O Mistério da Caveira de Cristal

Chris Morton e Ceri Louise Thomas · Capítulo 52 de 112

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O Mistério da Caveira de Cristal

Capítulo 49

Laura havia se esquecido do quanto amava a floresta, mesmo na chuva torrencial, e o quanto sentira falta dela até agora. Porém era difícil prosseguir no calor sufocante, tentando manter as mulas se movendo na direção certa, sem perder a passada, no terreno irregular, e curvando-se para evitar galhos baixos e folhagens compridas que poderiam derrubá-la da sela. E para Laura não parecia que ela e seu grupo não tinham ido longe, até Dr. Brown anunciar que era hora de interromper a viagem e preparar um acampamento para a noite.

Brown havia esperado ir mais longe, para conseguir preparar antecipadamente o acampamento perto do cume principal que dividia as montanhas maias do Oriente e do Ocidente, mas a trilha estava surpreendentemente coberta, a chuva e a lama haviam atrasado o progresso das mulas, e eles teriam de parar agora e fazer preparativos, antes que a fome e a escuridão os dominassem.

Carlos parecia ter uma energia sem fim. Ele parou de picar os galhos e voltou sua atenção, sem descanso, para acender uma fogueira, muito embora para Laura parecesse que não poderia haver nada mais na floresta que ainda estivesse seco o suficiente para queimar. Tudo, literalmente tudo, parecia ensopado. No entanto, em pouco tempo, Carlos havia pendurado uma lona improvisada como teto entre os troncos das árvores. Ele então abriu uma grande planta da floresta, de aparência estranha, para revelar um interior estranhamente seco, e, após alguns golpes de seu facão contra o pequeno “tijolo refratário”, ou sílex, que sempre carregava consigo, ele em breve sopraria suavemente o acendimento natural dos “cabelos” secos das plantas. E não demorou muito até todos ferverem uma chaleira de chá improvisada com

uma lata e fritarem algumas tortillas e feijões em uma fogueira de acampamento pequena, mas extremamente eficiente.

Sentados, durante o jantar, antes de subirem para suas barracas para passar a noite, Laura descobriu que Dr. Brown havia escolhido viver ali em razão de seu amor pela cerâmica maia.

Aparentemente, percepções sobre as antigas histórias maias de criação poderiam, às vezes, ser reunidas, remendando-se pequeninos cacos de suas antigas cerâmicas quebradas, obtendo-se, assim, alguns exemplos particularmente bons do que havia sido encontrado naquela região. Laura estava prestes a perguntar a Dr. Brown se qualquer uma dessas histórias de criação mencionava alguma caveira de cristal, porém mordeu o lábio. Decidiu manter todo o conhecimento sobre a caveira de cristal para si mesma a essa altura. Afinal de contas, até onde podia dizer, ninguém mais que tivesse qualquer idéia da sua presença ali teria a ver com a caveira de cristal. Eles provavelmente não tinham noção de que aquele objeto existia e muito menos que ela deveria estar com ele em sua mochila, e seus instintos lhe disseram que provavelmente era mais seguro manter dessa forma.

À medida que a conversa prosseguia, ocorreu-lhe que Carlos provavelmente saberia mais sobre Luvantum do que Dr. Brown, e, embora seu sotaque fosse grosseiro, seu inglês era excelente. No momento ele estudava para seu Doutorado em Arqueologia na Universidade de Tegucigalpa, em Honduras. “Por seus pecados”, ele havia, na verdade, escolhido fazer seu Doutorado em “arquitetura da antiga cidade maia de Luvantum”. Ele escolhera esta cidade em parte porque seu distanciamento significava que cada pequeno trabalho arqueológico peculiar havia sido feito no local, embora tivesse sido descoberto de década de 1930. Parecia que pouquíssimos arqueólogos haviam se preparado, no decorrer dos anos, para fazer a longa viagem pela floresta, no lombo de mula, a fim de estudar um sítio arqueológico que parecia “não ter mais tesouros para oferecer”, em vez de inúmeros outros sítios arqueológicos que poderiam ser encontrados exatamente fora da principal rota oriente-ocidente.

Laura perguntou se poderia ver um mapa do sítio arqueológico, e Carlos tirou uma cópia de seu “trabalho em desenvolvimento”, um mapa muito simples das ruínas de Luvantum, o qual conseguira laminar em sua última viagem de volta a Tegucigalpa. Estudando o mapa da cidade, Laura reconheceu muitos dos aspectos característicos das cidades maias por todo seu antigo território; em toda a parte externa, as casas, os poços e as estradas para pedestres dos cidadãos comuns e os principais “sacbés” ou “caminhos brancos” que levavam ao centro.

No centro da cidade, o campo para jogos com bola, os palácios reais, os prédios religiosos e acadêmicos, e

observatórios em que aprendizes estudaram antigos codexes, os movimentos dos planetas e das estrelas, e aprenderam os trabalhos misteriosos do antigo calendário maia.

No coração da cidade ela conseguiu ver a praça central, grandiosa e pavimentada, ladeada em todos os lados pelos edifícios palacianos da mais alta realeza e sacerdotes-astrônomos, e, em todas as extremidades da praça, as maiores e mais imponentes pirâmides escalonadas do sítio arqueológico.

Laura sabia que naquele momento fora muito importante para os antigos maias que em muitas cidades remotas da América Central houvesse duas notáveis pirâmides centrais, erguidas de modo a verificar e medir o funcionamento do calendário.

Na maioria dos casos, a pirâmide maior estava alinhada com os movimentos do Sol, e a partir de seu templo era possível marcar facilmente, com precisão fenomenal, os solstícios de verão e de inverno, e os equinócios de primavera e de outono.

O outro templo-pirâmide principal era, em geral, menor, alinhado com os movimentos da lua, e utilizado para verificar o funcionamento do calendário lunar. Em algumas cidades, como a grande cidade de Teotihuacan, próximo da Cidade do México, essas pirâmides eram, na verdade, referidas como a Pirâmide do Sol e a Pirâmide da Lua.

Muitas vezes, outras pirâmides mais afastadas da cidade estavam alinhadas com os movimentos de outros corpos celestes significativos, como o planeta Vênus, e o aglomerado estelar ou constelação conhecida como “as sete irmãs” ou Plêiades. A posição e orientação desses templos-pirâmides teriam sido utilizados para verificar a posição desses planetas e estrelas em relação à Terra.

Então reconheceu muitas das características no mapa à sua frente, porém estava intrigada com uma coisa, e perguntou para Carlos:

— Eu vi que você conseguiu identificar as pirâmides de Vênus, das Plêiades, e as do Sol e da Lua, ambas ao final da praça, aqui, mas parece que você não identificou esta, afastada da pirâmide maior, na outra extremidade da praça, aqui.

— E porque ainda não sabemos para que serve a pirâmide maior de Luvantum — Carlos respondeu. — Não sabemos para qual corpo celeste ela foi dedicada. Tudo o que sabemos é que a pirâmide maior é coberta por pedras com imagens de crânio humano entalhadas.

Laura estava intrigada. Talvez ela estivesse no caminho certo, afinal de contas.

Mas antes que tivesse a chance de fazer mais perguntas, Dr. Brown intrometeu-se:

— Então é possível que ela tivesse sido usada para sacrifício humano!