Vox
Sessenta e um
Mesmo ausente, Lin me orienta. Suas anotações são claríssimas, detalhadas como plantas de arquitetura. Se ela estivesse aqui, eu não estaria manuseando a seringa, e a injeção não introduziria uma mistura de proteínas e células-tronco no sangue da Sra. Ray. Lin cuidaria disso, através de um furo aberto estrategicamente no crânio da paciente – uma operação que eu não estava ansiosa para realizar.
Como se tivesse previsto seu desaparecimento súbito, Lin montou dois procedimentos separados. Deixo de lado as instruções para a aplicação direta no cérebro, encolhendo-me diante das fotos de crânios, estruturas de imobilização e instrumentos de perfuração, imaginando que tipo de maluco alguém precisaria ser para experimentar isso em si mesmo. Então me lembro da mulher que usou uma furadeira elétrica na própria cabeça nos anos 1970. Ela disse que isso abriu sua mente.
Certo.
O que estou para fazer é mais fácil, uma vez que a Sra. Ray já foi preparada com um cateter antes de sair do asilo onde passa os dias atualmente. Acho que ela vai voltar para lá quando o teste terminar; não tem casa para onde ir, com Del fora de cena. Tremendo favor estou fazendo a ela, penso, e imagino se a velha que plantou meu jardim não está melhor na condição atual. Pelo menos não vai entender o que está acontecendo quando algum burocrata de terno informar o que aconteceu com seu filho e sua nora.
E as netas.
A oferta de Lorenzo ainda está em cima da mesa, mas como posso ao menos debatê-la comigo mesma? Que tipo de monstro embarcaria num voo com um passaporte falso deixando quatro filhos para trás? Mas até que ponto eu seria uma pessoa fodida se ficasse sabendo exatamente o que será feito desse próximo bebê?
Superfodida, decido. De um jeito ou de outro, eu perco.
A porta principal se abre sibilando e se fecha de novo, e passos ecoam no laboratório vazio. Os ratos guincham com a intromissão em seu espaço.
— Enzo?
Mas não é Lorenzo. O intruso é Morgan, e atrás dele um rapaz usando roupa de ordenança empurra a cadeira de rodas da Sra. Ray para dentro da sala.
Ela parece muito mais velha do que na última vez em que a vi.
Steven, agora numa missão idiota para encontrar sua namorada, ainda lutava com as tabuadas de multiplicação quando Delilah Ray foi à nossa casa com as plantas para o meu jardim. O primeiro presidente negro dos Estados Unidos tinha assumido o cargo e a Sra. Ray estava em ótima forma, falando de política, esperança e que “já estava na hora, querida, de esse país entrar nos trilhos”. Ela sempre me chamou de “querida”, com aquele seu jeito sulista.
Até ter o derrame.
Ocorreu não muito depois de o presidente auspicioso entregar as chaves a um novo sujeito que a Sra. Ray jamais chamaria de querido, auspicioso, carismático ou qualquer outra coisa na extremidade positiva de seu rico espectro vocabular.
Quando liguei naquele dia para perguntar sobre um problema numa das minhas roseiras, o filho dela atendeu e me deu a notícia. Ainda posso ouvir a esperança na voz dele, sentir o otimismo ofegante, sem palavras, pairando entre nós enquanto eu delineava minha pesquisa.
— E se não funcionar? – perguntou Del. – E se minha mãe continuar sem falar coisa com coisa?
— Então tentaremos de novo. E vamos continuar tentando.
E foi então que ele falou de dinheiro. Eu disse para nem pensar nisso; todo o tratamento seria gratuito.
Agora me viro para minha primeira paciente humana, uma velha numa cadeira de rodas fitando o vazio branco do laboratório em volta.
— Como vai, Sra. Ray? – pergunto, sabendo que ela só vai interpretar isso como uma sequência de palavras desconhecidas.
Delilah Ray, a botânica que projetou meu jardim e falava de política e receitas de torta, me olha através de um véu de confusão e incompreensão.
— Belos brilhos hoje. Biscoito pelos seus pensamentos e quando o Red Sox fofocando e galopando, não sei. Vai haver hipertensão!
Sua fala é fluida, desimpedida e sem sentido.
Espero mudar isso.
