O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 95
Mais tarde naquele dia, um táxi de aeroporto parou em um posto de gasolina-restaurante de aparência desorganizada e abandonada em uma encosta solitária no Novo México. A placa no lado externo dizia: “Ultima Chance — Combustível/Café”. Uma brisa seca soprava moitas de salsola que giravam de modo incerto pela estrada empoeirada.
Dentro do táxi, os olhos do motorista se apertaram assim que ele examinou sua passageira no espelho retrovisor. Ele sugou os próprios dentes quando tentou explicar a situação a ela.
— Lamento, senhora. Isso é o mais longe que posso trazê-la. É uma zona de exclusão militar depois aqui.
Após algumas tentativas de convencê-lo a ir adiante, inclusive uma oferta de tantas notas de dólares quanto possuía, as quais foram zombadas como não sendo sequer suficientes para levá-la àquele ponto abandonado por Deus, Laura desistiu e saiu do táxi.
O motorista a olhou de cima a baixo lentamente, enquanto ele mascava seu chiclete.
- Eu tenho que admitir, madame, eu fiquei tentado! — acrescentou, indecente, porém em vão.
Laura precisava admitir que as roupas que roubara da jovem no hospital não teriam sido sua primeira opção: uma minissaia cor-de-rosa choque, botas de cano e salto altos e uma camiseta ornada com gatinhos brancos e peludos. Ainda assim, nunca teria chegado tão longe com sua camisola comum de hospital.
Ela pescou nos bolsos de sua jaqueta de camurça enfeitada com contas a gorjeta que o motorista exigiu, além da tarifa que ela já havia pago, e a entregou antes de o táxi sujo arrancar, levantando uma nuvem de poeira quando partiu.
Assim que o táxi desapareceu, Laura observou o deserto solitário, de olhos meio fechados contra o sol escaldante. Ao alto, alguns urubus rodeavam; à distância, além deles, ela conseguiu ver a parte acima do solo do Lab-Z. E ela viera de tão longe para alcançá-lo. Dentro do perímetro de sua cerca de alta segurança conseguiu apenas distinguir alguns veículos militares zumbindo na área de patrulhamento e um número de carros-tanque de combustível entrando e saindo do complexo. Dois helicópteros policiais circulavam sobre o local, mostrando a silhueta contra o céu, como os urubus aguardando sua presa, enquanto o sol começava a afundar cada vez mais.
Laura olhou para o relógio. Marcava três horas da tarde.
- Santo Deus! — ela disse em voz alta.
Ela estava tão próxima de seu destino e, mesmo assim, tão longe. Havia conseguido apanhar um táxi e partir em frangalhos de Nova Iorque a Albuquerque quase imediatamente, e uma vez lá até convencera o último táxi no posto a levá-la para esta região remota, sem qualquer dificuldade maior. Porém, parecia que essa era a parte fácil. Agora estava bloqueada. Olhava para baixo, para suas novas botas altas de cor branca. De que raio de modo ela entraria em algum lugar próximo do local, quem dirá dentro do complexo, especialmente quando vestia aquilo?
Apenas tentava elaborar suas opções. Ao começar a chegar à conclusão de que não tinha nenhuma, ouviu o silvo e a vibração de freios assim que dois carros-tanque enormes pararam no átrio do posto de abastecimento.
Os carros-tanque pareciam idênticos, cada um com o nome e o logo laranja e brilhante da empresa “Global Oil” pintado em suas laterais. Mas não se abasteceram de combustível. Ao contrário, estacionaram longe das bombas. Assim que seus motoristas saíram de suas boleias e se dirigiram para o restaurante, Laura ouviu sua conversa por acaso.
- Vamos, Sam — disse o mais magro dos dois motoristas —, se não levarmos esta carga para Los Ammuno antes de escurecer, nós dois perderemos um trabalho. — E tudo porque você não consegue passar da hora do almoço sem encher essa sua pança grande e gorda.
Ao que o outro respondeu:
- Relaxa, Max. É só cerca de quatro quilômetros e meio daqui. Não demorará mais do que alguns minutos. E eu prometo não pedir nenhuma torta de cereja.
- OK, mas a minha é por sua conta, então! — disse Max.
