O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 21
Naquela tarde, Laura despediu-se de Michael com um beijo quando saía do banco do passageiro em direção à orla.
— Desculpe, querida, mas eu prometi a Caleb que terminaria o artigo — disse Michael num tom de lamento.
“Seu novo emprego como diretor de pesquisa na Nanon Systems Micro-Eletronics geralmente exigia que trabalhasse aos fins de semana, e seu novo chefe, Caleb Price, parecia ainda mais exigente do que o anterior”, Laura pensou.
— Reservei a mesa para as seis horas — Michael acrescentou, como forma de compensação.
— OK, te encontro lá — disse Laura enquanto fechava a porta.
Ela precisava fazer compras de Natal, mas não havia clima para isso. Vagou então por toda a orla, observando a vastidão cinza da água, as balsas enquanto abriam caminho indo e vindo de Staten Island.
Pensou em Alice e se lembrou das pessoas que disseram que sua dor provavelmente seria “complicada” em razão da culpa que inevitavelmente sentiria com o fato da filha ter morrido sob seus cuidados. Às vezes, a perda parecia quase tão dolorosa quanto no dia em que acontecera, como uma ferida que nunca cicatrizara. Como hoje, quando a sensação de perda de era palpável.
Vagando sem destino certo, encontrou-se de repente no meio de uma feira dominical. Desconfortável por estar cercada por tantas pessoas, todas se empurrando e se atropelando enquanto vasculhavam as barracas à procura de pechinchas de Natal, encontrou abrigo em uma joalheria.
Músicas natalinas tocavam suavemente ao fundo enquanto observava alguns relógios dispostos dentro de um armário de vidro. Fora do alcance de seus olhos, teve um vislumbre de um balão de hélio com desenho do globo terrestre, exatamente igual àquele que ainda pairava sobre a cama de Alice. Tinha a ponta amarrada com um pedaço de barbante, enquanto flutuava do outro lado do balcão. Ela pôde ouvir o riso divertido de uma criancinha quando puxava o balão atrás de si, numa posição em que seus cachos loiros ficavam bem visíveis por cima da parte superior do armário.
No final do balcão, o balão parou, e Laura olhou para baixo para perceber que era segurado por uma linda menina de quatro anos de idade, acompanhada por sua adorável mãe. O coração parou por um momento. Por um instante, a garota se pareceu exatamente com Alice.
Nesse momento, a vendedora voltou sua atenção a ela.
— Procurando algo em especial? — perguntou a vendedora de meia-idade, com um sorriso cordial, pegando um dos relógios: — Que tal este aqui? Vem com garantia vitalícia.
Mas Laura não estava prestando atenção. Ela ainda observava a garotinha segurando o balão. Alguma parte dela queria acreditar que era Alice, que aquela era sua menininha e que tudo havia sido apenas um pesadelo. A garotinha olhou de volta, com os olhos bem abertos, em resposta ao olhar. Era linda, mas não era Alice.
Percebendo para o que Laura olhava, a vendedora sorriu indulgentemente para a menininha e disse:
— Eles não são adoráveis nessa idade?
Laura não respondeu. Ela já se dirigia à porta, lutando para segurar as lágrimas e deixando a coitada da vendedora se perguntando o que havia dito que a ofendera.
O que vivera até aquele momento já era suficiente, pois não havia sido um bom dia para um passeio de compras de Natal. Não depois da última noite. Precisava se livrar daquelas aglomerações. O novo relógio de Michael teria de esperar.
Ela puxou o casaco firmemente para se proteger do frio e se dirigiu à rua lotada, sentindo-se muito abalada. As barracas estavam abarrotadas, e a calçada estava agitada, pois os compradores engalfinhavam-se com excessivas sacolas de presentes.
Por sobre o mar de cabeças, notou uma placa segurada por um pregador maltrapilho, que gritava em seu alto-falante, determinado a ser ouvido acima dos berros dos vendedores ambulantes e o zumbido de geradores:
— O fim do mundo está próximo!