Olhando em retrospecto, não consigo me lembrar se esperava sucesso ou fracasso, mas nos meus sonhos sempre imaginei quais seriam suas primeiras palavras com significado verdadeiro desde o derrame. Enquanto encho a seringa com o líquido do frasco, percebo que minhas mãos estão tremendo.
— Aqui. Deixe que eu faço.
É Lorenzo. Eu estava tão perdida nas lembranças que não o ouvi entrar no laboratório.
Ele pega o frasco e a seringa e tira habilmente a quantidade certa do soro, seguindo as instruções de Lin. Bate nela duas vezes com o nó do indicador e a observa contra a luz.
Não faço ideia do que ele está fazendo.
Lorenzo assente para Morgan, sinalizando que é hora. Enquanto o ordenança empurra a Sra. Ray para a sala que eu preparei, Lorenzo segura meu braço. E balança a cabeça negativamente.
A equipe dourada – seja quem for – está com o soro e as fórmulas.
— Certo – digo. – Vamos lá.
— Eu tenho bilhetes – sussurra ele.
— Bilhetes para quê? – Morgan pôs o nariz para fora da sala da Sra. Ray.
— Para a sinfônica na semana que vem – mente Lorenzo. – Beethoven, sabe. É difícil conseguir, se você não estiver na lista principal.
— Bom, eu não estou nem aí para sua lista principal ou sua sinfônica. Estamos esperando aqui e eu tenho outros compromissos.
— Claro que tem, Morgan. Um figurão feito você… – diz Lorenzo. Ele está quase rosnando.
Afasto os pensamentos sobre a fuga, pelo menos por enquanto, e entro na sala estéril com Lorenzo logo atrás. A Sra. Ray está olhando para Tambor com uma expressão interrogativa, como se estivesse se lembrando de alguma coisa.
— Beleza é como beleza faz e pés de milho. Tão bobo – diz ela.
O ordenança lhe dá um tapinha tranquilizador nas costas. Morgan ri. Lorenzo e eu trocamos um olhar.
Sei o que ele está pensando: uma cidade inteira, um país, um continente assim. Uma torre de Babel moderna, só que, em vez de causada por uma divindade invisível, a confusão será provocada pelas mãos de um homem bem visível, que gosta de aparecer na televisão e que sentiu o gosto do poder que vem de milhões de seguidores cegos, só que ainda anseia por mais. Um homem que não tem ideia do inferno cujas portas está para abrir.
O reverendo Carl Corbin deve ser louco, realmente louco. Será que ele pensou no resultado inevitável? Será que percebe o tumulto que sua trama vai causar não somente na Europa, mas em toda parte? Cadeias de suprimentos destruídas. Bancos e bolsas de valores destruídos. O mesmo transporte de massa, na verdade qualquer tipo de transporte, além de tráfego a pé e um ou outro cavalo. Fábricas destruídas. Em semanas, a maior parte da população do mundo morrerá de fome, desidratação ou violência. Os que restarem estarão ganhando a vida numa deturpada existência no estilo de Os Pioneiros, construída a partir do zero, um monte de feno e um silo de milho de cada vez.
Mas talvez seja isso que ele queira. Talvez Carl Corbin e seus seguidores Puros não sejam tão insanos assim. Certamente não são insanos demais para manipular o presidente Myers como uma marionete.
— Estamos prontos, Jean – diz Lorenzo, estendendo a seringa. – Faça as honras.
Pego-a, inspeciono o líquido procurando alguma bolha de ar – uma substância tão necessária, a não ser que entre na circulação cerebral da Sra. Ray – e tiro a tampinha plástica.
Morgan umedece os lábios enquanto eu insiro a agulha no cateter, prendendo o fôlego, e aperto o êmbolo com firmeza.
— A senhora vai ficar bem.
A sala virou uma sauna, quente e abafada, o ar pesado.
Ao meu lado Lorenzo liga um cronômetro e nós esperamos, todos os olhares fixos na mulher na cadeira de rodas.
Parecem horas, mas fico sabendo que só se passaram dez minutos quando Delilah Ray verifica o cateter, esfrega um ponto no lado esquerdo da cabeça grisalha e se vira para a caixa de acrílico onde Tambor está.
— Que coelho lindo – diz. – Um coelho-da-flórida. Eu tinha um viveiro cheio deles quando era pequena.
A sala se ilumina feito os trópicos depois de uma monção.