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Christina Dalcher · Capítulo 39 de 80

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Trinta e Nove

 

É oficial: estou grávida.

O ginecologista que substituiu a Dra. Claudia na clínica diz que estou com mais ou menos dez semanas. A gente nunca sabe de verdade quando a concepção acontece, comenta ele antes de me entregar um envelope lacrado, endereçado a Patrick. Contém a data da minha próxima consulta, alguns textos informativos, um calendário de etapas e outras informações que eu posso considerar útil. É isso que ele me diz.

Minhas palavras jorram feito um gêiser: – E se houver alguma complicação? Dor inesperada? E se eu precisar descrever sintomas?

Só consigo pensar no que vai acontecer quando o contador voltar a ser colocado.

O que não falo é: E se eu não quiser esse bebê? Já sei a resposta.

O Dr. Mendoza espera que eu termine, com o olhar calmo, a boca curvada ligeiramente para baixo. Não sei se essa minha explosão o irrita ou provoca simpatia.

— Sra. McClellan… – começa ele.

Não diz “Dra.”, nem “professora”.

— A senhora é uma mulher saudável e nós captamos um batimento cardíaco forte, regular. Está em idade avançada para ser mãe, o que me preocuparia se fosse sua primeira gravidez. Mas não é. A senhora não tem com que se preocupar. Confio que irá até o final e, vejamos… – ele faz uma pausa, gira alguns mostradores naquela rodinha que os médicos usam, mesmo tendo computadores para fazer o serviço – dará à luz um bebê saudável mais ou menos em 20 de dezembro deste ano. Um belo presente de Natal.

Não quero um bebê saudável mais ou menos em 20 de dezembro deste ano. Não quero um bebê. Especialmente se for menina.

— O Sr. McClellan terá todas as informações. – Ele dá um tapinha no envelope. – Ele estará atento aos sinais de problema: perda de apetite, alterações no tom da pele ou no peso, e assim por diante. E vamos monitorar seu progresso regularmente. Se a senhora quiser, posso marcar uma coleta de amostragem de vilosidades coriônicas para o início da semana que vem. Então a senhora ficará sabendo qual é o sexo do bebê. – O médico consulta um horário em seu iPad. – Que tal segunda-feira de tarde?

Eu assinto. Segunda-feira, quarta-feira, mês que vem, 20 de dezembro. É melhor descobrir logo.

Agora ele dá um tapinha no meu joelho. Um tapinha paternal. O tipo que você concede a um cachorro bem-comportado. Eu gostaria de erguer meu pé e acertar sua genitália. Poderia dizer que foi um reflexo involuntário, um espasmo.

— Certo. Combinado. Parabéns, Sra. McClellan.

Ele sai e eu visto rapidamente a calcinha, a calça jeans, a blusa. O cheiro de látex e desinfetante nesta sala ficou insuportável. Minha vagina está escorregadia com gel lubrificante ou sei lá o que eles usam para o ultrassom, porque não me demoro limpando. Não consigo respirar aqui. Não consigo respirar.

Volto para casa pelo caminho mais longo, parando numa loja de conveniência para pegar um maço de Camels. Eu poderia fumar até expulsá-lo, penso, envenenar o pequeno palácio, praticar teratologia básica na privacidade do meu lar. Aborto no velho estilo. Mas aborto não é uma opção.

Não é só por causa do reverendo Carl e seu bando de fanáticos. Eles precisam impor limites na escolha por outros motivos, mais pragmáticos. Do modo como as coisas estão, como as mulheres são, ninguém desejaria uma menina. Nenhum pai ou mãe quer escolher a cor de um contador de pulso para uma criança de três meses. Eu não quero.

Dentro de três dias saberei se vou precisar.