O Mistério da Caveira de Cristal

Chris Morton e Ceri Louise Thomas · Capítulo 68 de 112

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O Mistério da Caveira de Cristal

Capítulo 65

Laura estava profundamente desconcertada enquanto abria cuidadosamente a carta e começava a ler, intrigada. Dizia:

Prezado Hunab Ku, filho de Hunab Ka,

Como meus olhos não funcionam mais, estou ditando esta carta para você por intermédio de minha boa amiga Maria Castro, que tem sido minha leal governanta nesses últimos trinta anos.

Estou escrevendo a você como sacerdotisa de Uxlahan Maia, detentora da caveira sagrada. Cuidei da caveira de acordo com os ensinamentos dos antigos que foram passados através da linhagem de seus antepassados.

Acredito que honrei os ensinamentos dos ancestrais e agora fiz tudo o que foi exigido de mim, de acordo com a antiga lenda e com tudo o que foi detalhado na pedra profética.

Foi-me dada a responsabilidade de cuidar da caveira de cristal até o momento em que fosse necessário ajudar a consertar, curar e reparar a Terra, no momento em que nossa Mãe Terra estivesse em sua maior crise.

Segui as instruções dadas a mim por seu pai, para assegurar que a caveira ficaria unida àquele que todos nós estamos esperando.

A tarefa a mim concedida foi manter a caveira em segredo e segura até “o momento certo”, até eu ser capaz de encontrar aquele que poderia nos salvar, e eu agora o encontrei.

Esse alguém é Dr. Ron Smith, especialista em cultura maia no Museu Geográfico Smithton.

Sua iniciação já começou, e ele está muito animado com a possibilidade de viajar para a Guatemala para continuar seu treinamento com você.

Agora chegou o momento de a caveira me deixar. Não poderia ser de outra maneira. Meu trabalho finalmente está concluído. A tarefa a mim conferida nesta vida está completa, pois agora estou preparada para me unir aos espíritos e aos ancestrais mais uma vez.

Sinceramente sua,

Assinado Maria Castro,

Em nome de Anna Crockett-Burrows.

— É de Anna Crockett-Burrows! — Laura disse em admiração, olhando novamente para o xamã maia. — Eu não entendo.

— Era sua tarefa encontrar o escolhido — ele respondeu em um tom cheio de si. — Foi por isso que meu pai a ensinou e a deixou ficar com a caveira. Esperamos todos esses anos, aguardando que ela o encontrasse. Porém, os anos se passaram e começamos a desanimar. Não ouvimos nenhuma notícia de Anna. Pensamos que ela talvez tivesse adoecido ou morrido, ou simplesmente se esquecido de sua missão.

— Essa foi a principal razão por eu ter ido para seu mundo, para ver se conseguia encontrá-la, para lembrá-la de seu propósito de vida, da tarefa que ela jurou realizar: encontrar aquele que poderia nos salvar. No entanto, eu não consegui encontrar Anna, então voltei para essas terras com profundo medo do futuro.

— E há apenas duas semanas ela escreveu para dizer que finalmente o havia encontrado. Ela o enviaria para cá, para que pudesse ensiná-lo a entrar na caveira e conversar com a morte. Você sabe que Anna conseguiria fazer isso sozinha, mas não tinha experiência suficiente para ensinar os outros a fazê-lo. Essa seria minha tarefa. Mas agora ele está morto e tudo está perdido.

Ele amassou a carta ruidosamente até que se tornasse uma bola firme e a lançou na fogueira. Laura observou silenciosamente enquanto era consumida pelas chamas.

Ele cambaleou para trás, em direção à caverna, agarrando outra garrafa de uísque da pilha de coisas, e começou a beber de uma só vez.

Laura estava atordoada e confusa. Ela se perguntou se talvez estivesse ouvindo coisas. Ela achou difícil acreditar que o futuro do mundo possivelmente dependesse de seu colega Ron Smith. A própria noção de que o futuro do planeta pudesse realmente repousar em seus pequenos, modestos e corpulentos ombros de meia-idade parecia, de certa forma, absurda. O xamã, contudo, estava visivelmente mexido com a notícia da morte de Ron.

Ela relembrou o momento em que vira a caveira pela primeira vez, rolando pelos dedos rígidos de Ron. Ela estava assustada, mas não tinha noção do verdadeiro temor com ao qual a caveira estava ligada, eventos significativos e terríveis que ela pressagiou. Ela não tinha conhecimento de sua importância na história de nosso planeta. Naquela época, havia sido puramente um objeto de medo. Como Laura fora ingênua, como seu mundo fora pequeno.

Na ocasião, é óbvio que não tinha idéia de que o destino de toda a humanidade dependia daquela única vida humana, daquele frágil fio da natureza, tênue, como uma semente carregada pelos ventos da fatalidade. Era positivamente assustador pensar que o futuro de toda a nossa espécie possivelmente jazia naquela única chance de ligação entre Anna Crockett-Burrows e Ron Smith, o comum e amável Ron silenciosamente ocupando-se de suas tarefas diárias, enquanto todo o nosso futuro dependia de sua sobrevivência. E agora ele tinha ido embora.

Todos aqueles anos em que Ron Smith havia sobrevivido, enganando a morte. Durante todos aqueles anos ele e sua esposa tinham vivido sem saber da importante tarefa a ele conferida, e ele morreu exatamente antes de concluir aquela tarefa. Eram palavras trágicas demais.

Laura começou a se perguntar o que tinha dado errado. “Por que Ron Smith morreu quando tanto dependia dele? Por que ele não fez o que deveria ser feito? Ron talvez tivesse tentado abusar do poder da caveira? Era por isso que ele não tinha conseguido completar a tarefa? Ou seria possível que houvesse algum jogo sujo envolvido? Havia alguém em algum lugar que não queria que Ron Smith tivesse êxito?”

