Vox
Nove
A esposa do presidente está próxima dele na TV, alguns passos atrás e à direita, o cabelo louro coberto por uma delicada echarpe cor de malva que combina com o vestido e destaca os olhos.
Não sei por que ligo a televisão. Quando requentei meu café, a chuva voltou a cair num ritmo constante, molhando tudo, então não estou muito a fim de sair. Além disso, é mais seguro ficar dentro de casa, sozinha. Sem a tentação de falar.
A primeira-dama é linda. Quase uma reencarnação de Jackie Onassis, só que loura e de olhos azuis, em vez de castanhos. Eu me lembro dela, quando ainda não era casada e enfeitava as páginas da Vogue e da Elle, quase sempre servindo de modelo em roupas de banho cavadas ou lingerie, sorrindo nas revistas, como se dissesse: Vamos, pode tocar.
Agora, vendo-a plácida atrás do marido, fico pasma com a mudança. Na verdade, uma metamorfose. Ela parece mais baixa, mas talvez seja pela escolha de calçados. O presidente não é muito alto, e acho que há uma questão estética em jogo, como se os fotógrafos decidissem equilibrar a figura dos dois, nivelando os fotografados.
Quem estou querendo enganar?
Ela não sorri mais, não usa mais nada que fique a menos de dez centímetros abaixo dos joelhos ou que seja mais cavado do que a base da concavidade da garganta, cujo nome jamais consigo lembrar. Fossa supra-não-sei-das-quantas. As mangas são sempre infalivelmente três-quartos, como hoje, e o contador no pulso esquerdo combina com o vestido. Parece uma joia antiga, o presente de uma bisavó.
A primeira-dama deveria ser nosso modelo, uma mulher pura, firme ao lado do marido em todas as ocasiões.
Claro, ela só está junto dele nos eventos públicos. Quando as câmeras e os microfones são desligados, Anna Myers, née Johansson, é imediatamente escoltada de volta para sua casa por um trio de agentes armados do serviço secreto. Nunca filmam isso, mas Patrick sabe porque esteve presente em mais de um discurso do presidente.
O trio fica com ela dia e noite.
Em outra época, essa supervisão constante da primeira-dama seria aceita como mera rotina de segurança. Mas a verdade está nos olhos azuis de Anna Myers: são vazios, sem brilho, os olhos de uma mulher que agora enxerga o mundo em tons de cinza.
Havia uma garota no meu alojamento, cinco portas à esquerda, que tinha os olhos iguais aos de Anna. Parecia que os músculos em volta deles jamais se mexiam, jamais se contraíam ou se esticavam para acompanhar o sorriso que ela dava quando lhe perguntavam se estava tudo bem, se estava se sentindo melhor naquela manhã, se queria conversar. Eu me lembro de quando encontramos seu corpo, de olhos abertos e opacos, como poços rurais ou poças de café derramado. Se você quer saber como é a depressão, basta fitar os olhos de uma pessoa deprimida.
É estranho como consigo me lembrar dos olhos da garota, mas não do seu nome.
Anna Myers vive numa prisão com rosas nos jardins, mármore nos banheiros e lençóis de dois mil fios na cama. Patrick me contou sobre ela, depois de uma de suas visitas de cortesia ao presidente Myers, disse que os homens do serviço secreto verificam o banheiro de Anna duas vezes por dia, revistam sua cama procurando objetos que podem ter migrado da cozinha sem ser vistos, controlam seus medicamentos e entregam um comprimido de cada vez. Não existe álcool na casa de Anna, nem trancas na porta, a não ser as do armário onde ficam os materiais de limpeza. Nada em sua casa é feito de vidro.
Mudo de canal.
Ainda temos TV a cabo, mais de uma centena de opções em esportes, jardinagem, culinária, decoração, desenhos animados infantis, alguns filmes. Todos os filmes são de censura livre – nada de terror, um pouquinho de comédia leve, aqueles épicos de quatro horas sobre Moisés e Jesus. E há os outros canais, mas todos são protegidos por senha, podendo ser assistidos apenas pelo chefe do lar e pelos homens com mais de dezoito anos. Ninguém precisa de imaginação para adivinhar que tipo de programa passa nesses canais.
Hoje escolho golfe: puro tédio envolvendo um taco de metal e uma bola.
Quando meu café está frio e o jogador que está na frente chega ao décimo oitavo buraco, a campainha toca. É um acontecimento incomum durante o dia. Afinal, para que visitar alguém? As únicas pessoas que não estão fora, trabalhando, são mulheres, e o que elas fariam? Ficariam sentadas em silêncio assistindo ao golfe? Ter companhia só destaca o que não temos mais.
Percebo que ainda estou de roupão quando abro a porta e dou de cara com Olivia, de echarpe cor-de-rosa amarrada na cabeça, sem um fio de cabelo fora do lugar.
Ela me examina, um olhar lento e desaprovador desde o meu pescoço até os pés, e estende um saco de açúcar quase vazio e um copo de medida.
