O Mistério da Caveira de Cristal
Capítulo 42
Depois de uma pausa, quando ele tentava se situar, protestou:
— É na semana que vem! Isso é impossível.
Laura olhou para o marido e falou lentamente.
— Não, não é, Michael. Os mais antigos fizeram previsões sobre o futuro e tudo o que eles previram em uma dessas pedras proféticas aconteceu exatamente no dia em que eles disseram que aconteceria.
Ele a encarou, ainda se esforçando para compreender o significado do que ela dizia.
Laura começou a vasculhar sua pasta para encontrar a agenda telefônica. Ela a folheou até encontrar o que buscava, apanhou o telefone e discou.
— Olá, Dr. Brown? Aqui é a Dra. Shepherd do Instituto Geográfico Smithton. Preciso que me leve a Luvantum… o mais rápido possível.
Houve uma pausa enquanto Dr. Brown falava no outro lado da linha.
— Esse é o único vôo?
— O que você está fazendo? — Michael perguntou parecendo perturbado.
— Certo, te vejo lá amanhã, às duas horas — ela desligou o telefone a virou-se novamente para o marido.
— Veja — ela disse — tenho que ir a Luvantum…
— Laura, você perdeu o juízo.
— Não, Michael. Isso é importante. Eu tenho que ir… por todos os motivos.
Ele a fitou, começou a protestar, porém ela levantou um dedo e o pressionou contra os lábios dele.
— Você não entende? É sobre isso que Alice tentava nos alertar.
Ele olhou para Laura, amedrontado.
— Algo acontecerá dentro de uma semana — ela disse. — Está bem aqui, “gravado em pedra”, mas alguns desses hieróglifos ainda estão faltando. Eu posso ver na foto de Anna que há outro anel interno de hieróglifos, mas não consigo traduzi-los porque Anna está na frente — ela levantou a foto.
— Eu preciso encontrar o restante dessa pedra, Michael. Eu tenho que ir para a América Central e terei que levar a caveira comigo para decifrar os outros glifos.
Ele não conseguia acreditar no que ouvia. Como era ruim que a esposa julgasse haver obtido uma mensagem de Alice. Agora ela planejava uma viagem perigosa para a América Central. Era uma loucura completa, totalmente incompreensível para ele, mas sabia exatamente como ela ficava teimosa toda vez que tomava uma decisão.
Estava quase protestando novamente, quando a porta do escritório de Laura se abriu e Professor Lamb entrou acompanhando de Caleb e dois seguranças da Nanon Systems.
O Professor Lamb estava de muito bom humor, todo sorrisos, sem dúvida satisfeito com o leite da bondade humana agora que os cofres do Instituto Geográfico Smithton haviam sido tão amplamente cheios pela Nanon Systems.
Cumprimentou Michael com um aperto de mão acalorado antes de se voltar para Laura e, radiante, sorrir para ela.
— Ok, Laura, seu tempo com a caveira se esgotou — ele sorriu.
Ela franziu as sobrancelhas.
— Professor Lamb, receio que algo tenha surgido e necessite de mais investigação, então preciso ficar mais tempo com ela, só mais alguns dias.
Lamb disparou um olhar zangado. Isso não estava em seus planos de uma entrega amigável. Ele ficara mais do que feliz com a idéia de a caveira ir embora. Ele não a queria mais, aquela lembrança melancólica da morte de Ron perambulando pelo museu. A verdade é que obtivera um patrocínio lucrativo para o museu, em troca de sua verdadeira venda — um empréstimo de longa data da Nanon Systems para eles “realizarem pesquisas mais aprofundadas” — era um bônus a mais e inesperado que ele não tinha a intenção de desperdiçar.
— Acredito que isso esteja fora de questão — ele respondeu. — Oficialmente a caveira agora pertence à Nanon Systems.
— Passou a ser nossa às seis horas de hoje — Caleb acrescentou, olhando para seu relógio — e isso foi há quase meia hora.
Ele sentou no canto da mesa de Laura.
— Eu assinei um contrato de uma grande quantia maldita de dinheiro para obter essa coisa, e nós temos um prazo urgente neste projeto… Então, se você não se importar…
Ele não deu o braço a torcer.
— Sinto muito, Caleb — começou — mas a caveira é absolutamente vital para nosso programa de pesquisa sobre hieróglifos.
— É? — Lamb disse. Não havia dúvida de que era a primeira vez que ouvira algo a respeito.
— Sim — Laura olhou para os rostos inexpressivos ao redor.
— Veja todos esses hieróglifos. Eles estão totalmente ilegíveis, certo?
— Laura correu a mão pelos glifos corroídos. — Agora olhe para eles através da caveira.
Ela ofereceu a caveira para Lamb. Ele a passou para Caleb, que olhou para o objeto.
— Vê como eles são transformados pela caveira? — Laura disse. — Ela torna possível lê-lo mesmo que estejam tão demasiadamente corroídos.
Houve uma longa pausa enquanto Caleb examinava a pedra através da caveira, movendo-a um pouco da esquerda para a direita.
— Eu não consigo ver nada! — Caleb disse abruptamente.
