O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 34
À medida que o velho homem falava, Laura constatava que sua mente flutuava de volta ao que ela já tomara conhecimento pelo diário de Anna:
— Eu nunca esquecerei aquele dia, quando nós finalmente a encontramos. Estávamos todos tão preocupados com ela. Ela havia desaparecido, entende? Não tínhamos visto nenhum sinal dela por quase um dia. Não tínhamos noção de onde estava. Chamamos por seu nome, a procuramos em todos os lugares, porém ela aparentemente tinha desaparecido sem qualquer rastro. O pobre Frederick estava assolado pela preocupação, quando um dos ajudantes maias que havia escalado a pirâmide principal ouviu o grito dela, que parecia ser de alegria!
“Devo dizer que estávamos todos um pouco surpresos com seu contentamento, no momento em que a içamos com aquela corda debaixo do chão quebrado do templo. Pudemos ver que ela agarrava algo dentro de sua mochila. Assim que saiu do templo em direção aos raios do sol, parou e a tirou de dentro da bolsa. Ela a segurava nos braços, acalentando-a como um bebê. Seu rosto estava radiante, nunca a vi tão bela. Parecia tão serena. Então, percebi do que se tratava, o que ela estava segurando.
Era a caveira de cristal.
Houve um silêncio atordoante quando fitamos o que encontrara. Ficamos fascinados. O pai de Anna, Frederick, pegou a caveira e ficou em pé de frente ao templo, no topo dos degraus da pirâmide, segurando a caveira ao alto para todos verem. Esta captou o sol da manhã, refletindo-o para todos os lados, em uma miríade de cores diversas, como um arco-íris. Então, todos pareciam ao mesmo tempo ter ficado eufóricos. Todos os ajudantes maias que estavam no sítio pareciam reconhecer a caveira. Eles começaram a rir e a chorar, e a se abraçar e beijar mutuamente. Foi um momento verdadeiramente mágico.
Recordo-me de que ao cair da noite, quando as primeiras estrelas surgiram no céu, Frederick Crockett-Burrows colocou a caveira em um altar de madeira improvisado que os assistentes maias ajudaram a construir. Fogueiras foram acesas por toda parte e à luz da chama observávamos enquanto o povo maia se ajoelhava diante da caveira. Eles entoavam hinos e beijavam o chão em frente a ela.
Lembro-me daquela noite. Houve batucada, você sabe, e aqueles dançarinos incríveis surgiram das sombras da floresta como se fosse do nada, decorados com plumas de aves tropicais e peles de jaguar. Mal podíamos acreditar naquele povo necessitado tão elegantemente ornamentado. Giravam a caveira no ritmo do tambor. Ela parecia magnífica, colocada no meio dos dançarinos, refletindo a luz das fogueiras. Quando nos sentamos e assistimos àquela noite de regozijo e celebração, acredito que todos nós nos sentimos como se alguma força antiga e poderosa tivesse retornado às vidas dos que estavam presentes.
É claro que Gus Arnold não vira a caveira até o dia seguinte. Ele estava acamado por causa de uma crise de ‘diarréia do viajante’, e por isso perdera nosso primeiro encontro com o estranho objeto que Anna encontrara. Quando ele a viu, não pude ficar mais surpreso com sua reação. Há de se lembrar que ele era um arqueólogo extremamente respeitado, uma autoridade pioneira em seu campo. Gus observou a caveira por muito tempo, continuou tocando nela até que caiu em lágrimas! Ele chorou muito. Eu não sabia o que dizer! Quando ele finalmente secou os olhos, suas únicas palavras foram: ‘Isto muda a história, vocês sabem. Muda tudo!’
Você entende que Gus conseguira ver que a caveira de cristal não era nada que os maias tinham feito antes? Como você sabe, sua arte era extremamente estilizada. Eles retratavam os rostos de deuses e reis, não de pessoas reais. Não havia nada realista ou naturalista nas imagens que eles criaram. Esse não era o objetivo de sua arte. E, mesmo assim, lá estava um objeto que exibia um grau formidável de exatidão anatômica — uma representação perfeita e cientificamente precisa de um crânio humano. Era um objeto em total desacordo com qualquer outro encontrado em um antigo sítio arqueológico maia, um objeto que não se enquadrava no que conhecíamos sobre a expressão criativa dos maias, um artefato claramente avançado em relação ao que eles haviam produzido antes.
Gus pôde ver que eram espantosas as implicações desse achado para a arqueologia moderna. Os livros de história teriam que ser reescritos! Não havia outra saída. Havia uma cronologia reconhecida, como você sabe: mesopotâmios e egípcios, seguidos pelos antigos gregos e romanos, todas as civilizações europeias, até chegar na civilização dos dias atuais. Nós, no mundo ocidental moderno, estamos claramente no auge da evolução da humanidade. Um bando de selvagens da América Central sedentos por sangue não poderia ser mais avançado do que nossos ancestrais eram naquela época.
