Vox
Cinquenta e Três
Nós nos damos quinze minutos para tomar banho e decidir o que fazer.
— Há outro laboratório – digo, deixando a água quente do chuveiro cair com força na pele, ardendo quando bate num arranhão. Olho para baixo e percebo que estou um horror. – Ah, meu Deus.
— Seu rosto está ótimo. Na verdade, está perfeito – afirma Lorenzo, passando espuma no meu cabelo. – E você está certa: tem que haver outro laboratório. Mas não vamos entrar nele.
— Precisamos entrar.
Ele se enxágua e me deixa cuidando do ninho de rato em que meu cabelo se transformou. Dois minutos depois, volta ao banheiro apertado, apoiando o quadril na pia enquanto fala: – Escute, Gianna. Mesmo que encontrássemos o outro laboratório, e daí? Vamos pôr fogo? Seríamos apanhados. Roubar os suprimentos deles? Claro, e se não fôssemos pegos por aqueles seguranças sinistros com uma braçada de frascos, o que aconteceria depois? É o governo, querida. É uma máquina. Eles só iriam recomeçar. No ano que vem, você e Lin estariam tirando tripas de peixe de baixo das unhas. – Lorenzo faz uma pausa e diz: – Se você ficar.
Reflito sobre isso. Ele está certo.
— Então não fazemos nada? – Saio de baixo do chuveiro e começo a me enxugar. – Absolutamente nada?
— Não. Vamos fazer uma coisa. Dar o fora daqui.
— Eu tenho filhos, Enzo. Quatro. Mesmo se pudesse deixar Patrick…
Ele me olha de cima a baixo, se detendo no volume da barriga.
— Bom, eu também tenho um. Posso opinar?
— Você poderia levá-lo, levá-la, o que for. Você poderia levá-la embora.
Mas sei que isso é impossível. Quando este bebê nascer, quem sabe que novas determinações estarão sendo cumpridas?
— Nós dois sabemos que isso não vai acontecer – diz ele, sério, decidido. – É agora ou nunca, Gianna.
— Não. É na semana que vem ou nunca. Vou fazer um exame na segunda-feira e o resultado deve sair no meio da semana.
— E…?
E aqui, na Cabana do Caranguejo, que cheira a suor, sêmen e amor, tomo uma decisão.
— Se for menina, eu vou com você. Quando você quiser.
Ele espera, observando enquanto me visto e penteio o cabelo. Espera uma eternidade antes de falar. Depois me puxa para perto, sussurrando no meu ouvido: – Está bem, Gianna. Está bem.
Sua voz sai forte, mas sei que ele está rezando, para um deus em que nenhum de nós acredita, para que a análise genética volte com um X duplo. Uma menininha.
— Venha. Precisamos voltar. Eu vou primeiro.
Agora o ar está mais fresco, e as poucas casas de veraneio lançam sombras onde não havia nenhuma quando cheguei. Abro a porta do Honda, entro e penso: vou rezar para que seja o quê, um menino ou uma menina? Ficar ou ir embora. Ver Sonia ser tirada de mim ou, num cenário um pouquinho mais agradável, ver algum enfermeiro uniformizado, seguindo ordens, injetar nela uma mistura que vai tirar todas as palavras dela para sempre. Não creio que eu suportaria nenhuma das duas opções.
Rezo a um deus em que não acredito para que seja uma menina, para não ter que testemunhar nada disso. E rezo a esse mesmo deus para que seja um menino, para nunca ter que deixar minha Sonia.