Vox
Quarenta e Nove
Se eu tivesse passado os últimos cinco minutos em casa olhando pela janela da frente em vez de desembaraçando o cabelo, talvez visse o utilitário preto parado do outro lado da rua, o motor ligado e soltando fumaça pelo escapamento.
Mas não fiz isso. Quando saio pela porta lateral e ligo meu carro, é tarde demais.
Del, o carteiro, já está subindo os degraus da varanda com a bolsa do correio pendurada no ombro, a chave da nossa caixa de correspondência numa das mãos. Ele acena para mim, e eu aceno de volta pelo vidro de trás do Honda.
A percepção me acerta como um maremoto: chaves, um envelope, Del espiando dentro da minha caixa de correspondência ontem e tirando um único item, Sharon me alertando sobre uma organização clandestina que usa um carteiro como mensageiro. E finalmente as palavras de Patrick ontem à noite, depois de me contar o que Olivia tinha feito consigo mesma, no quarto dela, com o gravador repetindo sem parar a interminável sequência de suas próprias palavras.
Nós estamos fazendo tudo que podemos.
Quando os pontos se ligam, fico com uma explicação terrível, assustadora e que ao mesmo tempo é um alívio: Patrick não trabalha para o governo. Trabalha contra ele.
Recuo até a metade da entrada de veículos, parando quando estou alinhada com a varanda. Del abre a caixa de correio, com o cuidado para bloquear a visão da rua e da câmera da varanda. Quero gritar para ele: Pare! Pare! Não abra!
Ele tira o envelope pardo, segurando-o próximo ao corpo e escondendo em sua bolsa do correio antes de trancar a caixa. Ele não vai escutar os passos silenciosos de Poe atrás, vindo pela entrada, subindo os degraus da varanda. Não vai escutar o estalo e o zumbido da arma de choque na mão direita enorme de Poe, nem o estalo quando ela se comprimir contra suas costelas, dando dois choques – primeiro na mente, depois no corpo.
Poe se vira para mim e sinaliza para eu continuar saindo com o carro, como se dissesse: Circulando. Não há nada para ver aqui.
E agora mais dois homens sobem correndo até a casa, vindos do automóvel preto do outro lado da rua. Levantam Del pelas axilas, arrastando seu corpo como uma boneca de trapos pelos degraus, seguem pela entrada de veículos e vão até o carro enquanto eu espero, impotente, para ver se Poe aperta a nossa campainha e repete o show com Patrick.
Ele não faz isso; só se afasta da nossa casa, entra no banco de trás do automóvel preto perto de Del inconsciente, e espera que eu vá embora. Então o carro preto se afasta do meio-fio, seguindo meu Honda até a Connecticut Avenue, onde vira e vai para o sul. Penso em dar meia-volta e ir até a fazenda dos Ray alertar Sharon, mas afasto o pensamento. Eu seria apanhada, chegaria tarde demais ou – na melhor das hipóteses – Morgan pegaria no meu pé por não ter chegado a tempo no trabalho.
Enquanto sigo pelo tráfego matinal, absorvo os acontecimentos da manhã. Poe deve pensar que Del estava com o envelope o tempo todo, que ia entregá-lo, talvez em algum outro endereço.
Não tenho memória fotográfica, nem de longe. Mas tenho cabeça boa para textos. Numa vida anterior, ou numa vida futura em que eu tivesse acesso a livros, poderia ser uma editora decente. Não que eu consiga escrever alguma merda, mas sou capaz de processar erros. E os que estou processando enquanto serpenteio pelo tráfego a caminho de encontrar Lorenzo e Lin são os dois erros de digitação que encontrei nos pacotes vermelho e dourado.
Os erros não são as únicas coisas que estão na minha mente como hamsters girando numa roda. A simples natureza de três equipes diferentes duplicando o trabalho uma da outra não deveria receber o status de documento secreto. E minha equipe não era sigilosa ou, se era, nosso presidente a revelou numa entrevista coletiva há três dias.
Estaciono o Honda na vaga designada, entre o Mustang de Lorenzo e o espaço onde o Smart de Lin deveria estar, mas não está. Dentro do prédio, um soldado me faz passar pelo posto de segurança, depois de pegar minha bolsa e colocá-la na esteira da máquina de raios X.
— O que é isso? – pergunto.
— Novos procedimentos de segurança – responde o soldado, me observando.
Desta vez não há sorriso, nenhum Bom dia! animado, só olhos semicerrados me vigiando por baixo da aba do boné enquanto pego minha bolsa e vou na direção dos elevadores onde Morgan me espera de braços cruzados.
— Você está atrasada – diz ele.