Mas a descoberta da caveira de cristal levantou a possibilidade da existência de uma civilização anterior que possuía habilidades técnicas mais avançadas do que a maia. E depois, claro, existia a possibilidade ainda mais apavorante de esses ancestrais primitivos poderem se relacionar, de algum modo, com os temidos atlantes aos quais se referiu Frederick Crockett-Burrows. Muitos podem argumentar que essa poderia ser a única explicação. Era um território muito estimulante, do ponto de vista arqueológico, e era óbvio que Frederick, pelo menos, estava convencido de que a caveira fornecia provas da existência de Atlantis.
Gus Arnold, obviamente, nunca usava a expressão Atlantis’ como se fosse um tipo de tabu no circuito da arqueologia, mas ainda assim falou da caveira “salientando a possibilidade de uma pré-civilização maia com um grau incomum de conhecimento técnico”, que era o mais próximo que ele conseguia chegar de proferir a palavra que começa com ‘A’. Não me leve a mal, Gus estava eufórico com a caveira, como o restante de nós.”
— Eu não entendo — Laura disse. — Vocês todos estavam maravilhados com a caveira, dominados por suas implicações arqueológicas. Você diz que isso poderia até ter mudado a história mundial aceita, e mesmo assim vocês nunca a levaram para um museu? Nenhum de vocês sequer mencionou tê-la encontrado. Eu não compreendo como isso pôde ter acontecido.
Richard deu um suspiro profundo.
— Eu me perguntei isso muitas vezes, mas não poderia prever como as coisas se desenvolveriam.
Laura parecia intrigada.
— Suponho que o verdadeiro problema era que os maias locais consideraram que a caveira tinha retornado para eles. Eles pareciam de certa forma rejuvenescidos pela descoberta. Houve rumores de que o retorno do objeto havia sido profetizado. Os maias acreditavam viver em uma era conhecida por eles como “o véu de lágrimas” e que a aparição da caveira de cristal anunciava o final daquela era terrível e o início de uma nova era chamada “o tempo do despertar”, a qual representaria uma época muito mais esperançosa para seu povo.
— Você entende que o que as pessoas geralmente esquecem é que a chegada dos conquistadores espanhóis, cerca de quinhentos anos atrás, destruiu muito do que foi deixado da antiga cultura maia? O desejo dos espanhóis por ouro deixou muitos sítios, como Luvantum, profanados, revistados por homens ávidos por ouro, jóias e riquezas. É incrível
pensar que a antiga civilização maia também possuía uma herança fantástica de codexes de hieróglifos — livros que foram cuidadosamente pintados sobre pergaminhos. Todos eles foram destruídos pela Igreja. É claro que você já sabe disso tudo, mas Luvantum foi minha primeira viagem para a América Central, e pegou-me de surpresa descobrir que a invasão espanhola de cerca de quinhentos anos antes ainda tinha um impacto naquelas pessoas.
“Quando eu cheguei lá não tinha conhecimento de como a destruição da cultura dos povos maias tantos séculos antes havia deixado tamanha devastação contínua em seu despertar. Com suas vidas social e religiosa destruídas, aquelas pessoas outrora nobres passaram a viver sob o domínio do império espanhol. Não é de se admirar que, quando a caveira de cristal apareceu, eles quisessem celebrar este poderoso símbolo de mudança em seu destino.
Acredite em mim, os maias queriam ver aquela caveira. A notícia se espalhou, e nosso tranqüilo sítio arqueológico se tornou um imã para pessoas de toda a região. Tornou-se um lugar de peregrinação, em sua maioria de gente mais velha. Elas se ajoelhavam em frente à caveira, praticavam magia, rezavam e acendiam incenso. Para os maias, era um negócio muito sério. Eles pareciam pensar que a caveira tinha algo a ver com seus longos ‘ciclos do tempo’.
Eles aparentemente acreditavam que a caveira era uma parte vital do nascimento de uma nova era. De acordo com eles, todas as ocasiões tinham de ser de renascimento, e como os próprios maias sabiam tão bem, o tempo de renascer pode ser tumultuado. Eles dizem que é uma época durante a qual não é possível saber se uma era terá um nascimento bem-sucedido ou não. Aparentemente, não pode ser mais garantido do que o nascimento auspicioso de uma criança.
De qualquer modo, eles levam tudo muito a sério, e eu temia em pensar como reagiriam no dia em que disséssemos a eles que a caveira voltaria conosco para a Inglaterra. Eu preferia pensar que Frederick tinha esperança que o interesse pela caveira enfim diminuiria, e eles retomariam suas atividades costumeiras. Mas, infelizmente, esse não era o caso.”