O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 50
Os olhos de Carlos voltaram-se para o céu.
— Dr. Brown tem uma visão um pouco primitiva de meus ancestrais — explicou.
— Mas você sabe o que os conquistadores espanhóis encontraram em 1520, quando entraram na antiga cidade asteca de Tenochtitlan, atual Cidade do México — Brown continuou de modo indiferente. — Eles disseram que o principal templo-pirâmide no coração da cidade fora utilizado para sacrifício humano. Aparentemente em todo ele os crânios das vítimas estavam espetados em estacas de madeira e dispostos na praça principal como troféus do grande número de mortos. Um dos soldados de Cortez, um homem chamado Bernal Diaz, tentou contar quantos crânios havia, mas perdeu a conta quando passou a marca de cem mil, todos em estágios diferentes de decomposição e deterioração.
Carlos não parecia feliz:
— Sim, aqui na América Central todos nós conhecemos a versão espanhola da história de nossos ancestrais. Nós sabemos que os conquistadores espanhóis alegaram que os astecas, e também os maias, eram um pouco mais do que selvagens sedentos por sangue que sacrificaram pessoas às suas centenas de milhares.
— Está certo — Brown continuou a dizer a Laura. — De acordo com os registros espanhóis originais, a vítima de sacrifício era intoxicada ao ser forçada a ingerir a bebida alcoólica conhecida como pulque”. Eles então caminhavam, as mãos amarradas às costas, subiam os degraus até o alto da pirâmide mais alta. Lá, em frente à pirâmide, eram obrigados a deitar sobre uma pedra de sacrifício grande e levemente curvada, com o peito exposto. O sacerdote, recitando encantamentos aos deuses, apresentava uma lâmina de ob-sidiana antes de cravá-la no peito da vítima. E enquanto a vítima ainda estivesse viva, eles arrancavam seu coração ainda pulsante e o seguravam no alto para todos verem, antes de o queimarem como uma oferenda, geralmente ao Deus Sol. O corpo da vítima aparentemente era lançado degraus abaixo, onde era decapitado antes de ser entalhado em pequenos pedaços e em seguida comidos pela multidão que aguardava ansiosamente.
— Selvagens sedentos por sangue, um monte deles! — ele acrescentou com um sorriso perverso.
Carlos decidiu ignorá-lo e voltar-se novamente a Laura.
— Há de se lembrar que esses registros foram escritos por um exército invasor, pelas mesmas pessoas que cometeram genocídio desumano contra meu povo. Os próprios conquistadores espanhóis são aqueles que eliminaram meus ancestrais às suas centenas de milhares, por meio de assassinato, guerra, fome e doença. Portanto, seus registros sobre meus ancestrais, as pessoas que eles mataram, podem não ser totalmente precisos.
De fato, pode haver uma verdade muito pequena, ou nenhuma, nesses registros espanhóis primitivos. Esses registros podem ter sido utilizados simplesmente para justificar as atrocidades que os espanhóis cometeram contra meu povo. Afinal, se alguém quisesse ler um relatório imparcial sobre a natureza do povo judeu, dificilmente pediria a Adolf Hitler e seus amigos da Polícia Alemã, que assassinaram esse povo aos milhões em meados do último século, para escrever o relatório!
— Você pode muito bem ter uma opinião — Laura disse. Ela nunca pensara sobre o assunto dessa maneira antes.
— Huh. Realmente uma opinião! — Brown soprou. — Então como explicar todas essas imagens de sacrifício humano que vemos na antiga arte da América Central? — ele desafiou Carlos.
— A maioria dessas imagens na verdade data de um período após a conquista espanhola, ou parece simbolizar a universalidade do sofrimento humano. O punhado de imagens do que parece ser ritual de sacrifícios humanos que vemos genuinamente nas obras de arte da antiga civilização maia não pode ser tomado para significar que essa era uma prática freqüente e comum. Nada mais do que podemos concluir que nós hoje somos pessoas regularmente crucificadas, todos os domingos, simplesmente porque há uma imagem de um jovem homem sangrando até morrer em uma cruz proeminentemente exibida em cada igreja, em cada cidade, vilarejo e povoado do mundo ocidental moderno.
