda sobre o que um dia havia sido uma superfície rígida de pedra. Eu agora estava deitada no chão da câmara, desprotegida, com o que sobrava do assoalho do templo em cima de mim.
No entanto, eu estava confiante de que em breve sairia de lá. Em virtude da outra noite, em que nos vimos perdidos e sem nossas tochas, desta vez tinha vindo bem preparada. Eu havia colocado um isqueiro e alguma parafina em minha mochila. Arranquei o fundo dos meus culotes e os amarrei em uma das vigas que haviam se lascado embaixo de mim. Vasculhei dentro de minha mochila para procurar a parafina, espalhei-a sobre o material e virei o ramo em direção a uma tocha que eu segurava para olhar os arredores. Eu havia caído mais longe do que imaginava. O piso falso do templo estava pelo menos quatro metros acima da minha cabeça. Passei os olhos pelas paredes, a fim de encontrar buracos ou outra maneira de me puxar para fora dali. Não havia nada. Olhei para o sortimento de vigas quebradas, perguntando-me se poderia construir algo para escalar, mas nenhuma era de tamanho ou resistência adequados. Percebi que estava presa.
Comecei a me sentir em pânico. Como sairia? Gritei por ajuda, a plenos pulmões, com a esperança de que alguém de nosso pequeno grupo me ouvisse, mas a natureza fechada do templo evitava que o som fosse levado para longe. Gritei de novo, e mais uma vez não houve resposta. Talvez eles tivessem escolhido esta tarde para limpar a vegetação rasteira ao redor do poço principal, ou “cenote”, como era chamado. Caso isso acontecesse, necessariamente não esperariam que eu me juntasse a eles e sequer começariam a se dar conta de que eu não estava lá até o anoitecer.
Sentei-me. Minha voz tinha ficado rouca. Eu comecei a pensar em quanto tempo demoraria para eles me encontrarem. O local era tão grande que poderia levar dias. Poderia morrer de sede nesse período. A pouca luz que me banhava através da porta desvanecia. A noite começava a se aproximar. Gritei de novo. Não houve resposta sobre o canto ativo das cigarras na floresta adjacente.
Por diversas horas encarei as quatro paredes da câmara com a luz tremeluzente da minha tocha, tentando ignorar a fome que sentia. Não havia mais nada que eu pudesse fazer. Eu sabia que deveria economizar a parafina e apagar a tocha. Levantei-me para ver se conseguia mover um dos galhos que haviam caído na câmara, para fazer algum tipo de cama, quando percebi que poderia acender uma fogueira. As vigas de madeira pareciam bem secas.
Tive uma incrível sensação de alívio enquanto usava minha tocha desguarnecida para acender a pilha de vigas de madeira que agrupei no meio do assoalho da câmara. Ao menos encontrara uma maneira de chamar a atenção de alguém. A fogueira certamente queimaria como um farol na noite, e eu sairia de lá num piscar de olhos.
Eu tinha razão. As velhas vigas de madeira logo pegaram fogo, e a fogueira inflamou-se, ágil e quente. Muito quente.
Eu fui atingida por uma parede em chamas como se fosse as portas de um poderoso alto-forno. Encostei-me na parede, tentando me afastar o máximo possível das chamas. O calor escaldante chamuscou meu rosto, e a espessa fumaça sufocou meus pulmões. Temia que tivesse acendido inadvertidamente a pira de meu próprio funeral. Minha pele começou a encher de bolhas e sentia que meus pulmões estavam prestes a queimar, quando felizmente as chamas começaram a baixar lentamente. Tossindo e falando de modo incoerente, observei o fogo se extinguir, deixando somente um amontoado de brasas latentes no chão.
Permaneci lá e aguardei o grupo de resgate chegar. Gritei o mais alto que pude e esperei durante um período que pareceu uma eternidade. Devem ter sido muitas horas. Já devia passar da meia-noite. Meus lábios estavam rachados, minha língua estava inchada, e eu não havia bebido nenhuma gota de água durante quase o dia todo. Ainda aguardava, porém ninguém veio.
