Vox
Setenta
Enquanto Lorenzo está oito andares abaixo sedando a chimpanzé número 4-azarado-13 e arrumando o equipamento necessário, estou sentada numa cama estreita, totalmente vestida, digerindo um sanduíche rançoso do refeitório e o capítulo 7 do texto de neuroanatomia dos primatas, também conhecido como mapas detalhados do cérebro do nosso parente mais próximo, o chimpanzé. Por enquanto, meus melindres ficaram de lado, principalmente graças à quase mutilação da tarde causada pelo compatriota do 413.
Passo para uma nova janela no iPad, verifico o banco de dados de publicações médicas em busca de artigos sobre procedimentos de craniotomia e trepanação e dou uma última olhada na metade não comida do meu sanduíche. O pão com queijo não é o companheiro perfeito para minha leitura na cama, por isso o coloco de lado enquanto revejo os componentes da minha nova amiga, a furadeira Cushing.
Quando penso que de jeito nenhum vou fazer um buraco no crânio de um macaco, quanto mais no de um humano, me lembro de Jackie, Lin e Isabel.
Fique firme, Jean.
Continuo lendo até minhas pálpebras sucumbirem à gravidade e o iPad escorregar das minhas mãos.
A batida à porta parece vir no momento exato em que caio no sono.
— Dra. McClellan? – A voz é abafada, nebulosa.
— Sim?
— Hora de ir. O Dr. Rossi disse que precisa da senhora no laboratório.
Todo mundo precisa de alguma coisa. Eu preciso de mais ou menos uma semana de sono ininterrupto.
— Certo, estou indo.
Saio da cama e aliso as roupas. Pela aparência delas, dormi profundamente, ainda que não por muito tempo. Então abro a porta. É Petroski, e ele parece ter envelhecido uma década desde que o deixei no subsolo 2.
— Descansou bem, senhora?
Minha boca emite o som de “sim”; minha cabeça latejando questiona. Um pé acompanha o outro pelo corredor, ordens automáticas de marcha ordenando que eles prossigam mais um pouquinho, e entro no elevador com Petroski.
— Tudo pronto – diz ele. – Tudo está exatamente como a senhora pediu.
— Ótimo. Agora escute, sargento. Seu serviço está feito. A última coisa que você sabe é que o Dr. LeBron foi ao laboratório às… Que horas são agora?
— Dez e cinco, senhora – responde ele, levantando o pulso esquerdo para eu ver.
— Certo. LeBron entrou no subsolo 2 às nove e cinquenta. Ele falou a você que estava com dor de cabeça. É só isso que você sabe.
Com uma postura militar já esperada, Petroski responde com um rígido “Sim, senhora” e mantém a porta do elevador aberta para mim. Ele para diante da porta do laboratório.
Por favor, não vá amarelar agora. Não tenho certeza se estou falando com Petroski ou comigo mesma.
Ele passa o crachá no leitor e espera a luz verde, e eu entro. Passamos pelos chimpanzés que restam, ainda gritando nas suas jaulas, e noto que a do chimpanzé número 413 está vazia.
Assim como o laboratório principal.
O primeiro serviço de Petroski era a evacuação do subsolo 2. A julgar pelos bancos desocupados e pelo caos de papelada deixada em cada mesa, ele foi bem-sucedido. Só foram necessários Lorenzo, um bico de Bunsen, um pouco de folha de alumínio e uma mistura de açúcar e nitrato de potássio. Deve ter parecido que uma bomba explodiu no laboratório de bioquímica.
Essa era a ideia.
Deixo o sargento junto à mesa da segurança e ando em meio à confusão de cadernos, calculadoras e óculos de leitura, até onde Lorenzo está esperando, meio de pé, meio sentado, na bancada onde o deixei há duas horas. É a própria imagem da tranquilidade, e desejo que ele não tivesse tornado tão fácil me apaixonar.
— Foi um sucesso, Gianna. Silencioso, cheio de fumaça e não letal. A primeira coisa que fiz quando ganhei um kit de química foi uma bomba de fumaça. Arruinei a melhor panela de preparar massas da minha mãe. – Uma malícia diabólica e infantil lampeja nos olhos dele.
Meninos…, penso. Eles adoram explodir merdas. Ou pelo menos fazer parecer que explodiram merdas.
Ele balança uma perna, saindo de cima da bancada.
— Está pronta?
— Não sei se posso fazer isso – respondo, sentindo o sanduíche de queijo ir na direção que não deveria. – Onde eles estão?
— Aqui.
Lorenzo abre a porta para uma sala lateral. Está vazia, a não ser por duas macas e uma mesa cirúrgica sobre rodas coberta com uma variedade de implementos de aço inoxidável que só vi em fotos: retratores, fórceps, algo que parece um boleador. Na maca mais perto de mim está uma chimpanzé de 1,20 metro com o escalpo parcialmente raspado do lado esquerdo. Na outra está uma forma de vida de 1,80 metro e ordem biológica ligeiramente inferior. Ambos estão fortemente sedados, o peito subindo e descendo em ritmo constante.
Petroski conseguiu que Morgan viesse para o laboratório; Lorenzo terminou o serviço.
— Acho que gosto mais dele desse jeito – digo. – Qual primeiro?
Lorenzo aponta para a chimpanzé.
— Certo. Piada ruim.
Mas preciso do humor para passar por isso. Assim que vejo a furadeira de craniotomia com sua broca de aço irregular, meio parecida com um dente malformado, repenso. Não preciso de humor. Preciso de uma porcaria de neurocirurgião.
— Gianna? – Lorenzo olha seu relógio. – Eles não vão ficar apagados para sempre.
Pego a furadeira e ligo. Ela faz um zumbido baixo enquanto a broca gira. Esse negociozinho não vai atravessar um osso de crânio de jeito nenhum.
— Não posso – respondo, pousando a furadeira.
Isso é que é estar disposta a fazer qualquer coisa!