Novamente Laura pôde compreender o argumento de Carlos, mas Brown não estava convencido.
— Você está me dizendo que os maias nunca sacrificaram ninguém?
— Não — ele respondeu — mas parece que sacrifício humano era, em sua maioria, uma atividade voluntária para os antigos maias.
— Por esse motivo faz com que isso seja certo, então? — Brown fez uma interjeição.
— … E raramente correspondia, de fato, a tirar a vida de uma pessoa. Normalmente apenas uma quantidade menor de derramamento de sangue estava envolvida, e isso era realmente feito perfurando a língua de alguém, ou o pênis, para incentivar visões de experiências de outro mundo.
— Soa bastante primitivo para mim! — Dr. Brown concordou, porém Carlos o ignorou. — Por exemplo, na antiga cidade maia de Yaxchilan há um famoso lintel de pedra esculpida que mostra o antigo rei maia chamado “Jaguar Pênis” executando um ato de derramamento de sangue em seu próprio membro surpreendentemente grande.
— Eles certamente sabiam como se divertir! — Dr. Brown sorriu, enquanto Laura assustou-se com o pensamento, embora tivesse tomado conhecimento dessa prática antes.
— Mas parece muito improvável — Carlos prosseguiu — que milhares de pessoas realmente fossem sacrificadas como os espanhóis afirmam. Há uma massa crescente de evidências de que isso é, na verdade, um absurdo, nada além de propaganda política perpetuada por um exército invasor de assassinos.
— Na verdade — ele continuou —, meu povo agora acredita que a maioria dessas imagens de crânios que você vê nas antigas pirâmides-templo, como esta aqui em Luvantum — ele disse apontando no mapa —, não tem qualquer relação com a assim chamada prática de sacrifício humano, mas tem a ver com os trabalhos codificados do antigo calendário maia.
Laura estava fascinada. Ela tinha ido até ali precisamente para tentar decifrar uma profecia desse mesmo calendário maia antigo.
— Em Chichen Itza, por exemplo, há um enorme “tzompantli” de milhares de crânios humanos esculpidos em um bloco sólido de pedra, mas isso não tem nada a ver com cortar as cabeças de vítimas de sacrifício.
— Ao contrário, essas fileiras de crânios esculpidos em pedra são o modo com que meus ancestrais marcaram o número de gerações que passaram desde o início dos tempos — Laura ergueu as sobrancelhas —, ou pelo menos o número de gerações que passaram desde o início do mundo atual, ou “Sol”, como eles o chamam.
Laura já sabia sobre alguns dos trabalhos do antigo calendário maia, mas para ela esse era um novo ponto de vista sobre o assunto.
— Você sabe, de acordo com os antigos maias, o mundo foi criado e destruído diversas vezes no passado, e agora nós vivemos no último mundo, ou Sol.
Laura estava familiarizada com esta idéia e sabia que essa teoria, na verdade, encontrava algum apoio em seus próprios registros fósseis. O estudo de fósseis pelos paleontólogos mostrou que, mesmo desde a Era Cambriana, a Terra vivenciara vários períodos diferentes durante os quais a vida haveria brotado, se diversificado, florescido e prosperado, apenas para ser liquidada novamente durante vários períodos abruptos e diferentes de extinção em massa.
Também sabia, por exemplo, que de acordo com os antigos registros da América Central, o primeiro mundo, ou “Sol”, fora governado pelos gigantes. Muitas pessoas agora acreditam que essa era uma referência à era dos dinossauros. De acordo com os maias, este mundo foi “destruído por fogo vindo do céu”, que pode muito bem ser uma descrição do meteorito gigante que atingiu a Terra cerca de sessenta e cinco milhões de anos atrás, e agora acredita-se ser responsável pela extinção dos dinossauros.
