Vox

Christina Dalcher · Capítulo 33 de 80

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Trinta e Três

 

– Alguma notícia interessante? – pergunta Patrick quando volto à cozinha.

Sempre fui péssima em guardar segredos. A menor sugestão de mentira força meus lábios a se curvar, então meus olhos entregam o jogo. Só uma vez tentei fazer uma festa surpresa para Patrick – quando ele completou trinta anos, acho –, combinando com sua secretária da época e alguns caras do trabalho. Quando o dia finalmente chegou, Patrick pareceu atônito como se uma bomba tivesse caído do céu.

Sucesso!, pensei. Na manhã seguinte, Evan King falou sobre a atuação fantástica do meu marido.

— Vi nos seus olhos, amor – disse Patrick. – Ainda bem que não é você que cuida da segurança.

Bom, foi o fim das festas surpresa.

Ele ergue os olhos do fogão.

— Boas notícias?

— O quê?

— As notícias foram boas? Dos seus pais?

Sinto o peso do terror deslizar por mim e formar uma poça nos ladrilhos da cozinha.

— Ah, acho que sim. Meu pai vendeu uma loja para uma rede. Então acho que a notícia é boa.

— Está na hora de o velho se aposentar. Aqui. Prove isto e veja se falta alguma coisa.

Ele pega uma colherada dos legumes que estava refogando.

— Perfeito – digo, ainda que o gosto não esteja bom.

Nada tem cheiro bom neste momento. O vinho tinto que Patrick serve fede a óleo rançoso; a carne, que acho que é frango mas que para mim pode ser fígado de cabrito, enche a cozinha e a sala de jantar com um fedor infernal. Eu deveria estar morrendo de fome, mas não estou.

— Steven ainda não voltou? Ah, por falar no diabo…

Meu filho entra, batendo a porta. Sonia e os gêmeos se animam. Patrick e eu estamos prestes a dizer “Olá”, mas Steven passa por nós, pela geladeira, e vai direto para o quarto. Seu rosto está ruborizado, manchas vermelhas nas bochechas e no pescoço. De algum modo ele parece ter 37 anos, em vez de 17, parece carregar o peso do mundo nas costas.

Aí está o grande fardo de ser pai ou mãe, na forma de um adolescente carrancudo.

— Vou falar com ele. – Preciso de uma folga dos odores de comida antes que meus nervos olfativos decidam se rebelar. – Peça para Sonia contar sobre o jogo de cartas.

A música de Steven faz meu corpo vibrar enquanto ando pelo corredor até a porta do quarto dele. Bato uma vez; não há resposta. Na segunda batida Steven resmunga um entediado “Entra”.

— Tudo bem, filho? – pergunto, enfiando o nariz pela fresta da porta.

O que quer que ele estava ouvindo é reduzido até um débil ruído de fundo.

— Tudo.

— Tudo bem na escola?

— Tudo.

— E Julia?

— Bem.

— Vem jantar? Já está quase pronto.

— Daqui a pouco.

Eu me viro para ir embora, e ele interrompe o encadeamento de palavras curtas: – Mãe? Se alguém que você conhece, talvez alguém que você ame de verdade, fizesse uma merda, você deduraria?

Preciso pensar na pergunta.

Antigamente eu teria dito que sim. Se vir alguém a cem por hora numa área escolar, anote a placa. Se vir um pai bater no filho no Walmart, ligue para a polícia. Se testemunhar um roubo na casa vizinha, denuncie. Para cada ação há uma reação oposta e adequada. Só que isso não é verdade, não mais. As reações podem ser opostas, mas sem dúvida não são adequadas. Eu sabia sobre Annie Wilson e seu amante da picape azul. Sei que Lin Kwan, que agora mora com o irmão, prefere a companhia de outras mulheres. Também sei que se eu – nas palavras de Steven – tivesse dedurado Annie, sentiria uma tremenda dificuldade para me encarar no espelho todo dia de manhã. A ideia de bancar a informante contra Lin é execrável, independentemente do que o reverendo Carl e o resto dos Puros tenham a dizer sobre isso.

— Depende. Por quê?

— Por nada. – Steven se levanta da cama. – Acho que vou tomar banho.

Enquanto ele passa por mim, me deixando com o zumbido da música eletrônica – uma música do tempo anterior, cuja letra provavelmente não combina com os Fundamentos da filosofia cristã moderna, a Masculinidade Pura ou a visão de mundo deturpada de Carl Corbin –, sinto o calor do nervosismo se irradiar por mim outra vez. E essa sensação comprime o ar para fora dos meus pulmões, me deixando sem fôlego.

Não é possível que Steven saiba sobre Lorenzo, digo a mim mesma. Não é possível. Nós fomos cuidadosos na última vez, nos encontramos por acaso no Eastern Market, seguimos pelo meio do trânsito em direção à nossa cabana do caranguejo em Maryland, eu espremida no piso entre os bancos da frente e o de trás. Era março, e Steven estaria na escola.

A fadiga e a preocupação me acertam como sacos de tijolos e volto pelo corredor para me juntar a Patrick na cozinha.

Ele ainda está assobiando.