O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 72
A área de diagnósticos da Warnburton havia sido convertida da antiga sala de armas de uma casa velha, a qual havia sido dividida em duas salas separadas. Todas as janelas externas haviam sido revestidas com tijolos, e as paredes, pintadas de um branco puro, frio e uniforme. Dentro da sala de diagnósticos, uma parede inteira pareceu ter sido coberta com um espelho comprido que corria por toda a extensão da sala.
Escondida atrás desse espelho, a qual na verdade era uma grande superfície de vidro filmado e reforçado, ficava a sala de observação, um espaço menor no qual a equipe psiquiátrica conseguia observar e monitorar o comportamento de pacientes na sala principal, enquanto permaneciam completamente ocultos da visão do paciente.
Assim como um aparelho de DVD, diversas telas de circuito interno de segurança, um telefone e um computador, a sala de observação também continha uma fileira de confortáveis cadeiras de escritório, nas quais se sentaram Dr. Bacher, Michael e Caleb Price.
— Eu ainda não sei se essa é uma boa idéia — Caleb disse.
O guarda-costas de Caleb permaneceu no fundo da sala com os braços cruzados, enquanto Bacher continuava sua explicação:
— Mas poderia ser vital para meu diagnóstico. Você compreende, a questão é que para Laura a caveira tornou-se uma representação simbólica de sua filha morta. Observar como interage com ela pode ser a única maneira de fazer uma avaliação precisa. Poderia ajudar a clarear se Laura é puramente delirante, talvez maníaca também, ou possivelmente até psicótica borderline — Michael estremeceu ao ouvir Bacher falando de sua esposa dessa maneira.
Porém, não havia nada que ele pudesse fazer, particularmente se ele a quisesse em casa em breve. Quaisquer que fossem suas ressalvas em relação ao plano de Bacher, havia de ser melhor do que a probabilidade de Laura ir para a cadeira. E pelo menos Bacher estava sendo meticuloso o suficiente para levar adiante esse processo de investigar adequadamente o estado mental de Laura, em vez de partir direto para sua forma preferida de terapia, TEC, sem nenhuma pergunta adicional.
A última coisa que Michael queria era que Laura fosse sujeitada a aquilo, que era o principal motivo pelo qual ele havia ajudado a convencer Caleb a apoiar o plano de Bacher. E se ele não estivesse trabalhando tão duro, dedicando 16 horas de trabalho à Nanon e fazendo progressos tão bons em sua pesquisa sobre a caveira, provavelmente nunca teria conquistado o apoio de Caleb. Reconhecidamente, provavelmente fora sua oferta a Caleb de que, se fizesse um favor a ele, poderia aceitar uma porcentagem menor na divisão dos lucros da tecnologia que estavam desenvolvendo que finalmente pressionou Caleb. Com Michael ainda mais em débito com ele, Caleb havia concordado, embora de modo relutante.
— Ok. Que seja! Apenas avance com ela — foi o que Caleb disse agora, pendendo para trás em sua cadeira, como se estivesse esperando um show começar.
O plano de Bacher era duplo. Ele não estava apenas convencido de que ver Laura com a caveira seria uma ferramenta essencial de diagnóstico, mas também acreditava que serviria terapeuticamente como um meio profundo de “teste de realidade” para ela. Quando seus desejos fossem concedidos e ela finalmente entrasse em contato com a caveira de cristal, teria que enfrentar o fato de que a caveira não era tal coisa de “uma passagem para a outra dimensão”. Isso ajudaria a “normalizar” suas expectativas e trazê-la de volta para um modelo mais racional e sensato a partir do qual obteria sentido da realidade, uma que não incluía encontros com crianças mortas!
A explicação de Bacher fez perfeito sentido para Michael no momento. Permitir que Laura visse a caveira poderia ajudar a trazê-la de volta ao normal. No entanto, naquele instante, ele não tinha tanta certeza. Talvez tivesse sido motivado simplesmente por seu desejo de ver Laura novamente, e ele sabia que, se estabelecesse a interação dela com a caveira, conseguiria vê-la. Ele inclinou-se e observou atentamente através do espelho falso. Agora que estava ali, começava a ter sérias dúvidas acerca de toda a situação.