Ao alcançar o final da rua de pedestres, Laura estava prestes a chamar um táxi, quando percebeu um pequeno letreiro de néon pendurado acima de uma loja no subsolo. Dizia: “Avril — clarividente, vidente, médium, taróloga”.
Parou por um momento. Geralmente não tinha tempo para esse tipo de coisa, mas estava curiosa. Não conseguia parar de pensar na fita de Wilson e em como aquela idosa maluca de alguma forma soubera onde estava. Talvez a tal “vidente” pudesse responder algumas de suas perguntas pendentes.
Deixando o táxi seguir adiante, cruzou a rua em direção à loja, hesitando por um momento antes de descer os degraus íngremes rumo ao salão de consulta, localizado no porão.
Após entrar na loja, olhou ao redor da pequena sala. Estava pintada de um leve rosa bebê. Uma coleção de diferentes cristais se alinhava às estantes de livro. No centro da sala havia uma mesa redonda coberta por uma toalha de veludo roxa; atrás dela, uma velha poltrona.
Na parede atrás disso, um cartaz grande, escrito à mão com caneta hidrocor. Dizia: “Consulta inicial 20 dólares”.
Laura se viu perguntando a si mesma o que fazia lá. Nunca teria colocado os pés num lugar como aquele se Michael estivesse com ela, e agora lá estava, sem ter tanta certeza se isso ajudaria. Michael acreditava que lugares como esse eram administrados por pessoas inescrupulosas, charlatães que inventavam qualquer coisa que imaginassem que o cliente gostaria de escutar, e então cobravam dele por esse privilégio.
Na parede ao lado do cartaz havia uma arrumada fileira de certificados emoldurados da “Escola de Estudos da Vidência de Nova Iorque” e de várias outras organizações de formação de artes da vidência. Foi uma grande surpresa para Laura existir cursos de treinamento para essas coisas. Avril deveria ter obtido todas as qualificações na sua área de especialização. Laura sorriu para si mesma com esse pensamento.
— Olá! — alguém atrás dela a cumprimentou. — Sente-se. Laura virou-se para ver uma mulher de cerca de cinqüenta anos, elegantemente vestida. Seus cabelos loiros eram curtos e arrumados, e seu limpo vestuário fez Laura pensar que ela fosse uma eficiente promotora de justiça bem posicionada. Não havia sinal do cabelo preto ondulado, dos brincos dourados, nem das saias ciganas compridas e rodadas que Laura havia previsto.
— Obrigada — respondeu, momentaneamente desconcertada pela aparência absolutamente comum de Avril.
— Então, o que posso fazer por você? — questionou educadamente, enquanto se sentava na poltrona oposta.
— Desculpe… eu nunca fiz nada parecido com isso antes — Laura começou a se explicar de modo hesitante —, mas algo aconteceu comigo recentemente, e eu quero saber se… se alguém que morreu… está tentando se comunicar comigo — achou difícil acreditar no que ouvira a si mesma dizer.
— Você quer dizer alguém do outro lado? — Laura se viu balançando a cabeça em afirmativa enquanto Avril continuava. — As pessoas não morrem de fato, você entende, elas apenas atravessam para o outro lado. A gente poderia dizer que as pessoas que morreram simplesmente se mudaram para outro reino.
Parecia estranho falar dos mortos dessa forma, e achou intrigante. Seus pais eram ateus. Ela havia crescido com a crença de que tudo o que você tem é uma vida curta e, quando tudo acabava, não havia mais nada. Porém encontrou algo estranhamente confortador nas palavras de Avril, mesmo não tendo certeza de que houvesse verdade nelas.
Avril agora colocava uma bola de cristal no centro da mesa. Era bem menor do que a caveira de cristal, nebulosa e grosseiramente talhada. Passou os dedos de longas unhas por sua superfície e encontrou os olhos da outra com um olhar fixo.
