O Mistério da Caveira de Cristal

Chris Morton e Ceri Louise Thomas · Capítulo 19 de 112

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O Mistério da Caveira de Cristal

Capítulo 15

Após o término do expediente, Laura levou a maleta com a caveira do laboratório para seu escritório, colocando-a sobre a escrivaninha. Agora intrigada com o que Ian havia lhe dito, decidiu olhar mais de perto. Soltou o fecho, abriu a tampa e removeu a caveira cuidadosamente de dentro da maleta.

Parecia surpreendentemente fria ao toque e pesada assim que começou a estudá-la minuciosamente pela primeira vez, sob a luz de sua velha luminária.

Estava perplexa com sua genuína precisão anatômica, o modo como parecia refletir perfeitamente o tamanho, as dimensões e os detalhes de um crânio humano verdadeiro. Não apenas tinha a mandíbula separada e móvel, mas o crânio tinha o padrão zigue-zague das “marcas de sutura” na parte superior, exatamente igual àquele encontrado entre os “discos” separados de um crânio real.

Passada a repugnância inicial de se ver diante da imagem da caveira, passou a ficar maravilhada com a incrível façanha técnica de criar um objeto inacreditavelmente perfeito como aquele. Enquanto refletia sobre a questão de que tipo de ferramentas poderia ter sido utilizado de modo que não fossem deixadas marcas em sua superfície suave como a seda, ela se sentia gradualmente atraída por sua beleza absoluta, e seu olhar era lentamente levado para o interior transparente e cristalino da caveira.

Lá poderia literalmente ver centenas de pequeninas bolhas de ar que haviam ficado presas dentro do objeto, datadas de quando o cristal fora formado no fundo da crosta terrestre. Essas minúsculas bolsas de ar às quais Ian havia se referido como “inclusões” pareciam quase reluzir diante de seus olhos, como estrelas muito pequenas em um distante sistema solar.

Começou a girar a caveira nas mãos. Enquanto fazia isso, conseguia até ver os pequeninos contornos de luz arco-íris sendo refletidos a partir de sua superfície e refratados em seu interior multifacetado. Era realmente um objeto magnífico, uma obra de arte impecável. Estava extasiada enquanto fitava a caveira, ainda rolando-a pelas palmas da mão, e uma imagem apareceu dentro dela, de repente, pegando Laura de surpresa. Espantada, ficou ofegante. Era a imagem de uma criança pequena, de rosto bonito, olhando para fora da caveira. Foi apenas o mais breve e mais veloz dos vislumbres, e então se foi.

Recuperando o fôlego, girou a caveira novamente, tentando observar pela segunda vez. A imagem reapareceu exatamente como antes. Levantou o objeto na tentativa de ter um ângulo diferente, e só nesse momento percebeu que sua “visão” era na verdade apenas o reflexo da fotografia, emoldurada e apoiada na parte frontal da mesa, de sua filha, Alice, de quatro anos de idade.

A foto havia sido tirada alguns anos antes, quando estavam de férias em Maine. Como tinham sido felizes. Michael e Alice haviam acabado de construir um castelo de areia imenso. O sol brilhava, e o vento soprava o cabelo comprido e loiro da menina. Laura observou a imagem com insondável pesar.

Com o coração pesado, deu o dia por encerrado.

Começara a guardar a caveira de volta na maleta quando pensou ter visto algo de relance, movimentando-se muito rapidamente, fora do campo de sua visão. Virou-se e viu um pedaço de papel caindo suavemente no chão, como se estivesse sendo soprado por uma corrente de ar não sentida por ela, um vento estranho e imperceptível.

Aproximou-se do papel e o apanhou. Era um documento de Ron, a página de abertura do Departamento de Polícia, que dizia: “Propriedade do Dr. Ron Smith — Falecido”.

Laura o estava colocando de volta ao lugar, sobre a pilha de papéis de Ron, na mesa lateral, quando escutou novamente aquele estranho ruído. Foi mais fraco no começo, e alguém podia pensar que fosse o barulho do ultrapassado sistema de aquecimento central do museu, porém ela sabia que não era. Estava com medo e chegou a sentir um frio na boca de estômago, quando aquele sussurro recomeçou.

Era o mesmo que ouvira na noite da morte de Ron, mas desta vez estava diferente. Soava mais intenso e insistente. E desta vez parecia dizer seu nome.

- Laura!… Laura!… Laura!

Ela tentou ignorar esse sussurro, mas ele não cessava. “Não! Me deixa em paz!” Cobriu os ouvidos, na tentativa de acabar com o som, mas ainda estava lá.

Ao tentar descobrir a fonte, para finalmente colocar um ponto-final nisso, de uma vez por todas, ela se viu atraída mais uma vez para o corredor escuro, então descendo as escadarias em direção ao andar inferior, exatamente como havia feito uma semana antes.

