Vox
Setenta e Sete
Neste último dia os fatos se sucedem assim: Patrick dá um beijo de despedida, primeiro nos gêmeos, depois em Sonia, em seguida em mim e finalmente em Steven. Dedica uma atenção especial a Steven. Acho que a gente nunca se esquece do primogênito. Não os ama mais do que os outros, porém o elo é diferente, primal. Enquanto ele se afasta de carro com o frasco do soro escondido na pasta, fico feliz porque não temos mais um cachorro. Já tivemos, uma mistura idiota de collie, beagle e pastor, que ficava sentado triste no capacho desde o momento em que Patrick saía de manhã até voltar para casa ao pôr do sol. Acho que eu não aguentaria olhar aquele cachorro esperando.
Já é suficientemente ruim para mim.
Depois de o carro dele desaparecer, as luzes traseiras brilhando antes da alvorada, passa na minha cabeça uma invenção, um vídeo enquanto as crianças brigam pelo último brownie que Sharon oferece, enquanto Sonia diz aos irmãos, com toda a certeza, que sabe que eles estão trapaceando no jogo, enquanto a caneca de Patrick com café pela metade jaz na bancada de pessoas estranhas, o líquido evaporando e se condensando numa borra marrom e grossa. Ainda tem cheiro de merda, esse café americano, mas ainda assim saboreio.
— Só vou me deitar um minuto – aviso a Sharon, que está fazendo o café da manhã para uma dúzia de pessoas famintas.
Ela sinaliza para mim com uma compreensão sombria demais, dizendo para eu usar seu quarto, se quiser.
Vou com o resto do meu café para um lugar desconhecido com persianas ainda fechadas e um ventilador de teto zumbindo, monótono.
Visualizo Patrick diminuindo a velocidade e parando junto ao portão da segurança, estendendo seu cartão de identificação para o agente do serviço secreto, um homem que usa um pequeno fone branco no ouvido em vez de um distintivo com SS bordado no braço. Patrick estaciona, e eu penso que ele olha para o céu, talvez na direção daquele lugar no leste onde o sol desafia a escuridão.
A reunião acontece durante o café da manhã, mas para Patrick deve ser como a Última Ceia, e ele é o Judas do grupo, passando uma taça envenenada.
Esse era o plano, colocar na água. Ou no café. Ou no champanhe que será aberto e servido em delicadas flûtes de cristal para doze convidados ilustres bebericarem enquanto se parabenizam.
Um é o presidente Myers. Outro é Bobby Myers, milagrosamente recuperado de sua jornada de seis dias na terra da afasia. Nunca saberei se o dano cerebral era verdadeiro ou inventado, mas, se tivesse de apostar, sei onde colocaria as fichas. Há o reverendo Carl e Thomas, o Intimidador. Seis membros do Estado-Maior Conjunto estão presentes, além do procurador-geral e do presidente da Suprema Corte, ambos notórios seguidores do Movimento Puro.
Patrick é o número treze. O Judas Iscariotes do Salão Oval.
Enquanto estou deitada na cama, entorpecida pelo giro do ventilador de teto, essas coincidências religiosas parecem engraçadas. Água, vinho, treze homens. O reverendo Carl e sua insanidade. Dizem que Cristo era uma de três coisas: maluco, mentiroso ou mestre. Louco, mau ou Deus. Não posso acreditar que Carl Corbin seja um deus – nem se acreditasse em entidades divinas. Os deuses podem jogar dados ou não, mas certamente não os enchem com venenos que alteram a mente.
Meu café esfriou, mas bebo mesmo assim.
Na noite de domingo – foi apenas doze horas atrás? –, Patrick decidiu que primeiro colocaria o soro na água e no café. Depois, o que restasse no frasco deixaria de lado para si mesmo, caso houvesse necessidade. Estremeço ao pensar nessa saída, a fuga de Judas, mas Poe me diz que Patrick insistiu. Um grande número de planos bem-feitos dá errado.
É só isso que posso visualizar. Talvez minha imaginação não esteja à altura da tarefa. Talvez esteja mais do que à altura, vívida como tecnicolor e extremamente focada. Afinal de contas, quem quer devanear sobre a morte do marido?
Olho o relógio no criado-mudo de Sharon. Os ponteiros dizem que está na hora.