Ele observou cinco enfermeiros psiquiátricos, inclusive um assustadoramente grande, entrarem na sala de diagnósticos. No centro da sala, erguida sobre uma cadeira e posicionada em um travesseiro branco gravado com as palavras “Propriedade da Clínica Warnburton”, estava a caveira de cristal. Sob o berrante feixe de luz a caveira parecia um amarelo pálido e feio.
Michael observava enquanto Laura era trazida para dentro da sala por dois agentes de segurança da Nanon, um em cada lado.
Ele vislumbrou seu rosto, pálido e ansioso, focalizado por uma das quatro câmeras escondidas situadas na área de diagnósticos. Ele pensou que seria tranqüilizante vê-la, mas a visão de Laura na camisa de força, os braços rentes e imóveis contra o corpo, o fizeram se assustar.
De modo instintivo, seus dedos levantaram-se para tocar o vidro filmado que os separava. Ele queria estapear o vidro para ela saber que ele estava lá, com ela, apoiando-a, mas é óbvio que ele sabia que não deveria. Laura não deveria saber que mais alguém estava lá assistindo.
Uma vez dentro da sala e com a porta trancada de modo firme atrás dela, um dos atendentes começou a remover sua camisa de força. Em seu lugar, o Chefe de Segurança da Nanon segurou suas mãos atrás das costas e fechou um par de algemas em volta de seus pulsos — uma das condições de Caleb caso Laura tivesse a permissão de se aproximar da caveira. Ele então pegou um pano preto de seu bolso. Era uma venda — outra condição de segurança para evitar que Laura tentasse fugir com a caveira. O guarda posicionou a venda sobre os olhos de Laura e em seguida levantou uma das mãos, indicando que estavam prestes a prosseguir.
Michael, Bacher e Caleb observavam atentamente através do vidro filmado da janela da sala de observação para ver os agentes de segurança da Nanon, um em cada cotovelo, conduzindo Laura para frente, as mãos algemadas atrás das costas, em direção à caveira. Os enfermeiros aguardavam silenciosamente à porta. Os agentes de segurança estavam vestidos de preto, e, enquanto conduziam Laura para se ajoelhar diante da caveira de cristal, olharam de repente para Michael, como se fossem os executores dela. A respiração de Michael embaçou o espelho da sala à sua frente.
— Sente-se — disse Caleb. — Relaxe.
Michael sentou-se de modo relutante.
Sobre o monitor de áudio, eles puderam ouvir Laura pedir a seus carcereiros:
— Por favor, apenas alguns momentos finais com ela?
— Eu deveria estar lá com ela! — Michael afirmou, começando a se levantar.
Bacher levantou a mão:
— Por favor, não — disse de modo firme. — Precisamos ver como ela interage com a caveira sozinha.
— Ei, pensei que tivéssemos concordado… — Caleb falou, sentando-se ereto em sua cadeira.
— Vejam — Bacher disse, levantando os dedos das duas mãos para indicar o número de pessoas que estavam a postos. — Há sete pessoas naquela sala. Podemos deixá-los todos esperando por ela do lado de fora de uma porta trancada.
Caleb levantou-se, caminhou até a janela de observação, e lentamente inspecionou a cena.
— Caleb — Bacher continuou —, a mulher está vendada e algemada. Eu posso garantir pessoalmente que a segurança não será um problema. Que dano poderia causar? — perguntou.
O relógio na sala de observação marcava os minutos ruidosamente.
Caleb pressionou seu sistema de comunicação interna com os guardas:
— Tudo bem…, mas apenas um minuto! — falou a contragosto.
Os agentes da Nanon deram alguns passos para trás, antes de abandonarem a sala com a equipe de enfermeiros, deixando Laura sozinha com a caveira.
