Vox

Christina Dalcher · Capítulo 54 de 80

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Vox

Cinquenta e Quatro

 

Lin não apareceu hoje, informam os soldados no posto de segurança enquanto me revistam pela terceira vez.

— Não, senhora – diz um deles.

É o mesmo rapaz arrumadinho que me revistou quando eu saí. O nome acima do bolso esquerdo do peito é PETROSKI, W.

— Preciso falar com Morgan.

— Quem?

— O Dr. LeBron.

Chamá-lo de doutor traz um gosto ruim de bile à minha boca. Ele não merece o título.

O sargento Arrumadinho Petroski verifica minha bolsa, ainda que ela já tenha passado pelo raio X, e assente para seu parceiro. Depois de dois toques, Morgan atende.

— O que é? – pergunta ele.

O soldado pega meu crachá, vira-o nas mãos e lê meu nome.

— A Dra. McClellan diz que precisa ver o senhor.

— Diga a ela que estou ocupado.

Aquela voz estridente, aguda feito o guincho de um rato de laboratório, rasga o ar entre mim e o soldado. É como penso em Morgan, como um rato, uma criatura imunda e maligna, mas não muito inteligente.

— Diga a ele que vamos verificar os camundongos – peço ao soldado. – Mas primeiro quero passar as informações para ele.

De novo o guincho, desta vez com uma leve esperança: – Mande-a para cá. Com um acompanhante.

Trinta segundos depois, estou no elevador com um homem – não, um garoto – não muito mais velho do que Steven. Por alguma razão, penso em como ele devia ser quando estava na faculdade, tomando cerveja barata através de um funil, fazendo juramento para uma fraternidade estudantil, arrastando-se sonolento para a aula de cálculo de manhã cedo.

— Você fez faculdade? – pergunto.

— Sim, senhora.

— Formou-se em quê? – Estou pensando em ciência política, direito ou história.

Ele se enrijece ao meu lado, mas não se vira.

— Filosofia, senhora.

— Ensinaram você a disparar uma dessas na aula de Epistemologia 1? – pergunto, indicando a pistola em seu quadril.

Espero que ele se feche e diga que não é da minha conta. Circulando, senhora. Não há nada para ver aqui.

Mas não. Em vez disso, seu lábio inferior treme ligeiramente e eu vejo o menino dentro do uniforme elegante de sargento Petroski.

— Não, senhora.

O velho ditado diz Mantenha o lábio superior rígido, significando que a pessoa deve se manter impassível. Mas, olhando seu reflexo nas paredes de aço do elevador, penso que não é com o lábio superior que precisamos nos preocupar. O de baixo revela nosso terror. Todas as vezes.

Decido não torturá-lo com mais perguntas. Afinal de contas, Petroski é apenas um garoto, um menino que pegou a curva errada em algum lugar da estrada da vida, não muito diferente de Steven. Ainda que, depois de um breve desvio, Steven tenha voltado ao caminho certo. Talvez este também volte.

— Ainda há tempo – digo, sem saber realmente se estou falando com o jovem soldado ou comigo mesma.

A porta dupla do elevador desliza ao mesmo tempo que uma voz mecânica – feminina, por acaso – diz “Quinto andar”, e o jovem Petroski se vira ligeiramente, estendendo o braço, sinalizando para eu sair. É tão rápido que quase não percebo as três piscadelas.

Pisque uma vez para sim, duas para não.

Ou três vezes para Não Puro.

Pisco para ele, um gesto que as câmeras podem captar ou não, mas, se captarem, posso inventar alguma coisa. Um inseto no olho, um cílio solto, tensão.

— Vamos.

Na tarde de sábado, o corredor do quinto andar deveria ser uma cidade fantasma, todos aqueles generais e almirantes longe, jogando golfe, tênis ou War em seus porões. Mas todas as portas das salas estão abertas, e atrás de cada uma há um homem a uma mesa, ocupado e concentrado.

A terceira porta à minha direita, depois de sairmos do elevador, tem uma placa de latão onde está escrito WINTERS, J. Dentro, o homem atrás da mesa levanta os olhos, faz uma carranca e volta a ler. É o mesmo que vi ontem à tarde, e o mesmo nome que li na lista da equipe dourada ontem à noite.

— Cá estamos – diz o sargento Petroski.

Ele bate à porta fechada de Morgan, três batidas militares, nítidas.

— Entre.

Petroski gira num calcanhar engraxado.

— Boa sorte, senhora. Quer dizer, com o projeto. Eu a levo para baixo quando estiver pronta.

Morgan se levanta quando entro, me oferece uma cadeira e aperta um botão no telefone da mesa.

