O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 37
A noite da cerimônia logo se abateu sobre nós, e eu tive muito receio em relação ao que se passava no abrigo.
“O céu estava límpido, e, assim que o sol escorregou por debaixo do horizonte, subi ao topo da grande pirâmide na companhia de Gus, Bunny e Frederick, para assumir nossos postos na parte posterior da pequena plataforma, atrás dos sacerdotes que estavam reunidos.
Tão logo a lua começou a se elevar, tochas flamejantes foram acesas, iluminando os degraus da pirâmide. Uma batucada regular iniciou e Anna surgiu na praça, com duas garotas maias a seu lado. Apresentava uma aparência fabulosa. Lá se foram suas roupas rasgadas e culotes. Ela ostentava flores no cabelo, como uma noiva. Estava vestida com uma confortável túnica maia de cor branca, decorada com ouro ornamentado e jóias de jade. Parecia um pouco apreensiva. Suas mãos estavam amarradas às costas quando marchava degraus da pirâmide acima. Senti Bunny afastando-se do meu lado, despercebido, em direção ao fundo da pirâmide, atrás do pequeno templo de pedra que abrigava o santuário do ancestral.
Os sacerdotes agora entoavam cânticos em maia, suas vozes tornando-se cada vez mais altas, assim que Anna alcançou o topo da escadaria central. O ar estava pesado com o odor rico e doce de incenso de copal que espiralava em uma nuvem densa em torno de sua cabeça. Observei quando ela ajoelhou-se diante de algo que não consegui ver o que era. O curandeiro levantou uma lâmina de obsidiana ao ar e a abaixou atrás das costas dela, rompendo a corda que mantinha suas mãos amarradas. Ela se curvou com as mãos ao alto exatamente no momento em que uma pele de jaguar foi puxada ao lado para revelar a caveira de cristal. Anna colocou as mãos sobre o objeto e abaixou a testa em sua direção.
Naquele momento, um ruído de tremor de terra veio detrás de nós. A cantoria foi interrompida. Virei-me para ver Bunny em pé, no santuário do ancestral, com uma espingarda calibre doze à mão. Puxou o gatilho e abriu fogo outra vez. Uma bala ricocheteou a pedra do altar. Todos paralisaram. A batucada cessou. Anna olhou para cima. ‘Já chega’ — Bunny gritou, cambaleando para frente, até o centro da plataforma da pirâmide, agitando a arma de maneira ameaçadora.
- ‘A caveira é preciosa demais para isso. Ela precisa ser investigada e examinada cientificamente, e não utilizada em uma cerimônia de vodu retrógrada e primitiva. Pertence a um museu apropriado, na Inglaterra, e não deve definhar entre selvagens supersticiosos.’
- ‘Frederick’ — ele disse, virando-se para o amigo e também para Anna — ‘um dia vocês me agradecerão por isso’ — ajoelhou-se ao lado de Anna e levantou a caveira da pedra de granito em que estava. O sangue fresco originado da pele de jaguar cobriu suas mãos quando ele guardou-a apressadamente em sua bolsa tipo carteiro.
Um jovem maia estava prestes a pisar à frente e enfrentar Bunny, mas um sacerdote segurou-o pelo braço para impedi-lo.
Bunny o firmou na mira de sua espingarda. Virou-se para Anna. Sua voz suavizou-se: ‘O que eu estou fazendo irá libertá-la’. Anna olhou para ele, mostrando em sua fisionomia toda a incompreensão e o medo que sentia.
Bunny levantou-se e dirigiu-se ao topo dos degraus da pirâmide, com sua arma a postos, apontando ameaçadoramente para a fila de sacerdotes. Ele apontou a arma para cima e atirou novamente.
O som ecoou por todo o complexo, fazendo macacos guincharem e pássaros voarem das árvores. Ele desceu os degraus da pirâmide correndo, floreando sua arma, lançando-se pela praça e desaparecendo em meio a escuridão da densa floresta.