Esse meteorito originou o que é conhecido hoje como a Cratera de Chicxulub, no sul do México. O impacto foi tão grande que se imagina haver lançado uma enorme nuvem de poeira e fragmentos que bloquearam os raios solares e causaram a dramática mudança climática, um inverno global, que virtualmente teria eliminado toda a vida na Terra. De acordo com os maias, o Sol finalmente parou de brilhar no ano conhecido como “treze”.
De fato, segundo o antigo calendário maia, cada um dos mundos anteriores for destruído por um acontecimento catastrófico ou outra coisa, que se liga de maneira muito próxima aos registros fósseis, os quais mostram cada período histórico terminando em uma era de extinção em massa. Laura até perguntou-se se nós poderíamos agora estar entrando em um período como esse, considerando a idéia sobre a rápida perda de centenas, se não milhares, de diferentes espécies que temos testemunhado neste planeta nos últimos anos. Então ela ouviu atentamente enquanto Carlos continuava sua explicação entusiasmada.
— Os maias foram muito precisos em seus cálculos e previsões. Eles gostavam de planejar as coisas até os dias atuais. Portanto, forneceram uma data exata para o início do presente mundo.
— De acordo com eles, o mundo atual, ou “Sol”, começou em uma dia que se traduz para nosso calendário precisamente como o dia treze de agosto do ano 3.114 a.C.
— E pelo fato de esse ter sido o primeiro dia do ano presente, ficou conhecido por eles como o dia “zero” em seu “Calendário de Contagem Longa”.
— E conhecido como “Contagem Longa” simplesmente porque é o mais comprido dos calendários maias mais comumente utilizados. Mas, na verdade, baseava-se nos movimentos do planeta Vênus, então às vezes era chamado de calendário de Vênus.
— Agora, de acordo com este calendário Venusiano — Carlos prosseguiu —, houve um dia, quase cinco mil e duzentos anos atrás, que marcou o primeiro dia da “Contagem Longa”, ou o início do mundo atual, e o número de crânios no “tzompantli” nos informa quantas gerações passaram entre aquele dia e o dia em que a grande cidade de Chichen Itza foi fundada.
— Você sabe, meus ancestrais às vezes utilizavam a imagem estilizada de um crânio humano para representar a passagem de uma “geração”. Em média, uma geração durou cerca de cinqüenta de nossos anos solares, e, portanto, a imagem de um crânio esculpido em pedra veio a representar um período de precisamente cinqüenta e dois anos.
— Então, se você somar todos os crânios esculpidos em pedra no “tzompantli”, multiplicar cada um por 52, lhe será informado quanto anos exatamente se passaram desde o início do calendário de Contagem Longa, desde o dia 13 de agosto de 3.114 a.C., antes do ano da fundação da cidade Chichen Itza. Em outras palavras, os crânios deixem exatamente quantos anos se passaram desde o início do mundo atual.
Laura estava fascinada. Ela já conhecia o calendário de Contagem Longa, mas nunca havia pensado antes que tivesse qualquer relação com caveiras. Representar o tempo utilizando a imagem de um crânio dá a ele uma dimensão muito humana, mas o que mais interessou a Laura foi o que ela poderia esperar encontrar quando chegasse a Luvantum.
— Então você acredita que mesmo as imagens de caveira entalhadas no principal templo-pirâmide em Luvantum não tinham relação alguma com sacrifício humano, mas, ao contrário, relacionavam-se com os grandes “ciclos do tempo” maias?
— Isso mesmo — Carlos prosseguiu. — Sinto muito desapontá-la se você é uma dessas pessoas que apreciam a idéia de que meus ancestrais eram nada mais do que selvagens sedentos por sangue.