— Andy, café para dois. – Ele me olha. – Leite? Açúcar?

— Puro – respondo, retribui o sorriso.

Se ele está se sentindo magnânimo, por que não entrar na festa, mesmo que seus olhos me lembrem um pouco dos ratos de laboratório nos quais Lorenzo aplicou as injeções hoje cedo?

Ele repassa a ordem para Andy, seu assistente, e se acomoda na cadeira atrás da mesa, a cadeira cujo assento ele levantou ao máximo para parecer maior. Penso que deve ser doloroso ficar sentado assim, sem os pés tocarem o chão.

— E então, algum progresso?

Olho o relógio acima da cabeça de Morgan.

— Vamos saber dentro de trinta minutos. Cadê a Lin?

A mudança brusca o deixa lento, como se alguém tivesse acabado de lhe oferecer sorvete e depois pedido para optar entre anchova e atum. Enquanto ele processa o que eu disse, os cantos de sua boca se curvam, primeiro para baixo, depois ficam retos, e em seguida sobem de novo.

— Fantástico. Acha que estaremos prontos para testar amanhã?

— Nossa primeira paciente está marcada para segunda-feira.

— Mude para amanhã – diz ele, então acrescenta: – Se você puder, Jean. Só se você puder.

Aproveito a deixa para bancar a boazinha. Ele quer alguma coisa; eu quero uma coisa.

— Sem dúvida.

Agora Morgan relaxa e Andy bate de leve à porta antes de entrar com uma bandeja.

— Deixe que eu sirvo – digo inclinando a jarra sobre duas canecas brancas com um emblema do P azul. – Escute, desculpe ter gritado com você mais cedo.

— Todos estamos passando por um enorme estresse, Jean. Paz.

Claro. Paz. Quase lembro a Morgan que a palavra “paz” e a palavra “submissão” são praticamente idênticas em algumas línguas, mas não há sentido em confundi-lo. Preciso demais do sacana.

— Preciso pedir um favorzinho. Minha mãe teve um rompimento de aneurisma. Hemisfério esquerdo. Área de Wernicke.

Os olhos de Morgan se estreitam, mas ele não fala nada.

É difícil dizer se esses olhos revelam preocupação, simpatia ou desconfiança, por isso vou em frente, tateando o caminho, um passo de cada vez.

— Eu estava pensando, já que estamos começando os testes clínicos de qualquer modo, será que poderíamos colocá-la na lista de pacientes?

— Claro que podemos. Traga-a amanhã e pode prepará-la.

— Bom, isso vai ser difícil. Ela está na Itália.

Ele se recosta, um cotovelo em cada braço da poltrona, como se tentasse ocupar o máximo de espaço possível.

— Itália – repete.

— É. Você sabe, a terra da pizza e do café maravilhoso.

Diferente da bosta que Andy trouxe, penso.

— Tenho um problema com isso, Jean. As relações entre nós e a Europa estão… – ele procura uma palavra – … ruins.

É a cara do Morgan. De todos os termos que ele poderia escolher – “tênues”, “tensas”, “problemáticas”, “adversas”, “hostis”, “desfavoráveis” –, Morgan escolhe “ruins”.

Ele continua, os olhos se movendo ligeiramente para cima e para a esquerda, sinal claro de que está criando uma mentira ou se contendo, mas não creio que Morgan tenha noção desse tique subconsciente; a maioria dos mentirosos não tem.

— Você entende, não é, Jean? Quer dizer, não podemos simplesmente mandar um produto valioso assim para a Europa. Não com o clima atual.

Meu café fica mais amargo a cada gole.

— E se você me mandar? Eu poderia administrar o soro e…

— Rá! – A sílaba é mais um latido do que uma palavra. – Você conhece as regras para viagens – diz ele, suavizando a voz, mas só um pouquinho. – De jeito nenhum.

Como eu poderia ter esquecido?

— Certo, então. Lorenzo. Ele pode viajar.

Morgan balança a cabeça, como se fosse explicar um complexo problema de matemática a uma criança, um conceito tão fora da minha capacidade de entender que ele acha que seria inútil dividi-lo em partes.

— Ele é italiano, Jean. Cidadão europeu.

— Ele é um de nós.

— Na verdade, não.

— Então é isso?

Ele começa a folhear papéis em sua mesa, o clássico gesto de Morgan para dizer “nossa reunião terminou”.

— Desculpe, Jean. Me ligue quando os ratos estiverem prontos, está bem?

— Claro. – Eu me viro para sair da sala. – Por sinal, cadê a Lin?

— Não faço ideia – responde ele, e seus olhos se movem para cima e para a esquerda.