— Como funciona? — perguntou.
— Chamamos de “canalização” — Avril respondeu. — O cristal é como se fosse um dispositivo de foco. Eu entro em transe, de modo que consigo receber mensagens daqueles que estão do outro lado. Contudo, não é sempre confiável — ela advertiu. — Os mortos falam muito, e às vezes tudo o que consigo captar é interferência. Você ainda quer que eu tente?
Laura refletiu por um momento. Avaliou que realmente não tinha nada a perder, além dos vinte dólares da taxa de consulta, é claro.
— Sim — ela confirmou. — Por que não?
Havia algo estranhamente divertido em fazer algo tão absolutamente diferente do que considerava normal, tão em desacordo com suas crenças e comportamento comuns. “Laura Shepherd visitando uma vidente!” Imaginou o que seus colegas do museu diriam se um dia descobrissem. “Engraçado como as coisas às vezes terminam”, pensou. Se ela não tivesse ido ver Anna Crockett-Burrows, nunca teria sequer considerado tal coisa, mas agora lá estava ela, sentada na sala de consulta de uma vidente, agarrando-se a qualquer coisa. E onde mais poderia procurar as respostas que desejava?
— Muito bem — disse Avril enquanto posicionava as mãos sobre a bola de cristal, fechava os olhos e começava a zunir suavemente para si mesma.
Tudo era muito estranho. Laura sentiu como se estivesse participando de algum tipo de mini-sessão espiritualista. Tudo o que parecia faltar era o tabuleiro ouija.
Após um minuto ou mais, Avril abriu os olhos e perguntou: — Um colega seu morreu recentemente?
— Sim! — Laura respondeu, impressionada.
Avril fechou os olhos novamente e parou de zunir, enquanto Laura permanecia sentada lá, em atordoante silêncio, perguntando-se se teria de rever suas idéias a respeito dessas coisas.
Após alguns minutos, Avril abriu os olhos e falou mais uma vez:
— Mas eu receio que não compreenda o restante — disse, parecendo frustrada. — Tudo o que estou conseguindo repetidas vezes é “você precisa da caveira para a comunicação exata”. Isso significa alguma coisa para você?
— Sim! — a voz de Laura estava cheia de exaltação. — A caveira de cristal. Eu posso trazê-la aqui!
Mas Avril pareceu contrariada.
— Eu normalmente não trabalho com materiais de outras pessoas.
O rosto de Laura se abateu de desapontamento.
A vidente hesitou.
— Está bem — ofereceu. — Deixe-me verificar minhas cartas. Um momento.
Ela virou as costas para Laura, puxando a cadeira para a pequena mesa atrás dela, na qual estavam três pacotes de cartas de tarô.
Ela apanhou os baralhos, fechou os olhos e se concentrou com empenho enquanto embaralhava cada um deles, e então puxou lenta e deliberadamente uma carta de cada pacote.
Posicionou-as cuidadosamente sobre a mesa em frente a Laura e abriu os olhos. Observou as cartas dispostas em fileira. Seu rosto expressava preocupação quando via que cada uma das cartas retratava a figura grotesca do esqueleto dançante. As cartas diziam: “Morte”, “Morte”, “Morte”!
— Bem, o que elas dizem? — Laura perguntou, esticando o pescoço a fim de ver para o que Avril olhava, curiosa para saber por que parecia ter congelado.
Mas Avril tossiu e rapidamente removeu as cartas, devolvendo-as para seus baralhos antes que Laura se curvasse suficientemente perto para vê-las.
— Eu não acho que seria uma boa idéia — ela disse, parecendo visivelmente abalada.
— Por que não?
— Eu simplesmente não tenho uma sensação boa em relação a isso.
Laura pareceu intrigada. “Em relação a que ela está sendo tão sigilosa?”
— Pode ser perigoso — Avril respondeu resumidamente, recusando-se a dar maiores detalhes.