O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 29
Quando Laura se movia pela entrada de carros da casa de Anna, viu o carro da idosa estacionado próximo à porta da frente. Algo não parecia bem. Os faróis ainda estavam acesos e a governanta se esforçava para retirar algo de dentro dele. Era o corpo desmaiado de Anna. A criada tentava carregá-lo para fora do banco do passageiro. Arrastou o corpo para o gramado e ficou de joelhos na grama coberta de neve.
Saiu do próprio automóvel e correu para ajudar. Anna Crockett-Burrrows repousava na neve. Seu corpo parecia rígido e paralisado; seu rosto, pálido e sem vida. Seus olhos estavam bem abertos, e sua expressão, congelada em um meio-sorriso. Estava agarrada à caveira de cristal. Laura esticou a mão para sentir seu pulso, porém era como se não existisse. Ela estava fria e dura como pedra. A velha mulher estava morta.
— Sinto muito — disse suavemente.
A governanta soltou um grito penetrante de tristeza, então voltou-se para a outra:
— Olha o que você fez! Você a matou! Laura estava confusa.
— É tudo culpa sua! — a criada vociferou. — Ela estava tentando captar a mensagem da sua filha. Ela sabia que era perigoso, mas fez por você. Desde o começo eu sabia que você traria problemas! — a governanta encarava Laura. — Eu disse isso a Anna, e ela apenas sorriu. E, agora, veja o que fez a ela — tentou soltar a caveira da mão de Anna. — Você não escutaria, sua mulher idiota! -lamuriou.
— O que aconteceu? — Laura perguntou.
— Quando você saiu da igreja, ela começou a se tremer inteira. Disse: “Se você não escutar, o futuro está gravado na pedra!”. Ela disse isso repetidas vezes, durante todo o tempo em que tremia. “Se você não escutar, o futuro está gravado na pedra!”. Eu tentei tirá-la disso: Acorda, Anna — eu falei. Acorda Anna! Então ela entrou em coma e eu não consegui trazê-la de volta. Agora está morta, e é tudo culpa sua.
A criada se debruçou sobre o corpo inerte e, com alguma força, soltou a caveira de cristal dos dedos mortos, atirando-a contra a neve.
— Minha pobre Anna se foi.
Ela olhou para Laura, os olhos cheios de lágrimas.
— Ah, meu Deus! O que eu farei? Trinta anos, e agora isso! Minha Anna, morta e enterrada… Ah, meu Deus! O que eu farei?
— sucumbiu, soluçando de modo incontrolável.
Laura tentou passar o braço ao redor dela, a fim de reconfortá-la, porém foi evitada pela criada, que afastou o braço. Michael apareceu solenemente ao lado da esposa:
— A ambulância está a caminho — disse calmamente, guardando o telefone celular.
Quando os paramédicos chegaram, envolveram um cobertor nos ombros da governanta e a levaram embora. Fecharam os olhos selvagens e fixos de Anna, esticaram um lençol sobre seu rosto empalidecido e transportaram seu corpo para dentro da ambulância, cuja sua luz azul piscava no capô. Ouviram uma breve declaração de Michael e Laura antes de auxiliarem a criada a subir na traseira do veículo, onde se sentou ao lado da maca.
Laura ainda estava desesperada para compreender as últimas palavras da senhora, então pediu gentilmente:
— O que você acha que ela queria dizer com “o futuro está gravado na pedra”?
A criada vociferou amargamente em resposta:
— Agora que ela está morta, você nunca saberá!
As portas se fecharam com estrondo no rosto de Laura. A equipe subiu na parte dianteira, e a ambulância partiu na escuridão.
Assim que retornavam aos seus veículos, Michael e Laura perceberam que os faróis do carro de Anna ainda estavam acesos. A caveira de cristal repousava na neve, enterrada pela metade, iluminada pelo brilho dos faróis, ao lado do contorno de gelo de neve muito compactada onde a velha estivera, já morta.
