Vox
Quarenta e Dois
Poe, cujo trabalho parece abarcar tudo, desde oficial de segurança até babá e acompanhante de escritório, está esperando do lado de fora da sala de Morgan para me levar de volta ao laboratório. Eu o acompanho pelo corredor de generais, almirantes e doutores, seguindo pelo carpete azul até os elevadores. Na cabine, ele usa de novo seu cartão-chave.
Não precisei do crachá para acessar o nível do laboratório, então essa deve ser a única saída do quinto andar. Claro que é, penso. Eles devem querer saber quem está saindo, e a que horas.
Ou querem impedir qualquer pessoa de sair.
Na descida, penso no fichário que vi na sala do Morgan. No total, minhas pastas junto com as de Lorenzo e as de Lin encheriam vários fichários. Tínhamos material de referência, estatísticas, projetos experimentais, pedidos de verba, relatórios de progresso – toda a parafernália acadêmica. Os documentos do Conselho de Revisão Institucional lotariam sozinhos um armário: toda a papelada, o material de divulgação, os formulários de consentimento dos participantes que recolhemos para garantir à universidade que não causaríamos outro escândalo, como aconteceu com os experimentos de sífilis em Tuskegee com pessoas que nem sabiam que eram cobaias.
Não haveria um único fichário do “Projeto Wernicke”; haveria uma centena, abrigando anos de pesquisas.
Mas Morgan tinha apenas um, e não estava rotulado com um número indicando sua posição numa sequência.
Além disso, a lombada estava gasta. Evidentemente o fichário de Morgan era bem usado.
Penso nisso enquanto o elevador começa a descer e Poe permanece quieto atrás de mim, ligeiramente à esquerda. É tão silencioso que parece não respirar.
Em primeiro lugar, existem três equipes: Branca, Dourada e Vermelha. Isso eu fiquei sabendo ao espionar o escritório de Patrick ontem à noite. Agora os lapsos de Poe sobre nossa equipe e os outros aparelhos de ressonância fazem sentido: outras equipes significam outros laboratórios. Outros laboratórios significam outros projetos.
Em segundo, nosso equipamento não foi instalado três dias atrás. De jeito nenhum. Esse projeto – por maior que seja, e o que quer que ele abarque – está sendo montado há meses.
Em terceiro, o fichário de Morgan tem a lombada gasta.
Vejo meu reflexo no aço polido das paredes do elevador e percebo que estive falando sozinha. Poe também está no reflexo, fazendo com que eu pareça uma anã. Ele tem um levíssimo sorriso no rosto, uma lasca de sorriso, e penso nos dentes afiados que devem estar por trás. Suficientemente afiados para me estraçalhar sem fazer nenhum ruído.
— Chegamos.
A voz me choca. Seu eco, frio e baixo, reverbera nas paredes do elevador. Forço mentalmente a porta a se abrir, e depois de alguns segundos intermináveis é o que elas fazem, dando para o corredor branco do andar do laboratório. Meu cartão-chave ainda está dentro da bolsa, enterrado embaixo do batom, da carteira e de todas as outras bostas que meus dedos acham primeiro.
Lorenzo, penso. Preciso encontrar Lorenzo.
O salto do meu sapato fica preso no vão entre o piso e o elevador; saltos altos são coisas idiotas. Jackie sempre disse que eles eram tão sinistros quanto o antigo costume chinês de atar os pés para não crescerem. Porra de saltos altos. Criados por algum escroto para atrapalhar as mulheres, fazer com que elas andem dois passos atrás dele, dizia ela, girando o pé calçado com sandália, sentada num sofá. Mas nesse momento não estou andando para lugar nenhum; estou caída de cara no chão, metade no elevador, metade no corredor. Mais do que atrapalhada.
De cara no chão, vejo a porta fechada do laboratório a apenas 3 metros de distância e me levanto com dificuldade. Uma mão fria, pesada como um gancho de frigorífico, segura meu braço.
— Estou bem – falo, rouca. Ou acho que estou.
— Cuidado, Dra. McClellan – diz a voz pertencente ao gancho.
Agora estou de pé segurando o crachá, correndo para a porta principal do laboratório, com passos às minhas costas. Poe não está tão silencioso quanto antes. Passo o cartão na fenda; nada acontece.
Há um riso atrás de mim, um riso suave que me faz dar um pulo e largar o cartão.
E aquela mão de novo, os dedos compridos se cravando no meu ombro, virando-me.
— Você está bem, Gianna?
Mergulho o rosto no peito de Lorenzo. Atrás dele o corredor está vazio. Poe sumiu.