O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 40
13 DE DEZEMBRO DE 2012
Na manhã seguinte, Laura chegou ao trabalho muito mais cedo que de costume, porém mesmo àquela hora já havia trabalhadores empoleirados em andaimes por toda a frente do Museu Geográfico Smithton. Era um dia de inverno fresco
e claro, cuja brisa arrastou o banner de cores brilhantes que os homens desenrolavam sobre a grande fachada neoclássica daquele suntuoso prédio antigo.
Patrocinando o Museu Geográfico Smiththon
O banner gritava, em letras de 1,80 m de altura.
Nanon Systems — Criando o Futuro - hoje!
— Poxa, aquele seu Caleb deve ser um cara e tanto! — uma voz disse num sotaque sulista meio sensual, e Laura virou-se para ver Janice ao seu lado, vestida com um casaco de pele na altura das coxas, mas ainda sem sinal de
qualquer saia da qual valesse a pena falar lá embaixo. Até neste inverno? Ela deve estar congelando! Laura não conseguia parar de pensar consigo mesma.
— Ele não é meu Caleb — sentiu necessidade de explicar. — Ele é o Caleb do Michael, e está apenas patrocinando o museu porque quer algo.
— Então, o que ele quer? Quem sabe eu possa dar a ele? — Janice gracejou, agitando os quadris de um jeito que julgava sedutor.
— Ele quer a caveira de cristal — Laura respondeu.
— Mas por que cargas d’água ele quer aquela coisa assustadora? — Janice perguntou fingindo que estava apavorada.
— Ele e Michael têm algum tipo cie teoria sobre suas “possíveis aplicações científicas”, mas não pergunte. É
tudo extremamente confidencial. De qualquer forma, este é o preço — ela balançou a cabeça na direção do banner. — Uma nova biblioteca para nós e Caleb tem a caveira de cristal para fazer o que quiser com ela.
— Bem, será que ele pode fazer o que bem entender comigo, em alguma oportunidade? — Janice movimentou os quadris novamente. — Você tem o telefone dele?
— Graças a Deus não! — respondeu Laura enquanto se dirigia para dentro do museu e tomava o elevador para o terceiro andar.
Janice foi em busca de café na cozinha enquanto Laura destrancava seu escritório e colocava na mesa lateral a maleta com a caveira, que ela acabara de pegar com Michael.
Ela se acomodava atrás da mesa e ligava o computador quando Janice entrou com uma xícara de café escaldante, que, com muita firmeza, colocou diante dela.
— O Professor Lamb disse que você tem até as seis horas de hoje para concluir aquele relatório sobre a caveira de cristal antes que a entregue para o adorável Caleb da Nanon Systems.
— Eu sei! — Laura sentiu-se pressionada. — Estou tentando concluí-lo agora.
— Quer dizer, “deixe-me em paz para dar andamento a ele”?
— Exatamente isso!
— Ah, e não se esqueça…
Laura olhou para cima.
— Não a olhe no olho! — Janice gracejou enquanto balançava a cabeça em direção à caveira de cristal.
“Confie na Janice”, Laura pensou. “Boatos sobre a ‘maldição da caveira’ obviamente ainda estão circulando”.
Janice estava quase saindo quando parou e virou.
— Ah, não se esqueça de me informar quando seu Caleb chegar.
— Laura franziu as sobrancelhas.
— Assim consigo encontrá-lo, é claro! — Janice sorriu e caminhou para o corredor abaixo.
Laura bebeu um gole de seu café quente. Não importava o aviso de Janice, ela decidiu que seria melhor dar uma última olhada na caveira para ver se isso a ajudava pensar em algo mais que pudesse acrescentar ao relatório para o Professor Lamb.
Ela se aproximou da mesa lateral e abriu a maleta. Retirou a caveira de cristal cuidadosamente e a pegou. Assim que sentou novamente atrás da mesa, girou-a nas palmas das mãos, estudando-a com cuidado à luz de sua velha luminária.
Parecia estranho agora pensar no medo que sentira dessa coisa quando se deparou pela primeira com ela. Ela se perguntou se ainda teria um sentimento ruim em relação a ela, mesmo se não tivesse passado pelos dedos de um homem morto. Ela percebeu que a estava encarando.
A história de Richard realmente a fizera pensar. A idéia de que a caveira poderia ter ligação com uma civilização anterior ainda mais avançada era fascinante. Ela observou novamente como a caveira absorvia e refletia a luz. Quando a segurou em um ângulo específico, uma miríade de cores de arco-íris pareceu dançar em sua superfície, exatamente como Anna havia descrito em seu diário.