Eles caminharam até o restaurante, mas não sem notar Laura assim que passaram.
- Ei! O que uma moça encantadora como você está fazendo em um lugar como este? — perguntou Sam, com um grande sorriso forçado.
Laura apenas fixou os olhos em Sam antes de eles entrarem. Sempre odiara esse tipo de comentário sexista.
Ela os observou através da janela. Eles eram os únicos clientes na melancólica espelunca e se sentaram em uma das mesas de fórmica, colocando as jaquetas no encosto das cadeiras, próximo à porta.
Dentro do restaurante, Max declarou:
- Estou indo para o banheiro! — ele se levantou e partiu para visitar os toaletes. Enquanto esteve fora, Sam foi ao balcão fazer o pedido.
Aproveitando sua oportunidade, entrou sorrateiramente no café, agachando-se abaixo do nível da janela. Ela esperava que ninguém a notasse quando a porta abrisse com um rangido. Felizmente, o barulho que fez não pôde ser ouvido por cima da música country tocando alto na jukebox, os estampidos de potes e as pancadas de panelas na cozinha.
Prendeu a respiração assim que ouviu Sam chamar no fundo do restaurante, antes de uma mulher de trinta e poucos anos e aparência cansada aparecer enxugando as mãos em seu avental florido desbotado. Laura continuou abaixada e esperava que Sam não se apressasse, enquanto ela circundava lentamente para mais perto da mesa dele.
- Bem, olá, moça bonita! — Laura entrou em pânico antes de perceber que era apenas Sam colocando seu charme em prova com a garçonete. — Agora, antes de eu descobrir o que você fará mais tarde, gostaria de saber se você não se importaria de trazer um pedacinho de torta de cereja!?
- Uma torta! — disse a garçonete emburrada, anotando em seu pedido e deixando claro que não queria que a conversa prosseguisse. Sam começou a virar-se.
“Droga!”, pensou. Havia quase chegado à mesa de Sam, mas precisava que ele demorasse se não quisesse ser localizada.
Então ele tornou a se virar para a garçonete:
- E café. Dois — acrescentou.
A garçonete entrou de fininho na cozinha e no minuto em que ela virou as costas, Laura esticou o braço e agarrou a jaqueta de Sam do encosto de sua cadeira e rastejando-se rapidamente de volta à porta.
Sam não pareceu notar Laura quando sentou de volta à mesa com as costas para ela, mas Laura apenas conseguiu circundar a porta, abrindo-a com um pé quando viu Max em seu caminho de volta do toalete.
— Você precisa consertar essa porta! — ele disse à garçonete que começava a surgir detrás do balcão com os
cafés. Então parou para escolher músicas na jukebox, e, tão logo seus olhos foram desviados, Laura retirou-se rapidamente de novo, mantendo-se abaixada enquanto a porta fechava com um rangido atrás de si.
Ela aguardou com a respiração presa, encostada à parede externa do restaurante, com a esperança de que ninguém decidisse examinar a porta mais adiante. Felizmente, Sam estava comendo feliz e Max cantava em voz alta enquanto a jukebox explodia sua cantiga favorita, a famosa canção de rock, “It’s the final countdown!”
O átrio se estendeu diante dela, com os carros-tanque estacionados na extremidade oposta. Laura se dirigiu a eles, esperando não chamar muita atenção para si com aqueles trajes ridículos.
Andou furtivamente para o outro lado dos carros-tanque e sacou um molho de chaves do bolso da jaqueta de Sam. Com um alicate encontrado no outro bolso ela cortou a válvula de ar de um dos pneus na boléia de Max assim que passou.
Em seguida, subiu à boléia do carro-tanque de Sam e virou as chaves na ignição. O motor aumentou a rotação. Ela empurrou com força o caminhão para a marcha e rugiu o mais rápido que pôde, deixando espessas nuvens de poeira de rastro para trás.
Enquanto isso, dentro do restaurante, Sam estava ocupado demais comendo vorazmente sua torta de cereja para olhar para fora da janela e presumiu alegremente que era o caminhão de outra pessoa que ele ouvira aumentar a rotação
de seu motor. Max, no entanto, retornando da jukebox para seu assento, percebeu o carro-tanque se retirando no lado externo da janela.