Ninguém tinha visto meu sinal de fogo. Eles sequer tinham avistado a fumaça. Então, lembrei-me de que a porta do templo ficava do lado oposto a nosso acampamento, ou seja, ninguém tinha visto minhas chamas, e o vento deveria estar soprando na direção oposta carregando a fumaça para longe. Eu fiquei aterrorizada com o pensamento de que ninguém sabia onde eu estava. O que me assustava mais era a idéia de continuar presa lá, sozinha no escuro, esperando ajuda que nunca viria, morrendo aos poucos.
Deitei no chão, em desespero. Quando isso aconteceu, minha perna acidentalmente arrastou um pouco da cinza do fogo, expondo uma pequena parte do chão de pedra gasta. Algo chamou minha atenção. Parecia haver dois pequenos círculos entalhados em uma das pedras do calçamento. Saquei meu canivete suíço e raspei a cinza e a sujeira restantes de um dos círculos, que pareceu se movimentar. Em seguida, afrouxei a faca em seu contorno e a puxei. Consegui levantá-la, removendo-a por completo. Revelou-se ser uma tampa de pedra ou um pino, que saiu na minha mão.
Comecei a trabalhar rapidamente para remover o outro pino. Um grande pedaço de viga sobrevivera quase intacto ao fogo, e sua extremidade lascada deslizou sob um canto da pedra de pavimentação. Depois, puxei com toda minha força. Não achava que conseguiria removê-la sozinha, mas, para minha surpresa, depois de um esforço considerável, a pedra deslocou-se, e sua lateral pôde subir. Eu me vi olhando fixamente para um buraco profundo e escuro dentro da pirâmide.
Estiquei o braço para pegar minha tocha e a segurei sobre a abertura. Fui surpreendida ao descobrir que se tratava apenas de uma fenda em um abismo. No entanto, havia degraus de pedra que levavam até embaixo. Eu tinha descoberto a entrada para uma passagem misteriosa, uma escada secreta que levava às profundezas da pirâmide.
A Passagem Secreta:
Senti atração pelo desconhecido e o terror em igual medida. Embora estivesse assustada, queria saber o que havia lá embaixo. Perguntava-me se poderia me conduzir a uma saída, uma fuga da prisão na qual me encontrava enterrada.
Olhei para aqueles degraus sob mim. Eu estava assustada, mas sabia que essa poderia ser minha única chance. É claro que poderia ficar e aguardar, na esperança de que um dia alguém me encontrasse antes que morresse de sede. Mas, neste exato momento, as chances pareciam pequenas. Era provável que, se eu permanecesse lá e não fizesse nada, custasse minha vida. Não tinha quase nenhuma chance. Eu precisava descer.
Também havia algo surpreendentemente divertido em encontrar sozinha algo como isso, e, apesar da gravidade da situação, eu não podia conter esse desejo ardente de ser a primeira a andar por aquele antigo caminho que não era pisado há mais de mil anos.
Assim que comecei a descer, com a tremeluzente chama de uma tocha, pude sentir que tremia inteira.
Só Deus sabia o que eu poderia encontrar lá embaixo. Talvez algum tesouro enterrado, como a máscara de jade encontrada na tumba em Chilam Balam, ou quem sabe alguns restos humanos em supuração. Esse pensamento me deu um calafrio.
Os íngremes degraus levavam ao coração da pirâmide. Eles desciam, desciam, antes de mudar a direção e ir ainda mais fundo. Pareciam descer novamente, mesmo no nível do solo, antes de se estreitarem em um corredor pequeno e estreito.
No final do corredor, uma grande laje de pedra bloqueava a passagem. Ao seguir os contornos do corredor de arcos sustentados por modilhões, essa laje tinha o formato de um enorme caixão. Tive a esperança de encontrar esqueletos humanos na passagem, mas não havia nenhum. À medida que caminhava pelo corredor, em direção a ele, minha tocha tremeluziu e apagou.
Vasculhei minha mochila no escuro. Encontrei meu frasco de parafina e o chacoalhei, mas não havia uma simples gota sobrando. A única saída que consegui encontrar naquele momento foi pegar um isqueiro de metal maciço que pegara emprestado de meu pai. Eu o puxei de dentro do bolso e o acendi, para me ver frente a frente com a enorme laje de pedra.
Com a luz de minha chama pude apenas definir que era entalhada com elaboradas inscrições em hieróglifos que vagamente lembravam cabeças, dispostas em três anéis concêntricos. Em seu centro estava a imagem esculpida de um crânio humano. Eu estava presa. Não havia saída.
Percebi que iria morrer.