Anna correu aos prantos até o pai. Os sacerdotes começaram a gritar, as vozes tomadas de raiva. Foi um caos. Bunny conseguiu, roubara a caveira de cristal. Seu plano tinha funcionado. Eu deveria estar satisfeito. Ao contrário, senti muita culpa. Essa cerimônia bizarra, toda aquela coisa envolvendo a caveira era o que Anna queria, o que os maias desejavam, e eu havia permitido que Bunny arruinasse tudo. Retornei à minha cabana, cabisbaixo.
Nos dias seguintes parecia que toda a comunidade estava consumida pela aflição. Embora tivessem enviado diversos grupos de busca para ir ao encalço de Bunny, ninguém o encontrara. Deitei em minha rede, incapaz de encarar qualquer pessoa. Bunny fugira com a caveira. Ele deveria estar além de Santa Cruz agora, certo em seu caminho de mudar a história. Anna estava catatônica de tristeza. Ela fechou-se e se recusou a falar comigo. O que eu havia feito?
Três dias depois eu os vi passar; mulheres maias, roupas empilhadas sobre a cabeça, crianças aos calcanhares, enquanto caminhavam para o rio para fazer a lavagem. Foram elas que o descobriram. Encontraram o corpo de Bunny. Vieram nos encontrar para removê-lo. Fomos: Frederick, Gus e eu. Pobre Bunny. Ele flutuava de bruços. Seu corpo inchado e carne cinza. Quando erguemos seu corpo para a margem do rio vimos uma bolsa de juta pendurada ao redor de seu pescoço. Era a caveira de cristal, pendurada como um talismã demoníaco.
Era estranho que Bunny terminasse no rio, que viesse a se afogar. Havia suspeitas de que ele tentara fugir do complexo da pirâmide pelo sistema subterrâneo do rio. Aqueles rios subterrâneos eram notoriamente perigosos, sujeitos a correntes inesperadas. Era uma iniciativa audaciosa, mesmo no melhor dos tempos. Ouvi a todas as especulações. Eu era o único que sabia que viajar pelo sistema de rios fazia parte do plano de Bunny. Não, ele havia combinado com
Senor Gomez para as mulas o aguardarem longe da praça, prontas para levá-lo, então quem saberia o que dera errado? Sua morte foi um mistério e continua sendo até hoje.
Se houve alguma armação envolvida, nunca saberemos. Frederick estava convencido de que a morte de Bunny fora um acidente, acreditava que ele pegara o objeto porque estava insatisfeito com a idéia de que Anna estaria prestes a se tornar uma sacerdotisa da caveira, da qual, por isso, ele resolveu se apoderar. Pensara que Bunny estava embriagado do uísque que eu havia trazido de Santa Cruz uma semana antes.
Frederick convencera-se de que Bunny retirara a caveira durante a cerimônia simplesmente para defender seu ponto de vista e que ele simplesmente apareceria alguns dias depois. Nunca suspeitou que ele, na verdade, havia planejado apoderar-se da caveira. Acreditava demais em Bunny para isso. Na verdade, por isso eu não tinha entregado a carta a ele. Era duro demais para ele lidar com a morte de seu melhor amigo, e eu não queria sobrecarregá-lo ainda mais com a confirmação de que ele morrera enquanto o traía.
O corpo de Bunny foi colocado em um caixão improvisado feito de madeira de seringueiras e fechado com trepadeiras da floresta. Frederick havia escrito ‘Descanse em Paz, B. J.’ sobre ele, com letras vermelhas. Carregamos seu caixão para o fundo da floresta, em silêncio. Encontramos um ponto embaixo da sombra de uma majestosa ceiba. Foi lá que o enterramos. Foi uma ocasião solene. Queria dizer que acompanharíamos o corpo de volta ao porto, para bordo do
The Ocean Princess, como ele mesmo manifestou intenção, e realizaríamos seu funeral na Grã-Bretanha, como desejara, mas não. Naquela época era simplesmente impossível transportar um cadáver a longas distâncias, em virtude do calor e da umidade da floresta. A decomposição começaria em poucas horas. Eu fiz sozinho a última parte da viagem.