- Ei, Sam! — disse. — Não é seu carro lá fora?
Olhou para a o caminhão, depois se voltou para o encosto de sua cadeira para procurar sua jaqueta e chaves, porém não estavam lá.
- Merda! — exclamou e correu para o átrio, gritando: — Ei, você! Volte! Esse é meu carro! Volte aqui, Deus do céu!
- Não se preocupe, Sam — disse Max, que havia corrido para fora do café atrás dele — nós pegaremos eles. Venha, entre! — ele apontou, e ambos subiram a bordo de seu carro para perseguir Laura, apenas para descobrir que um de seus pneus havia sido furado.
- Deus, eles abaixaram meus pneus!
Então, eles não tinham qualquer chance de alcançá-la.
Em vez disso, Max pegou seu rádio e chamou a polícia. Ele sabia que não conseguiria um sinal de celular naquela região.
Dentro da boléia, Laura mudou uma marcha assim que se aproximou de um entroncamento na estrada, ao pé da colina. Lá ela se uniu a uma quantidade de outros carros-tanque da “Global Oil”, todos atravessando o deserto em direção ao Lab-Z.
Max conseguiu entrar em contato com um policial local que estava sentado em seu carro de patrulha, em uma estrada lateral, rádio à mão, esforçando-se para ouvi-lo em razão da recepção deficiente.
- Você falou que era um carro-tanque da “Global Oil”? — perguntou.
- Sim, isso mesmo — Max confirmou.
O policial deu um suspiro profundo quando diversos carros-tanque da “Global Oil” idênticos passaram em velocidade diante dele.
“Bem, isso é ótimo!”, pensou consigo quando colocou a sirene e as lanternas e dirigiu-se atrás deles.
Ele se comunicou com outro colega para obter reforço. Este colega pilotava um de seus helicópteros de patrulha policial quando foi localizado.
- Qual foi o número de registro que você disse? — gritou em seu equipamento de rádio e escutou a resposta.
- Ok, estou nessa, Hank — o policial no helicóptero confirmou.
De seu ponto de vantagem aéreo, localizou a distância um comboio inteiro de carros-tanque atravessando o deserto. Ele inclinou abruptamente para a direita, em pleno vôo, e partiu atrás deles.
O carro-tanque de Laura estava na metade da linha dos veículos em alta velocidade. Ela suava profusamente, em virtude de uma combinação de calor e adrenalina, especialmente naquela jaqueta de camurça enfeitada com contas que vestia, destinada a climas mais frios. Mal podia acreditar que havia furtado uma bolsa de uma pobre mulher em uma cama de hospital e ainda conseguira um carro-tanque! Mesmo assim, em sua percepção, não tinha muitas chances.
Naquele momento, lançou o olhar em seu espelho retrovisor esquerdo para ver o carro de patrulha de polícia alcançar o comboio. O policial dirigia rápido, aproximando-se do último carro-tanque do grupo.
Ouvindo o som de lâminas, lançou o olhar nervoso para seu espelho retrovisor direito para ver o helicóptero de polícia se aproximava do outro lado, precipitando-se para baixo na tentativa de ler o número da placa de todos os veículos.
Merda!
Eles já estavam sobre ela.
O policial no carro de patrulha, do lado errado da estrada, começou a ultrapassar cada um dos carros-tanque, um por um, enquanto também estendia o pescoço tentando ler cada uma de suas placas. O comboio apenas continuou, pois ele, na verdade, não havia sinalizado para nenhum reduzir a velocidade, e eles estavam com a programação apertada.
Laura, no entanto, começou a entrar em pânico assim que percebeu que o carro de patrulha e o helicóptero de polícia estavam quase perto o suficiente para ler sua placa traseira, quando seu carro-tanque de repente desapareceu com o resto do comboio, como um trem, na entrada para um túnel profundo sob a encosta da montanha.
O carro policial acionou os freios exatamente no último momento, quando a estrada se estreitou na entrada do túnel. E o piloto do helicóptero teve que desviar em pleno ar para evitar que se chocasse no declive. Era a entrada na qual Michael havia estado naquela manhã, o túnel através das montanhas que levava para o Lab-Z, mais distante.