Ela percebeu que seus sentimentos em relação à caveira estavam se amenizando. O medo e a repugnância que outrora sentira em sua presença agora tinham ido embora. Notou que, de muitas maneiras, a caveira de cristal era realmente muito bonita.
Enquanto sentava e observava o objeto, se deu conta de que ficava totalmente absorvida por ele. Não conseguia tirar os olhos dele neste momento. Todas as distrações externas desapareceram quando notou a maneira como o cristal havia sido esculpido para dentro do olho, espiralando em direção ao centro e às órbitas oculares. E, apesar do aviso de Janice, sabia que continuaria desejando olhar no fundo daqueles olhos que não eram olhos, dentro daqueles espaços escuros em que os olhos deveriam estar.
Quão profundamente ela foi arrastada para dentro daquelas órbitas de cristal. Ela estava fascinada, perdida em um espaço além da imaginação. E, antes que soubesse, perdeu a noção do tempo. Muitos minutos, talvez mais do que pensava, haviam se passado, durante os quais ela ficou olhando fixamente dentro daquelas cavidades cristalinas ocas. Foi necessária uma enorme força de vontade para se libertar. Ela teve que se arrastar de volta a seu escritório, de volta para aqui e agora. Empurrou a caveira e esfregou os olhos com os punhos fechados.
Quando abriu os olhos e olhou ao redor, sentiu como se tivesse estado em algum tipo de transe. Ela balançou a cabeça, tentando se desvencilhar de seus efeitos, e sentou-se em silêncio por um momento, na tentativa de voltar ao
normal. Ela tomou outro gole de café e foi surpreendida ao descobrir que ele agora estava frio. Todo esse tempo realmente tinha se passado?
Ela voltou sua atenção à conclusão do relatório.
Antes que Laura tomasse conhecimento, a escuridão caíra e eram seis horas da tarde.
Percebeu que havia colocado a caveira de cristal na sua escrivaninha, bem em frente à fotografia de Anna Crockett-Burrows que Richard Forbes havia lhe dado na noite anterior. Agora apoiada na mesa, olhou para a imagem posicionada na frente da própria fotografia emoldurada de Alice.
Laura se deu conta de que essa foto de Anna Crockett-Burrows era o mais próximo que tinha de qualquer evidência fotográfica da descoberta da caveira, mas estava tão desfocada que se perguntou se realmente valia a pena incluí-la em seu relatório. De qualquer forma, decidiu colocar nele tudo isso somado ao que já tinha ouvido.
Ela pegou essa foto com a intenção de jogá-la dentro da pasta que entregaria a Lamb e, ao fazê-lo, lançou um olhar para a fotografia de Alice. Seu rostinho irradiava alegria. Lembrou-se do que Anna dissera, que Alice de algum modo tentara se comunicar com ela por meio da caveira de cristal. Inacreditável, ela sabia, mas bem lá no fundo desejava que isso fosse verdade.
Laura correu as mãos pela superfície da foto. Ela realmente queria acreditar que Alice ainda estava em algum lugar e que poderia se comunicar com ela de alguma maneira. No entanto, nada do que ela havia lido no diário de Anna ou escutado de Richard Forbes havia dado mais esclarecimentos de como tal coisa seria possível. Não, este era o mundo real. Ela suspirou. A idéia de conversar com sua falecida filha nada mais era do que um sonho impossível, uma fantasia, nada além disso.
Sabia que nunca mais veria Alice novamente. Nunca falaria com ela, sussurraria palavras de conforto durante a noite, seguraria sua mão pequenina e quente. Conteve uma lágrima. Aceitar isso a entristecia, mas sabia que devia abrir mão da idéia fantasiosa de voltar a ter qualquer tipo de contato com a filha.
Talvez fosse melhor deixar para lá a idéia de tentar se comunicar com os mortos. Seus negócios com a caveira de
cristal logo chegariam ao fim, de qualquer modo. Já basta — disse para si mesma. De certa forma, ficaria contente que isso chegasse ao fim.
Ela clicou em seu laptop e aguardou o documento ser anexado. Então, com uma sensação de alívio, enviou o relatório por e-mail para o Professor Lamb.
Estava em vias de guardar a caveira de cristal novamente na maleta quando algo chamou sua atenção. Olhou para ela. Através de sua parte interna cristalina e transparente, conseguiu ver a fotografia da jovem Anna Crockett-Burrows em pé, segurando a caveira de cristal, e algo incrível estava acontecendo.