O Mistério da Caveira de Cristal

Chris Morton e Ceri Louise Thomas · Capítulo 64 de 112

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O Mistério da Caveira de Cristal

Capítulo 61

16 DE DEZEMBRO DE 2012

A próxima coisa que Laura notou que pôde ouvir um barulho estranho. Começou suavemente, no começo não mais alto do que um sussurro, mas em seguida cresceu em intensidade, cada vez mais alto, até parecer ecoar por todo o espaço em volta. Era um ruído misterioso, como um som de alguém sussurrando ou entoando cânticos em alguma língua estrangeira desconhecida:

- Oxlahun baktun, mi katun, mi tun, mi kin.

Era incrivelmente familiar. Laura teve uma vaga sensação de que ouvira anteriormente esse som em algum lugar, embora não tivesse muita certeza onde.

Mas quando abriu os olhos, tudo o que pôde ver foi a massa de nuvens brancas na frente de seu rosto. Não conseguia se concentrar adequadamente. As nuvens macias pareciam cercá-la, envolvê-la, flutuar sobre ela e se movimentar atrás dela, formando uma névoa densa e espessa, uma neblina através da qual não conseguia enxergar nada. Era impossível dizer onde estava. Não tinha idéia de como aquilo havia chegado ali.

“O que aconteceu? Onde estou?”, ela se perguntou.

Fechou os olhos e os abriu novamente, sentindo como se estivesse flutuando fora do próprio corpo, como se estivesse olhando para si mesma de cima. Através de uma pequena brecha nas nuvens, pensou ter conseguido ver a si deitada sobre as costas, nua, exceto por um fino lençol de algodão branco que havia sido estendido sobre seu corpo. Seu rosto estava fantasmagoricamente pálido.

“Eu estou morta?”

O pânico subitamente agarrou-se ao pensamento. A idéia de que sua vida já poderia ter chegado ao fim a encheu de desespero e tristeza. O pensamento de que nunca mais veria Michael novamente era mais do que podia suportar. Seria muito para quem já havia perdido tanto. Reprimiu as lágrimas que ameaçaram derramar.

“Não, isto não pode ser real. Este não pode ser o fim”, decidiu. Ela estava repleta de uma sensação opressora de que havia mais a fazer, mais coisas para realizar. Não poderia morrer agora quando tantas coisas pareciam não concluídas. Mas os detalhes exatos do que parecia obscuro em sua mente estavam indistintos, como se a névoa que a cercava tivesse de alguma forma penetrado em seu cérebro, fazendo da claridade algo impossível.

Tentando compreender onde estava, esforçou-se para levantar-se, quando sentiu uma dor, uma terrível e insuportável dor percorrendo seu braço e levando sua atenção de volta ao presente com uma intensidade dilacerante. Isso era real, tinha que ser. Não havia nada celestial a respeito de uma dor como essa. “Nenhuma pessoa morta poderia sentir tamanha dor. Eu devo estar viva!”. Ela se sentiu estranhamente aliviada, tranqüilizada, até pela sensação de uma pedra rígida embaixo das costas.

O motivo dessa dor era o ferimento em seu braço, no qual, na noite anterior, uma bala de metralhadora havia esfolado sua carne.

Querendo examiná-lo para ver o que estava errado, tentou se mover, mas estava tão destruída e arranhada que seu corpo doía por inteiro. O esforço era muito e foi deixada somente com a dor, quando espiralou retirando-se para um sono espasmódico.

Não sabia quanto tempo permanecera se movimentando para dentro e para fora da consciência, tentando compreender o que estava acontecendo. Sentiu como se estivesse presa num limbo desconhecido.

Finalmente o barulho a trouxe de volta mais uma vez. Era um som estranho perfurando as profundezas nebulosas de sua consciência. Escorregou por entre as camadas de ilusão que pareciam cercá-la e penetrar sua consciência. Ela tentava compreender aquilo.

- Oxlahun baktun, mi katun, mi tun, mi kin.

Deu-se conta de que era o mesmo barulho estranho que ouvira em seu escritório, o som que a havia apavorado quando o ouvira anteriormente no museu, o mesmo ruído que tinha ouvido na noite em que Ron morrera. Era o som sinistro de uma voz sussurrando com suavidade ou entoando cânticos. Somente agora parecia vir de muito perto.

Laura fitou a densa névoa enquanto o ritmo dos sons a percorreu e a neblina começou a clarear gradualmente. Conseguiu apenas decifrar o que pareciam irregulares paredes de calcário acima e ao seu redor. Quando as nuvens se retiraram, percebeu que se tratava, de fato, de colunas de fumaça e que estava na verdade deitada sobre as costas olhando para o teto de uma caverna vagamente iluminada, cercada por esconderijos e cavidades escuras.

Formas começaram a surgir, sombrias no começo, depois gradualmente entrando em foco. Com um sobressalto, reconheceu os contornos brutos e horripilantes de crânios humanos. Ela vislumbrou um, então outro, depois outro. As nuvens brancas se dissiparam lentamente para revelar que tudo ao seu redor eram crânios humanos, fileira acima de fileira deles. Havia literalmente centenas deles. Percebeu que estava em uma caverna cheia de fumaça e decorada com crânios humanos verdadeiros, entupindo cada cavidade e esconderijo.

“Que lugar é este e o que cargas d’água estou fazendo aqui?”

A cantoria estava opressiva agora, preenchendo sua cabeça, não deixando espaço para seus pensamentos. Tentou se sentar, mas sua cabeça estava tonta, e a sala parecia girar como algum brinquedo bizarro de parque de diversões, com caveiras sorrindo para ela de todos os ângulos. Quando esticou um braço para se estabilizar, uma dor cruel a pegou de modo tão forte que caiu para trás, sobre a cama.

Enquanto estava deitada lá, respirando pesadamente, um odor afligiu suas narinas. Era um cheiro desconhecido, penetrante, amadeirado e estranhamente doce. Olhando através da névoa acima, percebeu que as nuvens de fumaça vinham da queima de incenso.

Na verdade, era a essência perfumada e quente do “copai”, a resina de árvore que os maias tradicionalmente queimavam em seus rituais para purificar espaços e pessoas e dar boas-vindas ao sagrado. Laura tinha visto representações dessa coisa muitas vezes na antiga cerâmica maia. A fumaça era em forma de caudas de serpente enroladas, para que fosse possível compreender do que se tratava.

Virando a cabeça em direção à origem da cantoria e espreitando através da fumaça, viu de relance a pele mosqueada de um jaguar. Suas pintas pretas e douradas se moveram bem diante de seus olhos.

“Mas como isso é possível? Como o jaguar, este rei da floresta, poderia estar nesta caverna comigo?”

Aqui estava um animal tão raramente visto que espreitava a floresta apenas à noite, com um rugido tão atemorizante que botava medo até no coração de cada criatura que lá vivia. Simplesmente não parecia fazer sentido algum. Sua mente, sem dúvida, pregava peças nela.

“Deve ser um sonho, uma alucinação, ou alguma visão induzida por droga”. Ela descartou a idéia. Mas olhando novamente, estava convencida de que o vira se mover. No entanto, enquanto continuava a encarar o animal selvagem diante dela, a figura familiar de um homem surgiu. Ela viu seu casaco tão suntuoso e belo agitando-se em seus ombros firmes.