A entrada do escritório de Ron agora estava escura e lacrada com fita amarela, com os seguintes dizeres: “LIMITE POLICIAL — NÃO ULTRAPASSE”. Laura, no entanto, entrou mesmo assim. Por motivos que não sabia explicar, queria entrar naquela sala, e, antes que se desse conta, havia rasgado a fita de proibição e empurrado a porta, escancarando-a.

Enquanto tateava à procura do interruptor, viu-se momentaneamente transportada de volta à semana anterior, meio que esperando encontrar Ron deitado lá, morto. Em vez disso, encontrou o escritório vazio, exceto pelos móveis mais simples. Apenas quadrados de tinta desbotada continuavam no lugar em que, outrora, pôsteres coloridos e pinturas estiveram pendurados, e um velho relógio preso na parede empoeirada, cujo tique-taque ecoava alto pela sala vazia. Embora não tivesse certeza acerca do que esperar exatamente ou por que se sentira tão incitada a descer ao escritório de Ron mais uma vez, foi estranhamente perturbador ver a sala tã despida da identidade dele. Todas as coisas que faziam parte dele se foram.

Sua atenção voltou-se para o relógio.

“Devia ter pertencido ao Ron”, pensou. O objeto permaneceu lá, resoluto e provocador, era a única lembrança de que a sala havia um dia sido dele. Mas o fato de o relógio agora estar arqueado parecia uma afronta à memória de Ron. Então, ela se aproximou para endireitá-lo.

Subiu na grande e velha mesa, mas mal conseguia alcançá-lo de lá, então agarrou a cadeira de escritório que estava entre a mesa e a janela, deslizou sobre suas rodinhas até ficar junto à parede para poder subir.

“Assim é melhor”, pensou, mas percebeu que apenas subindo pelos braços da cadeira é que de fato conseguiria chegar perto do relógio.

Estava esticando os braços em direção ao objeto quando ouviu um grasnar de corvo vindo do lado de fora, e olhou pela janela.

De repente, deu-se conta do quão desequilibrada estava ali, em pé, nos braços de uma velha cadeira de escritório com rodinhas, bem próximo da enorme janela de estilo georgiana que se estendia do chão até o teto.

Olhou para baixo. A quatro andares dali estava o parquinho, sombrio sob as luzes das ruas, local em que Ron tinha o hábito de comer seus sanduíches no verão. Parecia tão pequeno deste ângulo, diminuído pelos imponentes arranha-céus que ficavam a sua volta.

O parque estava deserto nessa hora da noite, exceto por um homem. Laura ficou um pouco tonta ao vê-lo de tão alto. Ao avistá-lo caminhando pelo parque, o reconheceu. Era o mesmo rapaz que encontrara anteriormente nos fundos do museu, aquele que gritara injúrias e dissera que ela seria a “próxima”.

“Ah, meu Deus, Ron morreu nesta cadeira! Serei eu a próxima?” Sem coragem, de repente escorregou e perdeu o equilíbrio. A cadeira girou embaixo dela, fazendo-a cair e chocar-se contra a janela. “Ah, meu Deus, é isso!”, pensou assim que viu o chão se aproximando gradativamente.

Então, felizmente, seu ombro acertou primeiro a estrutura da janela, e Laura voltou, evitando que todo seu corpo se chocasse contra o vidro. Em vez disso, caiu na sala de modo desajeitado, e sua coxa colidiu acidentalmente com a extremidade da pesada mesa de madeira de Ron, a qual se deslocou alguns centímetros, enquanto caiu em segurança, mas dolorosamente, no chão.

— Ai! — ela gritou, contorcendo-se de dor e instintivamente esticando a mão para tocar o ponto dolorido em sua coxa, a fim de massageá-la melhor. Ferida e abalada, se esforçou para se colocar em pé, olhando para a perna na tentativa de avaliar o estrago. Felizmente, nada estava visível, e, em vez disso, sua atenção foi levada para algo que agora despontava alguns centímetros embaixo da mesa de Ron. Parecia um envelope ou uma tira de papel.

Curiosa para saber do que se tratava, alcançou e o pegou. Era uma etiqueta destacável, semelhante às utilizadas por transportadoras, que deve ter caído de entre os painéis das gavetas da escrivaninha. Portanto, havia passado batido quando a polícia fez a limpeza do lugar.

A etiqueta estava endereçada “Ao Especialista em Civilização Maia”, no “Instituto Geográfico Smithton”. Estava preenchida com o nome e o endereço do remetente, um “A. Crockett-Burrows” de “The Grange, em Eastwich”, interior do estado de Nova Iorque, e junto havia sua “Lista de conteúdo”, a qual dizia: “1 X caveira de cristal”.

Laura imediatamente tateou à procura do telefone celular e ligou para o Auxílio à Lista.