Vox
Trinta e Quatro
As sirenes me acordam. São como animais gritando no silêncio da noite, ficando cada vez mais altas até parecer que estão na janela do meu quarto. Luzes vermelhas e azuis piscam através das persianas e sei que não estou sonhando.
— Que porra é essa? – pergunta Patrick, rolando uma vez, depois duas, em seguida apertando um travesseiro contra a cabeça.
Ele não se demora muito na caverna; a realidade penetra, empurrando a cortina do sono, e ele acorda.
Só consigo pensar na conversa que tive com Lin na nossa sala hoje de manhã. Ainda tem uma quedinha pelo nosso colega italiano?… Tenha cuidado, querida. Você tem muito mais a perder do que sua voz.
E há Steven, com a pergunta enigmática ressoando nos meus ouvidos agora.
— Ah, meu Deus – digo, e vou até a janela.
Pelo que dá para ver, são dois carros e um veículo maior, quadradão como uma ambulância, mas não é branco. Um terceiro veículo para atrás do furgão, bloqueando nossa garagem.
Impedindo qualquer automóvel de entrar. Ou sair.
As palavras que digo em seguida raspam o ar, pouco acima de um sussurro áspero. Nada dentro de mim está funcionando, nem os joelhos, que viraram geleia, nem minha voz, nem meu estômago. Onda após onda de náusea me assola enquanto observo as cores vibrantes riscando a rua na frente da nossa casa.
Estou esperando que a campainha toque, um acontecimento tão comum que antigamente eu esperava com prazer. Campainhas significam visitas nos feriados; pacotes que eu estava esperando; duplas de rapazes mórmons, que, apesar de minha resistência a qualquer tipo de conversão, de algum modo sempre pareciam agradáveis e muito limpos. Campainhas significavam crianças pedindo doces, vestidas de fantasmas, goblins, das princesas ou dos super-heróis do mês.
— Deixe que eu vou – diz Patrick.
Espero o toque da campainha e penso em Poe com sua cicatriz, sua postura de ex-membro das Forças Especiais e seu silêncio fantasmagórico. Esta noite a campainha não será como sinos de prata ou ouro para mim, mas sim de ferro.
Ah, porra.
Agora os vejo entrando, uniformizados e armados com cassetetes pretos, andando sobre o piso de madeira reluzente da minha casa, deixando arranhões. Vejo Thomas, o reverendo Carl e outros homens, um carregando uma caixinha com um contador ajustado no zero, que vai se fechar no meu pulso como uma algema de ferro. Vejo as câmeras de televisão e os repórteres, todos espocando flashes e se esforçando para vislumbrar a ex-médica Jean McClellan, agora destinada a uma vida de silêncio e trabalho nos campos de Iowa, nos viveiros de peixes do Maine, nas fábricas de tecido do Alabama. Depois de ser humilhada em público, claro.
Steven, penso. O que você fez?
Eles não irão atrás do Lorenzo. Disso eu sei. A insensatez dos homens sempre foi tolerada.
Sonia entra correndo no meu quarto, os olhos brilhando. Os passos dos meninos vão na outra direção, para a parte principal da casa, para onde Patrick foi.
— Tudo bem, menininha – digo, pegando Sonia no colo. – Tudo bem.
Mas não está bem. Nada está bem enquanto fico aqui sentada, encostada na cabeceira da cama, balançando minha filha, esperando a campainha soar o toque inevitável do Juízo Final.