Vox
Quarenta e Quatro
Nunca deixe uma criança visitar uma fazenda, penso enquanto levo Sonia de volta para casa. Ela vai querer ficar lá para sempre.
Livre do contador há apenas dois dias, Sonia desenvolveu o dom da tagarelice. A fala contínua sobre Aristóteles, a égua – que na verdade é “um cavalo menina com nome de menino”, informa Sonia –, só é interrompida por uma narrativa sobre galinhas marrons que põem ovos marrons e galinhas brancas que põem ovos brancos. Ela mal pode esperar para voltar no dia seguinte, e imagino se deveria tê-la deixado passar a noite com os Ray.
Não, é melhor trazê-la para casa. Se o teste com Delilah Ray correr bem na segunda-feira, talvez eu não tenha mais do que uma semana para falar com minha filha.
Eu planejava perguntar se Del faria por nós o mesmo favor que tinha feito pela sua família, retirar os contadores de pulso e substituí-los por falsos, mas não fiz isso. Ainda não. Uma vozinha fica me lembrando de Steven. Ele entrou nessa história de Puros de cabeça. Além disso, os gêmeos poderiam deixar escapar alguma coisa, revelar o segredo na escola. Não posso correr esse risco.
Enquanto seguimos de carro, a paisagem muda de rural para suburbana. Todas aquelas casas são pequenas prisões, penso, e dentro delas existem celas na forma de cozinhas, lavanderias e quartos. As palavras de Morgan voltam a mim, sua fala casual sobre como as coisas eram melhores antes, muito tempo atrás, quando os homens trabalhavam e as mulheres ficavam em suas esferas particulares, cozinhando, fazendo faxina e bebês.
Não creio que eu realmente acreditasse que isso um dia aconteceria. Acho que nenhuma de nós acreditava.
Depois da eleição começamos a acreditar. Algumas participaram de um protesto pela primeira vez na vida. As mulheres, na maior parte, foram a ponta de lança da campanha anti-Myers. Nós nos apinhamos em ônibus e vagões de metrô, congelando no inverno de Washington. Lembro que também havia homens. Barry e Keith, que juntos tinham três décadas de luta pelos direitos dos gays, passaram um sábado pintando cartazes na casa deles, pertinho da nossa; cinco alunos de pós-graduação do nosso departamento disseram que estavam do nosso lado. E ficaram mesmo, durante um tempo.
É difícil identificar contra o que – ou quem – estávamos protestando. Sam Myers era uma opção terrível para presidente. Jovem e inexperiente em políticas importantes, com formação militar de um ano no curso preparatório de oficiais da reserva na época de faculdade, Myers fez sua corrida presidencial apoiado em duas muletas. Bobby, seu irmão mais velho e senador de carreira, dava os conselhos práticos, um monte de bosta. A outra muleta era o reverendo Carl, fornecedor de votos, o homem a quem as pessoas ouviam. Anna Myers, bonita e popular, não prejudicava a campanha, se bem que no final a campanha a prejudicou. Muito.
Nossa única esperança de verdade foi o Supremo Tribunal. Mas, com um lugar vazio numa bancada que já tendia para a direita e mais duas aposentadorias se aproximando, os juízes do Supremo não ofereceram muita resistência. Mesmo agora dizem que vão demorar meses até que o punhado de ordens de restrição percorram o sistema labiríntico. Se é que vão percorrer.
Patrick tolerou minha ausência há dois invernos, requentou sopa e outras refeições simples, cuidou das crianças nos fins de semana enquanto eu ia a passeatas, dava telefonemas, escrevia e protestava. Ele não parecia exigir explicações nem pedidos de desculpa, não como Evan King, o vizinho, faria se Olivia decidisse de repente carregar cartazes contra o governo. Patrick e eu tínhamos uma compreensão tácita da direção que nossa vida – minha vida – poderia tomar se eu ficasse quieta.
A tolerância não se estendia aos que estavam no comando, aos homens para quem Patrick trabalha.
Houve barulho, e muito mais alto do que o que eu fazia.