— Isso é uma piada? — ele largou a caveira.
Laura a apanhou para ela mesma verificar mais uma vez.
— Mas olhe! Professor Lamb! Eles mostram uma data do antigo calendário maia, clara como o dia.
Lamb ergueu uma sobrancelha, e ela entregou a caveira para ele.
— Apenas segure firme a caveira e você verá o que eu quero dizer.
Lamb pegou a caveira e colocou os cotovelos na mesa, com as pernas afastadas, como se estivesse prestes a dar uma tacada no campo de golfe. Ele olhou fixamente para os hieróglifos através da caveira.
— Esses hieróglifos que você pode ver aí se traduzem para nosso calendário como 21 de dezembro de 2012, exatamente daqui a uma semana! — ela explicou.
Lamb parecia irresoluto.
— Você tem certeza disso, Laura?
— Absoluta!
— Desculpe, Laura… eu não consigo vê-los.
Ele largou a caveira.
Laura o encarou. Ela começava a ficar nervosa agora. Atormentava-lhe o fato de que eles não conseguissem ver o que ela conseguia.
— Michael, mostre a eles que eu não estou ficando doida! — ela brincou, entregando a caveira para o marido.
Ninguém mais sorria. Michael não queria pegar a caveira. Ela pôde ver isso. Sua postura tornou-se tensa e desajeitada. Na verdade, ele não queria fazer parte disso, não queria ser colocado nessa situação. Todos os olhos estavam sobre ele quando ergueu a caveira e olhou para os hieróglifos através dela.
Houve um silêncio quando Michael ajustou e reajustou a posição da caveira, enrugando a testa ao se concentrar.
— E então? — Laura perguntou.
— Só um minuto! — ele apertou os olhos. Mudou o ângulo da caveira novamente. Então, virou-se para Laura.
— Não, Laura. Eu não consigo ver nada também.
— Mas, Michael, você deve conseguir vê-los! — havia desespero em sua voz.
Michael olhou novamente e sacudiu a cabeça.
— Sinto muito, Laura. Simplesmente não há nada ali.
Ele soltou a caveira e olhou para a esposa, expressando no rosto toda a sua preocupação.
Todos a encaravam em silêncio.
Ela colocou a mão na testa.
— Não compreendo por que vocês não os veem.
Em seu rosto, revelava toda a angústia que sentia.
— É importante. Você tem que entender — ela implorou. — Algo acontecerá dentro de uma semana, e eu preciso da caveira para descobrir o que é.
Houve um silêncio desagradável até Caleb limpar sua garganta e falar.
— Receio que você não tenha mais nenhum contato com a caveira, Laura. Trata-se de uma questão de segurança. O acesso será restrito apenas a cientistas importantes e militares.
— O quê? — Laura estava revoltada.
Caleb acenou com a cabeça para seu chefe de segurança, um ex-policial de ascendência russa. Com um olhar ponderado para Laura, ele aproximou-se e começou a guardar a caveira dentro da mala.
— Não! Por favor, espere!
Ela pisou adiante para tentar impedir o agente de segurança, mas Michael segurou seu braço firmemente.
— Deixe para lá, Laura — disse delicadamente.
— Não!
Ela conseguiu se soltar, deu um bote para frente e tentou tirar a caveira do agente de segurança, mas em um instante o outro agente a conteve, segurando-a com um forte aperto.
— Por favor! — ela implorou, tentando se libertar. — Eu preciso descobrir sobre o que ela tentava nos alertar!
Ela lutou desesperadamente contra o agente de segurança. O primeiro agente terminou de guardar a caveira, enquanto Lamb conduziu Caleb e o guarda pela porta.
— Eu sinto muitíssimo por tudo isso, Caleb. Eu nunca tinha visto a Dra. Shepherd assim — Lamb se desculpava profundamente enquanto guiava seus visitantes em direção aos elevadores.
Eles estavam todos se dirigindo ao elevador antes de Laura desistir e não combater o apertão do guarda.
— Você está calma agora, senhora? — perguntou o agente de segurança. Ela balançou a cabeça respondendo afirmativamente. Ele lançou a ela um olhar incerto, então a soltou e deixou a sala para seguir os demais.
Laura ficou lá, murcha, oprimida e desolada. Michael foi até ela, meio amedrontado. Ele não sabia o que se passava na cabeça dela. Sentia como se não a conhecesse mais. Algo havia acontecido, algo que não conseguia compreender.
— Laura, o que deu em você? — perguntou.
Ele não tinha a intenção de agir daquela maneira, mas não conseguia deixar de registrar em sua voz o medo e a raiva que sentia.
Mas, em vez de responder à pergunta, ela arremessou-se à porta.
Atordoado, Michael gritou:
— Laura! — e correu atrás dela, porém ela bateu a porta na cara dele.
Tinha apenas um pensamento, e era o de como conseguir a caveira de volta. Na melhor das hipóteses, tinha minutos para conseguir, antes que ela deixasse o prédio para sempre e nunca mais a visse novamente.