Da sala de observação todos observavam tensamente enquanto Laura sentava-se de pernas cruzadas diante da caveira. A imagem de Laura vendada era estranha demais, tão perturbadora que Michael mal conseguia suportar olhá-la, o estava fazendo ficar inacreditavelmente tenso. Ele olhou para baixo e percebeu que agarrava os braços da cadeira tão forte que seus dedos estavam brancos. Soltou. Devia se acalmar. Era apenas um experimento psicológico destinado ao propósito expresso de ajudar sua esposa. O que poderia dar errado? Ele respirou profundamente.
Olhou a esposa de relance. Ela estava sentada, com a coluna muito reta, e ele pôde ver que respirava profundamente. Ela parecia muito quieta e tranqüila, não era nada do que ele esperava. Sem dúvida, as lágrimas e as emoções logo surgiriam.
Caleb batia os pés incansavelmente. Michael desejava que ele parasse. Ninguém mais pareceu notar. Todos esperavam pelo momento de realização de Laura, um que, teoricamente, viria logo. Poderia acontecer em alguns momentos, ou poderia levar mais do que algumas horas, mas cedo ou tarde teria de enfrentar o fato de que não havia realidade além desta.
Quando Alice falhasse ao se materializar, aparecer na sala, ou qualquer outra cosa que Laura pensava que aconteceria uma vez que estivesse na presença da caveira, sua visão de mundo delirante seria seriamente desafiada. E era um fato que esse processo a desapontaria — Bacher explicou isso —, porém era um preço baixo a se pagar para conseguir corrigi-la novamente — Michael pensou.
Becher então faria seu diagnóstico, eles devolveriam a caveira ao laboratório, e ele seria capaz de prosseguir com sua pesquisa sabendo que Laura tivera um diagnóstico apropriado, um plano de tratamento e até, possivelmente, uma data provisória para sua soltura — ele esperava. Isso era o que Michael queria saber, que trazia sua Laura de volta. Então, por que ele não conseguiria retirar a terrível sensação de pavor que estava presa em seu intestino? Particularmente, quando a ansiedade que havia se destacado mais cedo no rosto de Laura, quando ela caminhara sala adentro, desaparecia diante de seus olhos.
Ele se perguntou o que se passava dentro da cabeça de Laura, no que ela pensava enquanto ele observava a tensão que sobrava sair de seu rosto e uma expressão serena surgir. Acabaria logo, ele sabia disso.
Os lábios de Laura começaram a se mover, foi inaudível no começo, e, então, as palavras ficaram mais altas. Laura começou a entoar um cântico, lentamente no começo, proferindo as palavras suavemente para si mesma:
— Oxlahun baktun, mi katun, mi tun, mi kin.
Bacher apanhou uma caneta de seu bolso e rabiscou uma anotação para si.
— O que ela está dizendo? — Caleb perguntou a Bacher.
— Shssh! — Bacher sussurrou, encarando Laura intensamente.
O cântico prosseguiu:
— Oxlahun baktun, mi katun, mi tun, mi kin — repetidas vezes, tornando-se cada vez mais alto.
Todos assistiam a tudo em suspense enquanto o cântico de Laura ficava mais alto ainda. Então, ela de repente inclinou-se e repousou a própria testa contra a testa da caveira.
Dentro da sala de observação, Caleb saltou sobre os pés.
— O que ela está fazendo? — exclamou. — Afaste-a dela. Ela não pode tocá-la.
Furiosamente, foi apertar o sistema de comunicação interna com os guardas.
Bacher tocou seu braço:
— Por favor, isso é decisivo, por favor! Espere!
O dedo de Caleb pairou pelo botão, enquanto Bacher prosseguia em voz baixa:
— Não se preocupe, a enfermeira Simms está de prontidão com uma dose de sedativo. Ela está pronta e aguardando. Temos assistência farmacêutica, caso o paciente… — ele olhou rapidamente para Michael — caso Laura fique muito perturbada.
Caleb parou de pressionar.
— Está certo — disse de modo firme —, ela tem mais um minuto, e nem mais um segundo.
A tensão crepitou no ar enquanto eles observavam Laura detrás do espelho, sua testa pressionando firmemente contra a caveira.
Então, de repente, o corpo de Laura ficou mole, e ela caiu amontoada no chão.