Vox
Cinquenta e Dois
E se for uma menina?
Fico deitada de lado, um dedo acompanhando o emblema dourado na frente do meu passaporte, esse presente que custou uma fortuna a Lorenzo, meu bilhete de saída deste inferno. Nosso bilhete para fora daqui, penso, mantendo a outra mão sobre a barriga. Apenas uma hora atrás eu estava pensando em Styron, e agora aqui estou, uma terrível escolha de Sofia pairando no espaço acima de nós.
Qual? Qual eu salvo?
— Até quando preciso pensar? – pergunto, na escuridão do nosso quarto.
Nós dois sabemos que não tenho muito tempo, pelo menos até organizarmos o primeiro teste na segunda-feira.
— Poderíamos empacar o projeto – digo. – Ganhar algumas semanas.
— Isso bastaria?
— Não.
De repente estou pensando numa praia de mais de vinte anos atrás, não uma praia chique, não Cancún, Bermuda nem nada assim – Jackie e eu mal podíamos juntar dinheiro para duas noites num motel vagabundo sem vista para o mar. Mas íamos todo verão a Rehoboth, em Delaware, tomar cerveja, pegar sol e escapar da loucura da faculdade durante alguns dias. Na última vez que fomos, eu disse a ela que tinha juntado um pouco de dinheiro. Podíamos ficar mais um dia, talvez dois.
— Isso bastaria? – perguntou Jackie, tomando uma Corona que ela havia pegado no cooler e na qual havia enfiado uma fatia de lima.
— Não – respondi, gargalhando.
— Tudo acaba, Jeanie. Cedo ou tarde. Você sabe que não pode ficar na bolha das férias para sempre.
Não lembro se ficamos o dia extra naquele quarto de motel ou se voltamos na manhã seguinte. O que me lembro é de pensar, assim que colocamos as bolsas de praia e as malas cheias de biquínis e bronzeadores no nosso apartamento, que realmente não importava. Cedo ou tarde estaríamos no nosso pardieiro em Georgetown, tirando da geladeira sobras de comida transformadas em experiências científicas, verificando a correspondência empilhada, perdendo o bronzeado e voltando para o moedor de carne acadêmico.
De novo, Jackie estava certa. Cedo ou tarde tudo acaba.
— Fiquei pensando… – digo a Lorenzo. – Quando o reverendo Carl me ofereceu pela primeira vez o trabalho, achei que ele tinha inventado a história sobre o irmão do presidente. Lembro de ter ficado parada na cozinha, imaginando se ele pegaria meu trabalho e faria engenharia reversa.
Tombo de volta no travesseiro desejando que ele me engolisse inteira.
— A culpa não é sua.
Mas é. E minha culpa não começou quando assinei o contrato de Morgan na quinta-feira. Minha culpa começou há duas décadas, na primeira vez em que não votei, nas vezes incontáveis em que disse a Jackie que estava ocupada demais para ir a uma das suas passeatas, fazer cartazes ou ligar para meus congressistas.
— Diga que não preciso sair desta cama. Nunca mais.
Lorenzo olha seu relógio.
— Os ratos ainda têm duas horas. Vamos demorar 24 minutos para voltar ao laboratório.
— Uma hora. Pelo menos para mim. Lembre-se, não sou Mario Andretti, não sou nenhum piloto de Fórmula 1.
— Então temos uma hora.
Falo que não posso, mas faço. E dessa vez não estou em silêncio. Grito com meu corpo e minha voz, as unhas se cravando nas roupas de cama ou na pele de Lorenzo. Mordo, gemo e arranho como um felino selvagem com anfetamina, liberando todo o estresse, todo o medo e todo o ódio, derramando-o para dentro dele. Ele absorve cada gota, depois devolve um pouco, puxando meu cabelo, mordiscando meus lábios e meus seios, me atacando com beijos. É violento, mas ainda assim é amor, um grito duplo, de nós dois para o resto do mundo e para todos os pecados do mundo.