O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 1
MUSEU GEOGRÁFICO SMITHTON
NOVA IORQUE
1 DE DEZEMBRO DE 2012
O relógio marcava meia-noite. Laura observava a antiga pedra esculpida que estava sobre a velha escrivaninha de madeira à sua frente. Com a luz da luminária de estudo, as figuras estranhas gravadas de modo profundo em sua superfície de calcário desgastada pareciam quase dançar diante dela. Esfregou os olhos. Era tarde. Estava cansada e deveria voltar para casa.
Pela última vez, ela deixou os dedos seguirem o contorno de uma das inscrições, quando esta subitamente estalou. Ela conseguira! Finalmente solucionara. Há dias ela estava intrigada com esses hieróglifos e agora compreendera o significado do primeiro glifo.
Ele diz: “Está escrito”.
Ela sentia um entusiasmo cada vez mais crescente à medida que seguia para a inscrição seguinte. Desta vez, ela a compreendeu quase que de imediato. Dizia: “Nos ciclos do tempo”.
Era isso. Esses eram os momentos pelos quais Laura Shepherd vivia, quando tudo faz sentido. E naquele momento ela pôde compreender o que tentavam dizer aqueles que viveram há mais de mil anos. Sabia que essa pedra era importante. Era a maior da espécie, jamais vista por ela, que agora sabia o motivo. Não havia dúvida de que se tratava de uma antiga pedra maia, esculpida com uma profecia — e ela havia acabado de decifrar o primeiro de dois anéis concêntricos de glifos.
Os hieróglifos dizem “Está escrito… nos ciclos do tempo… que…”
Laura tornou a sentar na cadeira e observou com profunda satisfação o enorme pedaço de pedra. Tinha valido a pena deixar Cambridge e o país onde nascera apenas para isso.
No entanto, sentiu um aperto no coração assim que voltou a atenção para os glifos restantes. A maioria deles estava tão carcomida que seria difícil, talvez impossível, traduzir. “O que será que o restante das pedras diz? O que será que os antigos maias estavam tentando nos dizer a respeito do futuro?” Parecia que ela nunca poderia saber.
Ela se esticou para alcançar o café, agora frio. Foi quando ouviu um barulho estranho que a assustou e a desviou de seus pensamentos. Era um ruído sinistro, como se alguém sussurrasse ou entoasse um cântico em alguma língua
estrangeira: “oxlahun baktun, mi katun, mi tun, mi kin, oxlahun baktun, mi katun, mi tun, mi kin”.
Levantou os olhos à procura; o som cessou. Pensando que fosse sua imaginação, tornou a prestar atenção na pedra, quando o ruído recomeçou. O som parecia vir de um corredor, de fora de seu escritório decorado com painéis de carvalho.
Laura começou a se sentir apreensiva. Quem mais poderia estar no museu a essa hora da noite? Jacob, o porteiro noturno, havia dito a ela, menos de uma hora antes, que se recolheria à sua cabine para assistir a um filme no final da noite. Portanto, improvável que fosse ele. Será que o porteiro teria aumentado demais o volume, a ponto de ela ouvir o som que vinha de dentro da cabine dele? Ela então se arrastou até a porta e ouviu por detrás do vidro fosco, mas foi incapaz de decifrar o barulho.
Ao abrir a porta, despontou no corredor. Demorou alguns momentos até que seus olhos se acostumassem à escuridão. Mas não havia ninguém ali. Tudo o que pôde ver foi o reflexo irregular das luzes de segurança do museu no piso de linóleo encerado.
— Olá. — ela gritou.
Sua voz ecoou pelo corredor escuro.
Não houve resposta.
O ruído parecia vir da escadaria. Laura então arriscou sair cuidadosamente pelo corredor e inclinou-se sobre a borda dos corrimãos de metal retorcidos. Após a curva da grande escada de mármore, brilhava uma luz pálida vinda do corredor logo abaixo.
— Alguém aí? — perguntou. E o sussurro parou repentinamente.
Com cuidado, Laura começou a descer os degraus, quando pensou que ouvira um baque surdo seguido de silêncio vindo do corredor inferior. Seu coração começou a acelerar.
Quando alcançou os degraus mais baixos, não havia sinal de nenhuma pessoa, somente um feixe de luz que
emanava por detrás de uma das portas de vidro fosco mais distante, no fim do hall.
Ela cautelosamente seguiu pela passagem escura e se aproximou da porta entreaberta, cuja janela apresentava as letras do nome “Dr. R. Smith” gravadas em alto relevo.
— Olá! — gritou, revelando em sua voz todo o seu medo.
Mas não houve resposta.
O coração de Laura martelava dentro do peito, enquanto levantava a mão e batia à porta. Com um rangido, a porta abriu por mais alguns centímetros.
Ainda não houve resposta.
Ela respirou profundamente e empurrou a porta, até escancará-la. Então, cambaleou para trás, chocada com o que viu dentro da sala.
Com o rosto afundado sobre a escrivaninha, lá estava o corpo de um homem de meia-idade. Tinha o rosto pálido e estava imóvel. Era seu colega, Dr. Ron Smith, que parecia não estar respirando.
— Ron! — Laura gritou enquanto corria para socorrê-lo. Ela o sacudiu pelos ombros, mas ele não se mexeu.
— Ron Smith! — ela berrou, agora desvairada. Estapeou o rosto do colega e o sacudiu o mais forte que podia, mas ele era um peso morto e ainda não respondia.
Foi quando percebeu que ele segurava algo, apertando-o tanto que as juntas dos seus dedos ficaram brancas. Caiu da mão dele quando ela o sacudiu violentamente. Era um objeto grande e cristalino, que rolou lentamente, de um lado a outro da escrivaninha, antes de parar em frente a Laura. Ela desistiu de tentar fazê-lo voltar a si e olhou fixamente para o objeto, aterrorizada.
Lá, encarando-a, estava a figura de uma caveira. Uma caveira de cristal sólido. Laura a olhou fixamente, como se estivesse hipnotizada, durante o que pareceu uma eternidade.
Recompondo-se, então, ela pegou o telefone de Ron e chamou a emergência.