Num dia em que as magnólias estavam carregadas de estrelas brancas – posso apontá-lo no calendário (frequentemente fiz isso naquele primeiro ano depois da colocação dos contadores) –, Patrick mandou as crianças mais cedo para a cama e me levou para o quintal, embaixo da copa das árvores.
— Ouvi coisas no café – disse ele, me abraçando, sussurrando. – A administração está discutindo meios de fazer vocês se calarem.
— Vocês quem?
— Todas as mulheres. Portanto, me faça um favor e não vá à passeata da semana que vem, até o Capitólio. Deixe as outras mulheres irem, se quiserem, mas fique no seu laboratório, Jean. O trabalho que você faz é importante demais, é muito…
Bati a palma da mão num tronco de árvore, interrompendo-o.
— E o que, exatamente, eles estão planejando? Laringectomia forçada? Cortar nossa língua? Pense, Patrick. Você também é cientista. Ninguém pode calar metade da população, nem mesmo aquele sacana para quem você trabalha.
— Escute, eu sei mais do que você, Jean. Fique em casa conosco desta vez.
Acima de nós, um vento forte afastou as nuvens. Os olhos de Patrick, suaves e úmidos, refletiram o luar.
Naquele fim de semana, não fui à passeata. E em nenhum outro.
Mas no dia seguinte contei à minha ginecologista, a Dra. Claudia, o que Patrick dissera. Contei a Lin e às mulheres do meu clube de leitura, à minha instrutora de ioga. A todo mundo. Quanto mais eu contava, mais o aviso parecia absurdo, como uma história mal escrita de ficção científica, o tipo de coisa que a gente vê nos filmes. Sombria e soturna, a Dra. Claudia retrucou: – Isso nunca vai acontecer.
Lin replicou esse sentimento um dia em sua sala.
— Economia simples – disse ela. – Imagine cortar a força de trabalho pela metade assim – ela estalou os dedos –, da noite para o dia.
— Talvez a gente devesse ir embora. Na Europa é melhor. Eu tenho um passaporte e posso conseguir um para Patrick e as crianças. A gente poderia…
Ela me interrompeu:
— E o que você vai fazer na Europa?
Eu não sabia.
— Vamos pensar em alguma coisa.
— Olha, Jean, eu odeio o desgraçado. Odeio todos eles. Mas aquele reverendo Carl é uma piada. Dê uma boa olhada nessa cidade. Você vê alguém que acredita de verdade no papo furado dele?
— Minha vizinha acredita.
Ela se debruçou na mesa, erguendo o indicador.
— Isso é uma amostra única, Jean. Única. Você sabe o suficiente sobre estatística para não ligar para um caso único.
Lin estava certa e errada ao mesmo tempo. Minha vizinha Olivia era uma criatura isolada, mas só era isolada aqui em Washington. O que Lin não pensou – o que nenhuma de nós pensou – foi em como nossa cidade era uma bolha, como era diferente do resto do país, de caipiras barbudos e comunidades cristãs brotando feito ervas daninhas. Havia um documentário sobre um desses lugares, Glorytown ou Gloryville, ou algo assim, onde todas as mulheres usavam vestidos azuis bonitos com gola alta, seguiam dietas especiais e ordenhavam vacas. Quando entrevistado, o diretor disse que era “excelente”.
Jackie já tinha feito a referência à bolha, aquela observação irônica sobre mim em meu laboratoriozinho seguro, e a acompanhou com uma cesta de presentes de infeliz aniversário que estouravam: chiclete de bola, balões, espumante. Ela pediu – parece que foi há um milhão de anos – que eu pensasse no que faria para continuar livre.
O que eu faria?
Lorenzo tem um plano, eu sei. Um plano que custa muito dinheiro, mais do que ele poderia poupar como acadêmico. Não ouso ter esperança de que seja uma passagem para fora do país, um passaporte falsificado, algo assim. Mas estou pensando exatamente nessas coisas enquanto sigo pela nossa rua e passo pela antiga casa de Annie Wilson, agora habitada por um homem e um menino enquanto Annie trabalha longas horas em alguma terra de ninguém.
Circunstâncias extraordinárias exigem ações extraordinárias.
— Mamãe, olha! – grita Sonia. – Mais luzes!
Estamos diante da casa dos King, e desta vez o furgão é de fato uma ambulância.