Nunca mais retornei a Luvantum. Nem Gus Arnold. Quanto aos demais, não faço idéia. Infelizmente, perdemos contato após isso. A princípio, senti tremendamente a falta de Anna. Tudo o que tinha para me lembrar dela era uma foto que Gus havia tirado. Escrevi a ela quase uma dúzia de vezes, mas nunca tive resposta. A menos que nunca tivesse recebido minhas cartas, poderia apenas admitir que se um dia tivesse existido algo entre nós, agora nada mais havia…”
— Mas onde eu estava? — Richard perguntou a si. — Ah, sim. Após a morte de Bunny, Gus me ofereceu o emprego de assistente de pesquisa em seu próximo projeto, escavando uma tumba maia no México. Eu pensei que pudesse compensar por não revelar a caveira de cristal, fazendo outras descobertas fascinantes, encontrando outras maneiras de expandir e desafiar nosso nível de compreensão sobre o passado.
“Mas cada fragmento de cerâmica, cada pedaço de joia quebrada, tudo o que retirávamos meticulosamente do solo no México parecia, de certa forma, diminuído se comparado ao que havíamos encontrado em Luvantum. Com o conhecimento que eu tinha sobre a caveira de cristal, explorar a esfera da antiga civilização maia tornara-se tedioso e mecânico. Eu sabia que os maias tinham ligação com algo muito maior, mas eu não tinha permissão para dividir aquele conhecimento com os outros. Aquele projeto no México seria o último relacionado aos antigos maias que eu faria.
Depois disso eu mudei para história britânica antiga, na esperança de descobrir algo para me libertar do silêncio em relação à caveira, algum desafio maravilhoso, mas não encontrei nada importante. Tomei o caminho do covarde, eu vejo isso agora.”
Richard olhou bem nos olhos de Laura.
— Eu não tinha a força de minhas convicções, para levantar-me e discutir meu caso com os outros. Virei as costas para meu bem maior porque não estava preparado para aquilo. Pensei apenas em mim e nas perspectivas da minha carreira. Agora percebi que foi um erro. É por isso que eu me sinto uma fraude aqui — Richard gesticulou apontando para as dependências do hotel. — Cá estou, prestes a receber um prêmio nesta noite por minha notável contribuição à profissão. Se eles ao menos soubessem! Eu poderia ter feito uma contribuição realmente notável se eu tivesse falado publicamente sobre a descoberta da caveira, mas em vez disso eu escolhi o silêncio, do que agora me arrependo amargamente.
“É claro. Poderia ficar em pé aqui à noite, utilizá-lo como um palanque. Poderia dizer a eles: “a propósito, queria que soubessem que encontrei algo há mais de setenta anos que poderia mudar tudo o que vocês sabem sobre a história da humanidade!” Todos simplesmente concluiriam que eu sou louco. Não, é tarde demais para tudo isso agora.”
Laura permaneceu silenciosa, em reconhecimento às recordações e à dor do velho homem.
— Consigo entender que não tem sido fácil para você — ela disse. — Obrigada por contar tudo isso para mim.
— Estou feliz por finalmente ter a chance de conversar com alguém a respeito. Pensei que carregaria isso comigo para o túmulo.
Laura sentiu uma pontada momentânea de frustração. Ela nutria esperança de que o que Richard lhe contaria algo que trouxesse alguma luz a algumas das coisas estranhas que Anna Crockett-Burrows havia lhe dito sobre a caveira de cristal. Ela estava desesperada para saber se as últimas palavras de Anna realmente tinham vindo de Alice como ela alegara, mas nada que Richard dissera parecia responder àquela pergunta. Ela então fez uma tentativa, perguntando:
— Sei que isso pode soar um pouco esquisito, mas Anna alguma vez fez qualquer alusão ao fato de a caveira de cristal poder, de alguma forma, ser usada como um meio de comunicação com os mortos?