Ela fez uma varredura no corredor. O segundo agente de segurança tinha acabado de descer pelo elevador. Correu pelo corredor desviando-se de uma Janice boquiaberta.
— Espere! — ela ouviu Michael gritando atrás dela, mas o ignorou e empurrou a porta para as escadas de emergência, abrindo-a.
Lançou-se degraus abaixo, quase se machucando no meio do caminho, mas não estava nem um pouco preocupada com a própria segurança.
No final da escadaria, viu-se no corredor de serviços do subsolo, no lado oposto ao qual conseguia enxergar através da porta contra incêndio que dava acesso ao estacionamento subterrâneo. Através da janela viu Lamb apertando as mãos e se despedindo de Caleb e seus homens.
Caleb estava prestes a ir embora com a caveira. Seu coração parou.
Ela pôde ouvir Michael lançando-se escada abaixo atrás dela. Olhou ao redor para encontrar algum lugar para se esconder e se precipitou para o banheiro feminino, deixando a porta se fechar silenciosamente. Apoiou-se nela, imaginando se ele ouviria o som de seu coração, que batia muito alto. Escutou os passos de Michael quando ele passou correndo. Ouviu a porta contra incêndio abrir, assim que o Professor Lamb retornou do estacionamento, e escutou de surdina Michael indagá-lo se a vira.
— Não, eu não a vi aqui embaixo — respondeu Lamb.
Ela ouviu o diálogo entre os dois e os passos de Michael retornando às escadarias que dão acesso ao andar seguinte. Sentiu que estava respirando pela primeira vez em alguns minutos. Quando teve certeza de que estavam fora do alcance de sua voz, ela sacou o celular e discou, enquanto reaparecia cuidadosamente no corredor.
Através da janela contra incêndio pôde ver Caleb entrando em seu carro e apertando o cinto de segurança. Merda. Eles estavam prestes a sair.
Sussurrou calmamente ao telefone:
— Jacob, fomos roubados! Alguém simplesmente furtou a caveira de cristal do meu escritório. É um cara grande vestido com um terno azul-marinho, com dois agentes de segurança. Eles estão em uma caminhonete preta prestes a deixar o estacionamento.
A linha caiu quase ao mesmo tempo.
Ela retornou à janela. O veículo de Caleb começava a sair de sua vaga.
“Vamos, Jacob. Por que você está demorando tanto?”
O carro de Caleb se aproximou dos portões de saída.
“Mais quinze segundos, e eles terão saído daqui.”
Ela observou enquanto a cancela de segurança era levantada.
“Não, eles não podem sair.”
Em um momento de pânico, se lançou pela porta contra incêndio e começou a correr pelo estacionamento em direção a eles. Pôde ver o chefe de segurança da Micron no banco do passageiro e levantou a mão em um gesto de despedida para os caras dentro da guarita de segurança do museu.
“Ah, não, é tarde demais.”
De repente, o estacionamento foi perturbado pelo ruído do sistema de alarme do museu, a cancela de saída abaixou-se em frente ao carro de Caleb, que saía, e um Caleb de aparência chocada e seus colegas foram arrancados para fora do carro, sob a mira de armas.
Laura abaixou-se atrás de uma lixeira, fora do ângulo de visão. Ela viu um dos agentes do museu apanhar a mala com a caveira dentro do carro de Caleb e colocá-la na capota do carro. Obrigaram Caleb e seus homens a ficar contra a parede, com as pernas afastadas e os braços na nuca, enquanto abaixavam as armas.
Laura precisava se aproximar. Mantendo a cabeça baixa, caminhou pelo estacionamento, esquivando-se e balançando-se por entre os carros estacionados, tentando permanecer fora de visão, até chegar ao final de uma fileira de automóveis. Lá ela parou, escondeu-se atrás do carro marrom do Professor Lamb. Entre aquele espaço e o carro de Caleb, estacionado à saída, não havia mais lugar para se esconder.
Ela avistou a mala com a caveira sobre o capô do veículo de Caleb. Estava a menos de dezoito metros de distância.
Ouviu Michael e Lamb surgirem pela porta contra incêndio, atrás dela, aproximando-se para verificar o que acontecia.
Ela hesitou. Assim que saiu detrás do carro de Lamb, alguém certamente a descobriria. Olhou para a mala com a caveira, desprotegida sobre a capota do veículo de Caleb. Longe dali havia guardas armados e os portões de saída do museu. Do outro lado do portão, uma grade de segurança automática descia devagar, mas certamente o fazia.
“É isso!”, ela pensou. “É agora ou nunca”.
Tinha apenas segundos para decidir, e então, sob o brilho flamejante vermelho do sistema de alarme de segurança do museu, lançou-se. Jogou-se no capô do veículo de Caleb, agarrou a mala com a caveira e correu para os portões de saída.
Lamb a avistou primeiro.
— Segure-a! — ele gritou, e todos se viraram para ver o motivo do berro.
Ainda mantido de costas pelos guardas, Caleb observou horrorizado enquanto Laura voava pelos portões de saída do museu. Encolheu-se sob a grade de segurança que descia e desapareceu pela noite, levando sua preciosa caveira de cristal…