— Eu trabalhei à noite – minto, e entro no elevador aberto.
Morgan vem atrás.
— Você não deveria levar serviço para casa, Jean. Ou se esqueceu dessa regra simples?
Eu me viro para ele, desejando que estivesse usando algo mais do que um par de sandálias, para olhar o sacana de cima a baixo. Mesmo assim, nossos olhos estão no mesmo nível.
— Não, não esqueci, Morgan. Não esqueço as coisas. Mas meu cérebro funciona, portanto, a não ser que você queira que eu o deixe trancado na porra do seu laboratório, largue do meu pé e me deixe fazer o que preciso, seu escrotinho.
— Não vou ficar aqui escutando esse tipo de coisa.
— Então saia, vá se catar, não estou nem aí. Tenho mais o que fazer.
— Vou anotar tudo isso. Vou mandar um relatório para…
— Para quem? O presidente? Ótimo. Diga a ele que vou ficar o resto do mês fora, de castigo por mau comportamento.
Aperto o botão para fechar a porta do elevador antes de sair e deixo Morgan fumegando.
— O que foi isso? – pergunta Lorenzo.
Ele está no corredor entre o elevador e o laboratório, vestido de modo casual mas elegante, com camisa polo e calça cáqui por baixo do jaleco branco.
— Odeio aquele merdinha. Cadê a Lin?
— Ainda não chegou. Acho que o laboratório é só nosso.
A malícia ilumina seus olhos enquanto ele reduz a distância entre nós.
Uma rapidinha nas bancadas de resina epóxi não faz parte da minha programação de hoje, mas precisamos conversar.
— Me mostre em que você estava trabalhando – digo, inserindo meu crachá na porta principal do laboratório.
Ratos e coelhos nos recebem com uma cacofonia de guinchos. Desejo que Lin estivesse aqui, não só porque não quero dar injeção nos animais.
O que sei precisa ser compartilhado.
Lorenzo abre a torneira do laboratório de bioquímica e começa a lavar as mãos, esfregando sabão entre os dedos, limpando uma unha de cada vez, inspecionando cada dedo.
— E então?
— As três equipes. São mais ou menos iguais, mas diferentes.
Penso nas declarações de objetivos, em como duas equipes pareciam idênticas num sentido, e outras duas, em outro. Tudo por causa de um radical: “anti”. Na ocasião, sentada com as pernas cruzadas no piso do banheiro frio, pensei que fosse um erro de digitação.
Lorenzo continua fingindo lavar as mãos, abrindo mais a torneira, inclinando-se mais para perto dela.
— O objetivo da nossa equipe é desenvolver o soro anti-Wernicke – prossigo. – A princípio, achei que o objetivo da equipe dourada era o mesmo, mas então percebi: não há nada altamente secreto no que estamos fazendo aqui. Quer dizer, na missão em que você, Lin e eu estamos trabalhando.
— Ninguém anuncia merdas secretas numa entrevista coletiva – concorda Lorenzo.
— Certo. E a pasta da equipe dourada deixou quatro letras de fora.
Ele ergue uma sobrancelha.
— Anti – sussurro. – Aquela equipe não está desenvolvendo um soro anti-Wernicke, e a equipe vermelha não está trabalhando na solubilidade de um soro anti-Wernicke em água. O “anti” também estava faltando.
— Puta que pariu – diz ele, olhando para as mãos. – Tem certeza de que não era um erro de digitação?
— Não. Não tenho certeza. Mas faz sentido. É a única coisa que explica por que os materiais são sigilosos, e por que Morgan tem uma única pasta etiquetada com “Projeto Wernicke”. Nós sempre chamamos de Anti-Wernicke ou, mais tarde, WernickeX. Assim como você não trabalharia numa cura para o câncer e chamaria seu estudo de “Projeto Câncer”.
— A não ser que você esteja desenvolvendo câncer num laboratório – completa ele. – Isso parece errado.
Conto a ele sobre Patrick e Del, a caixa de correio trancada, os homens de Poe vindo para levar Del hoje de manhã.
— Eles sabem – concluo. – Poe ou alguém sabe que há uma operação clandestina, e sabe que o grupo descobriu o que realmente está acontecendo.
Durante um longo tempo, nós nos olhamos onde a água corre, tendo o cuidado de manter a cabeça curvada na direção da pia. Não há nada a dizer, porque nós dois sabemos que nosso trabalho está passando por engenharia reversa em algum lugar deste prédio.
Não importa se o reverendo Carl está por trás, ou Morgan, o presidente ou o Movimento Puro. Podem ser todos eles, todos trabalhando para criar um soro que não cura, mas que provoca a afasia.