Assinto. Se não estivesse chovendo, eu a deixaria esperando na varanda enquanto enchia o copo com açúcar na cozinha. Em vez disso, sinalizo para ela entrar, para não se molhar.
Olivia me acompanha até a cozinha, e a pilha de pratos sujos do café da manhã recebe a mesma expressão julgadora que meu roupão recebeu à porta da frente. Eu gostaria de lhe dar um tapa, ou pelo menos dizer o que acho de sua atitude hipócrita. Quando pego o copo de medida de sua mão, ela agarra meu pulso. As mãos de Olivia estão frias, principalmente por causa da chuva.
Espero algum som, algum “Hum” metido a besta, mas ela fica em silêncio, observando meu contador piscar incessantemente o número de três dígitos.
Ela sorri, e o sorriso me traz uma lembrança de outro dia, outro toque inesperado da campainha, outro pedido de uma xícara de açúcar, meio litro de leite, um ovo.
— Posso me sentar um pouco? – perguntou Olivia dois anos antes, sem esperar um sim, acomodando seu traseiro amplo no sofá da sala.
Eu tinha deixado a TV ligada em algum programa de entrevistas enquanto corrigia cadernos com trabalhos de fim de ano. Jackie Juarez estava discutindo com três mulheres vestidas de modo antiquado.
— Ah, ela não é incrível – disse Olivia. Não foi uma pergunta.
— Qual delas? – perguntei, estendendo a caixa de leite.
— A de terninho vermelho. A que se parece com Satã.
Jackie estava passando um pouco do ponto, até mesmo para Jackie. O vermelho se destacava como uma ferida supurando no meio das outras mulheres, sem graça e opacas em seus conjuntinhos de cores pastel. Cada uma delas usava um colar de pérolas, tão junto ao pescoço a ponto de parecer uma coleira; o medalhão de Jackie – uma coruja – pendia entre os seios, empinados devido ao milagre do arame e do bojo nos sutiãs modernos.
— Eu a conheço – falei. – Conhecia. Nós fizemos faculdade juntas.
— Faculdade – repetiu Olivia. – O que ela cursou?
— Sociolinguística.
Olivia bufou, mas não pediu para eu explicar, então voltou sua atenção para o quarteto de mulheres e o moderador.
Como sempre, Jackie estava esbravejando: – Vocês acham mesmo que as mulheres devem obedecer aos maridos? No século XXI?
A mulher à sua direita, a do cardigã azul-bebê, sorriu. Era o tipo de sorriso que uma professora do jardim de infância atarantada poderia dar a uma criança durante um chilique, um sorriso cheio de pena e compreensão. Você vai superar isso, dizia o sorriso.
— Deixe-me dizer algumas coisas sobre o século XXI, querida – começou a Sra. Cardigã Azul-Bebê. – Não sabemos mais quem são os homens e quem são as mulheres. Nossos filhos estão crescendo confusos. A cultura da família teve uma ruptura. Houve um aumento de engarrafamentos, poluição, crianças autistas, viciados em drogas, pais solteiros, presidiárias femininas, tiroteios em escolas, pessoas obesas, endividadas e homens com disfunção erétil. Isso para citar apenas algumas coisas. – Ela brandiu uma pilha de pastas de papel pardo na frente de Jackie enquanto as outras bonecas Barbie dos anos setenta (Mulheres Puras, como elas se chamavam) assentiam numa concordância melancólica.
Jackie ignorou as pastas.
— Aposto que a próxima coisa que vocês vão dizer é que o feminismo é o verdadeiro culpado pelos estupros, não é?
— Ainda bem que mencionou isso, Srta. Juarez – disse a Sra. Cardigã Azul-Bebê.
— Não sou senhorita. Nem senhora.
— Tanto faz. Sabe quantos incidentes de estupro violento foram denunciados em 1960? Nos Estados Unidos?
— É interessante você usar a palavra “denunciados” – interrompeu Jackie.
— Dezessete mil. Mais ou menos. Este ano o número foi cinco vezes maior.
Jackie revirou os olhos e as outras duas Mulheres Puras partiram para o abate. Elas tinham os números. Tinham gráficos e pesquisas. Uma apresentou um conjunto de gráficos de pizza – deviam ter se preparado com antecedência, pensei – enquanto Jackie lutava para ganhar tempo no ar.
No sofá ao meu lado, Olivia mordeu o lábio.
— Eu não fazia ideia.
— Não fazia ideia de quê?
— Desses números.
Ela apontou para um dos gráficos, agora sendo televisionados com uma narração pré-gravada na voz de Azul-Bebê. A mulher já não falava de estupro, mas recitava estatísticas sobre o uso de antidepressivos.
— Meu Deus. Uma em cada seis? Isso é medonho.
Ninguém na plateia do estúdio estava prestando atenção ao que Jackie dizia sobre estatísticas distorcidas ou a falácia de correlação-causalidade ou o fato de que, claro, ninguém tomava inibidores de serotonina em 1960 porque eles não existiam.
Foi assim que tudo começou. Três mulheres com uma pilha de gráficos de pizza e pessoas como Olivia.