Laura ajoelhou-se para apanhar o objeto, enquanto Michael aproximava-se para apagar os faróis. Assim que o fez, notou a maleta que abrigava a caveira sobre o banco traseiro e abriu a porta para reavê-la. Levantou-a e descobriu um velho álbum de capa de couro embaixo dela. A capa estava amarrada com uma fita dourada. Curioso para saber o que havia dentro, ele desfez o laço e abriu o álbum.
Naquele momento, veio uma rajada de vento que soprou no carro, levantando no álbum algumas das páginas finas que estavam soltas. Michael blasfemou e bateu a porta o mais rapidamente possível, mas algumas das páginas já haviam voado para fora do veículo.
Laura olhou para o alto e viu um pedaço de papel flutuando, enquanto diversas páginas do álbum eram carregadas na brisa gélida. Ela pegou uma delas e a segurou contra a luz que ainda brilhava de dentro do automóvel. Conseguiu decifrar apenas as palavras de um delicado texto escrito à mão, com tinta preta. Olhou a página rapidamente. A data era 19 de fevereiro de 1936. A primeira linha dizia: “Era uma fria manhã de inverno quando partimos de Liverpool a bordo do navio a vapor The Ocean Princess, com destino às Honduras Britânicas”.
Enquanto Laura permanecia ali admirando as linhas e os redemoinhos do elegante texto, gradualmente se deu conta de que olhava para a caligrafia de Arma Crockett-Burrows. Tratava-se, claramente, de uma página do diário pessoal de Anna, aquele que a velha mulher tentara lhe dar quando a visitara pela primeira vez, o qual deixara para trás em meio a seu pânico para sai daquela casa.
— Essa não! — lamentou, enquanto observava as demais páginas serem levadas pelo vento que soprava forte no jardim. Laura percebeu que assistia à história de vida da idosa prestes a desaparecer diante de seus olhos.
— Ajude-me, Michael — gritou ao correr atrás das páginas, tentando desesperadamente agarrá-las quando estas voavam pelo gramado.
Michael puxou sua lanterna e saltou para ajudar. As páginas atingiram a cerca viva, e eles ficaram agradecidos por sua altura. Diversas páginas ficaram presas em seus galhos. Michael esticou-se para soltá-las, usando a lanterna para iluminar a parte mais baixa da cerca viva. Ali descobriram muitas outras folhas, porém não estavam mais legíveis. Estavam manchadas e cobertas de grama. Quantas outras mais haviam se perdido eles não sabiam precisar. Parecia que tinham assistido a muitas simplesmente desaparecerem na brisa.
Laura se deu conta de que aquelas palavras, esse diário que Anna escrevera, agora era a única ligação que tinha com o passado da caveira. Era a única esperança que possuía de responder suas perguntas; a única maneira de saber o que a caveira era e de onde viera; sua única esperança de ter ciência do que a velha mulher queria dizer com suas últimas palavras enigmáticas: “Se você não escutar, o futuro está gravado na pedra!”, e, mais do nunca, sua única esperança de conseguir descobrir como se reconectar à sua linda filha, Alice, por intermédio da caveira.
Eles recuperaram a capa de couro e as páginas restantes no banco traseiro do carro e partiram para casa.
Quando chegaram, Laura foi diretamente à sala de estudos, no andar superior. Eram três horas da manhã. Começou secando no aquecedor as páginas do diário que ainda poderiam estar legíveis e organizando as demais, que haviam sobrevivido intactas. Não dava para negar que algo da história de Anna estava perdido, mas o maior volume aparentemente perdurou.
Parecia incerto que um documento escrito tanto tempo antes, nos anos 1930, pudesse auxiliá-la, mas a verdade é que precisava saber a respeito da caveira o quanto fosse possível. Por mais tênues que aquelas informações pudessem parecer, mais do que nunca era necessário saber. Talvez, apenas talvez, o diário pudesse ajudar. Neste momento, era tudo o que tinha para seguir adiante.
Ela fez uma xícara de café para si mesma, apanhou tudo o que havia conseguido reunir do diário e começou a ler tanto quanto conseguia do que Anna escrevera. Nutria a esperança de encontrar as respostas de que tão desesperadamente necessitava para todas as suas perguntas abrasadoras acerca da caveira de cristal.