— Nada relacionado àquela caveira me surpreenderia — Richard disse —, especialmente se tivesse algo a ver com morte. Mas não. Anna foi estritamente proibida pelo sacerdote maia de nos contar qualquer coisa a mais. E, em resposta, nós fizemos o voto de manter tudo relacionado à caveira em segredo, em qualquer circunstância.
Ela ainda se corroía para saber o que Anna queria dizer com suas palavras derradeiras: “o futuro está gravado em
pedra”. Realmente queria perguntar isso diretamente a Richard, mas sabia que teria de fazê-lo delicadamente. Afinal de contas, aquelas eram as palavras finais ditas pela mulher que um dia ele amara.
— Espero que você não ache muito perturbador se eu lhe perguntar se você sabe o que Anna quis dizer com suas últimas palavras.
Os olhos de Richard umedeceram quando ele acenou positivamente com a cabeça ao ser perguntado.
— Ela disse: “Se você não escutar, o futuro está gravado em pedra”.
Richard ouviu com atenção e balançou a cabeça suavemente antes de responder:
— Receio não ter idéia do que ela poderia querer dizer. — Ele parecia perplexo ao acrescentar em tom de desculpa: — Desculpe por não poder ajudar mais.
— Pelo contrário — Laura o tranqüilizou — tudo o que você me disse foi de grande ajuda.
Embora estivesse um pouco desapontada em um nível pessoal, tudo que ele dizia confirmava as palavras de Anna e não havia dúvida de que seria útil para seu relatório.
Richard esticou o braço para apanhar sua bengala.
— Tenho uma pergunta — ele disse, levantando-se. — Ela se casou com alguém?
— Não, até onde sei — Laura respondeu. — Ela se referia a si como Senhorita Crockett-Burrows. E pode interessar a você que ela guardou a caveira quase até o fim.
Richard deu um leve sorriso.
— Então ela realmente se tornou uma sacerdotisa da caveira, afinal de contas — balançou a cabeça. — Casou-se com a caveira. Incrível! Eu me pergunto por quê.
— Eu mesma gostaria de saber responder a essa pergunta — disse Laura. Por que Anna, uma jovem atraente e vivaz, escolheria uma vida de celibato e sigilo, tomando conta de um objeto inanimado? É realmente intrigante.
— Ah, eu quase me esqueci — Richard disse. Ele começou a se ocupar com o conteúdo de sua velha e gasta pasta. — A Sociedade Real pediu-me para desenterrar algumas fotos minhas de quando eu ainda era jovem, acabando de iniciar minha carreira, para seu artigo de revista sobre as premiações — explicou, enquanto puxava um envelope grande, cheio de fotos, no qual remexeu até encontrar a certa.
— Ah, aqui está — disse, enquanto passava uma fotografia envelhecida para Laura. — Acredito que a qualidade não esteja boa, mas pode ser interessante para seu relatório.
Laura olhou para a foto. Era uma da jovem Anna, em pé, no interior da pirâmide maia, sorrindo de orelha a orelha enquanto segurava triunfante a caveira de cristal ao alto, em frente à câmera. Um jovem Richard Forbes sorria a seu lado.
— Encontrei-a outro dia, quando olhava meu velho álbum cuidadosamente. Devo dizer que trouxe uma quantidade enorme de lembranças que me inundaram. — É sua — disse.
— Mas não é possível… — ela protestou.
Ele olhou para o punhado de fotos em sua mão.
— Eu olhei todas com os editores da revista nesta tarde, e eles preferiram uma em que estou sozinho mesmo. Por favor — Richard insistiu. — Isso é passado.
— Muito obrigada — Laura guardou a foto na bolsa.
— Mas antes de ir — Richard acrescentou — gostaria de pedir apenas um favorzinho.
— Sim, qual é?
— Queria que você soubesse que o motivo pelo qual concordei em ficar e conversar contigo esta noite foi que pensei que talvez você pudesse fazer o que eu não tive coragem. Talvez você pudesse fazer com que as pessoas soubessem a respeito da caveira e sua história.
— Farei o meu melhor. — Laura disse.
Eles apertaram as mãos, Richard pegou sua bengala e caminhou lentamente para a cerimônia de premiação.