— Pelo contrário — Laura disse assim que Carlos disparou um olhar reprovador a Dr. Brown.
—… mas escavamos o solo nas adjacências da pirâmide e não encontramos evidências de crânios ou ossos humanos verdadeiros. Assim como estudos forenses semelhantes ao pé das pirâmides maias em outros locais, ali não se viam vestígios de sacrifícios humanos reais.
— Na verdade, a maior parte dos crânios verdadeiros que descobrimos em antigas ruínas maias, como os crânios de pedra, também nada tem a ver com sacrifício humano. Ao contrário, trata-se de crânios dos próprios ancestrais dos maias: parentes, pais, avós e entes amados. Os maias tinham o hábito de guardar os crânios e enterrá-los sob suas pequenas casas de palha, de modo a manter seus amados próximos, mesmo depois de mortos. É realmente muito triste e, sem dúvida, nada tem a ver com o sacrifício ou troféus de guerra. Coisas terríveis podem, é claro, ter acontecido em períodos de guerra, mas não é diferente do que ocorre hoje.
— Não. Agora está ficando claro — Carlos disse — que pouquíssimos crânios, mesmo nas antigas obras de arte maias, tinham relação com sacrifício humano. Ao contrário, essas imagens de crânios em pedra parecem ser simbólicas do período de cinqüenta e dois anos, que foi importante no antigo sistema de calendário, indicando a quantidade de gerações desde o início do “Tempo”.
— E há alguma evidência de imagens de crânio em algum outro lugar ou dentro da pirâmide em Luvantum? — Laura perguntou.
— Sim, há um altar decorado com uma caveira e um portal muitíssimo corroído com uma imagem de caveira entalhada em seu centro, na entrada de uma câmara secreta no coração da pirâmide, mas ainda não temos idéia do que qualquer uma delas significa, ou para que a câmara foi utilizada. Quem sabe você possa nos ajudar a responder a essa pergunta.
— Talvez — Laura disse. Ela se esforçava muito para esconder seu entusiasmo. Pareceu como se estivesse no caminho certo, afinal. Tinha uma boa noção de como a imagem da caveira estaria relacionada àquilo e queria fazer mais perguntas a Carlos, mas sentiu-se obrigada a guardar todo o conhecimento sobre a caveira de cristal para ela, pelo menos por hora.
Laura pensava consigo que se o templo-pirâmide principal em Luvantum era entalhado com crânios, e agora se pensava que tivessem relação com a marcação da passagem de tempo, então fazia sentido que pudesse muito bem ser o templo-pirâmide que continha a pedra profética. Esse seria o lugar onde procurar, assim que chegasse ao sítio arqueológico.
— Estou exausto — falou Dr. Brown, que permaneceu indistintamente silencioso durante toda a última parte da conversa. — Acho que é hora de ir para a cama.
Assim que Laura e os outros ergueram suas barracas para passar a noite, ela se sentiu repleta de agitação e expectativa. Parecia existir, depois de tudo, uma chance de encontrar os hieróglifos que faltavam.
Assim que se deitou em seu travesseiro improvisado — uma toalha encharcada envolta em uma sacola plástica — ouvindo os sons incríveis produzidos por todos os animais da floresta que ganharam vida após o escurecer, sua mente flutuou com as imagens do sítio arqueológico misterioso que agora estava apenas um dia à frente.
Mais uma vez, teve a quase mágica sensação de deleite que havia sentido no passado, na expectativa de ver pela primeira vez uma cidade maia diferente. Cada cidade tinha a própria beleza, atmosfera única, características singulares.
Desta vez, contudo, ela a visitaria não apenas como uma arqueóloga interessada, porém como alguém com uma pergunta secreta urgente que precisava ser respondida. O que dizia o restante dos hieróglifos? Que acontecimento terrível estava previsto para acontecer em apenas uma semana? Parecia que agora estava prestes a descobrir.