Ela voltou a questionar Hunab Ku, porém ele tinha ido embora. A tora em que ele havia sentado não estava mais ocupada. Ela olhou ao redor, mas não havia sinal dele, ele tinha desaparecido. Ela esperou alguns momentos ao lado da fogueira, mas ele não retornou antes que ela serpenteasse de volta para o interior da caverna.

Lá, à luz das velas, ela o encontrou. Ele tinha trocado a roupa para uma calça jeans velha e uma camiseta que dizia “Eu amo a Guatemala”. Em seu pé, ele calçava um par de tênis que já tinha visto dias melhores. Ele estava vasculhando de modo desajeitado entre as garrafas e as poções de sua mesa provisória. Um jarro de vidro tombou, espirrando no chão o líquido que continha.

— O que você está fazendo? — ela perguntou.

— O que eu posso fazer? Ron está morto! — ele estava ocupado apalpando em busca de outra bebida. Ele encontrou uma pequena garrafa de aguardente. — Esta eu guardei para os espíritos

— disse erguendo a garrafa. — Mas eles não precisarão mais dela — começou a bebê-la em um único gole.

— Mas nós temos que fazer algo para impedir esta catástrofe

— a voz de Laura estava cercada de desespero.

— É tarde demais. Tudo está perdido — seu tom era desanimado, enquanto dava outro trago. — O fim agora está sobre nós.

Laura estava devastada. O que ela faria? Não podia simplesmente ficar sem fazer nada e deixar acontecer. Ela não veria seu precioso Michael e todos aqueles que conhecia simplesmente morreriam sem que tentasse fazer algo a respeito.

Ela olhou fixamente para a caveira de cristal, agora novamente repousada sobre o altar. O xamã dissera que havia apenas uma esperança para a humanidade, e essa era a caveira de cristal. Apenas a caveira de cristal, com a ajuda de Ron, poderia salvar a nós todos. Se Laura soubesse como.

Ela correu os dedos pela superfície suave de cristal da caveira, e, enquanto o fazia lentamente, uma idéia começou a se formar em sua mente.

Em um lampejo súbito de inspiração que atravessou todas as camadas de medo que a cercavam, todo o terror e desespero que ela trazia em relação ao futuro, ficou claro para ela. Se Ron não estava mais lá para fazer sua parte, para “entrar na caveira” e receber o conhecimento sagrado “daqueles do outro lado”, então talvez o xamã pudesse fazê-lo. Era isso. Ele tinha a habilidade. Ele sabia “entrar na caveira”. Ele sabia “conversar com os espíritos e os ancestrais”. Certamente podia fazê-lo. Ele apenas precisava ser convencido.

Ela virou para o xamã com um olhar determinado.

— Talvez você possa fazer. Quem sabe você pudesse acessar a informação? Talvez você possa “entrar na caveira” e “conversar com aqueles do outro lado”. Você pode com os mortos? Se Ron não está aqui para fazê-lo, talvez você possa.

— Não é para ser — respondeu o xamã. — Eu tentei a noite toda, mas a caveira não falará comigo. A profecia diz que apenas aquele que consegue impedir será capaz de acessar esse conhecimento, e agora ele está morto, o futuro está gravado em pedra.

Laura estava chocada.

— Mas foi isso que minha filha disse. Ela me deu uma mensagem através da caveira. É por isso que estou aqui. É por isso que eu vim ler a pedra.

— Sua filha está morta? — Laura balançou a cabeça em afirmativa. — Acho que fui incapaz de salvá-la.

Ela parecia mergulhada em pensamento, até ter outra idéia.

— Mas se eu pudesse conversar com ela — prosseguiu —, talvez ela pudesse nos ajudar — Laura começava a soar bastante desesperada. — Talvez ela soubesse o que estava prestes a acontecer. Você disse que ensinaria Ron a “entrar na caveira”. Bem, talvez agora você possa me ensinar — ela suplicou.

— Não teria utilidade. Apenas Ron poderia ter nos salvado — o xamã maia apanhou a caveira e começou a envolvê-la entre duas peles de jaguar, exatamente como os antigos maias teriam feito. Desse modo eles criavam o que era chamado de “embrulho sagrado”, enrolando seus objetos mais preciosos para transportá-los. Ele o fez para deixar a caverna.

— Você está me dizendo que a mensagem de minha filha foi em vão? — Laura começava a ficar brava com ele. — Mesmo que eu tenha ouvido que o futuro ainda está “gravado em pedra”?

O xamã apenas olhou para ela em silêncio.

— Por favor! Eu posso não ter sido capaz de salvá-la, mas talvez ainda haja tempo para salvar as outras crianças.

— Não haveria motivo. A profecia disse que apenas aquele cujo rosto estava na caveira poderia nos salvar.

Ele tentou deixar a caverna com a caveira, mas Laura bloqueou sua saída.

— E isso? Você sabe que algo absolutamente terrível está prestes a ocorrer e ainda está preparado para apenas esperar e deixar acontecer, sem ao menos tentar mudar as coisas, apenas porque você acredita não ser capaz.

O xamã apenas caminhou diretamente para trás dela e saiu da caverna.

Ela correu atrás dele, gritando:

— Esse tem que ser um dos piores crimes que um ser humano pode cometer. Às vezes temos que aceitar que não podemos mudar as coisas, mas agora mesmo precisamos acreditar que podemos.

— Dê-me a caveira! — ela arrancou o embrulho sagrado dele. — Se você não me ajudar, eu resolverei fazê-lo por conta própria.