Vox

Christina Dalcher · Capítulo 29 de 80

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Vinte e Nove

 

 

A primeira coisa que ouço quando andamos os três metros do elevador até o complexo do laboratório são os ratos. Sei que se trata de uma necessidade, mas ainda fico incomodada em injetar soros não testados naqueles bichinhos. Eles são impotentes, como bebês. Não suporto segurá-los e fitar seus olhinhos enquanto espremo minha última poção em suas veias inocentes. Lin não tem problema com isso; talvez sua formação médica a torne imune. Sempre deixei que ela administrasse as injeções.

— São só ratos, Jean – dizia ela no nosso laboratório em Georgetown. – Você colocaria ratoeiras se eles invadissem sua cozinha, não é?

Bom, aí ela me pegou. Mas as ratoeiras eram instrumentos passivos. Eu podia lidar com elas melhor do que com agulhas cheias de substâncias químicas. Sempre fui o tipo de garota que curtia livros técnicos sobre qualquer coisa relacionada ao cérebro. Que os médicos cuidassem da parte prática.

Morgan está parado com seu crachá junto à porta, depois reconsidera.

— Seria bom vocês experimentarem um dos seus, para ver se estão funcionando. Dra. McClellan? Que tal fazer as honras?

Lorenzo dá um risinho.

— Vamos, Gianna. Você não vai saber o que há lá dentro se não abrir.

Enfio meu cartão no leitor, imaginando se Lorenzo percebe que me sinto como Pandora quando a porta dupla se abre e somos ofuscados momentaneamente pelas luzes fluorescentes. Não pode haver nenhum mal aqui, penso, só a esperança que também se esconde dentro da antiga caixa de Pandora.

Mesmo assim, algo no lapso de Poe sobre nossa parte da equipe – se é que foi mesmo um lapso – me deixa inquieta. Por sinal, o próprio Poe me deixa inquieta. Ele é do tamanho de uma geladeira e silencioso feito uma sepultura. E tem a aparência de um homem que matou por Deus ou pelo país. Ou por dinheiro.

Morgan sorri como se o laboratório fosse seu filho primogênito e sinaliza para o acompanharmos. De novo Lorenzo espera que Lin e eu passemos pela porta antes de entrar.

Os guinchos de algumas centenas de ratos soam das gaiolas que cobrem a parede do lado esquerdo. No lado direito há coelhos, os focinhos cor-de-rosa se remexendo diante da intrusão. Nunca tivemos coelhos antes, e sei que Lin vai ter de cuidar das injeções quando formos usar os animais maiores. De jeito nenhum vou injetar qualquer coisa num coelhinho da Páscoa, a não ser que tivesse bastante certeza do que estava fazendo.

Mas tenho certeza, e esse é o problema. Se quiser estender o projeto pelo maior tempo possível, precisarei matar ratos e coelhinhos.

Mesas de laboratório, dez ao todo, cada uma com sua própria estação de trabalho, ocupam a área vazia entre as fileiras de gaiolas. Como todas as salas e todos os cubículos em nosso departamento de três pessoas, elas estão desocupadas.

Há outra porta no lado oposto, também com leitor de cartão-chave. Agora é a vez de Lin, e de novo Morgan passa por nós, entrando na área central do laboratório.

— Puta que pariu – diz Lin.

Morgan estremece ao ouvir isso. Ótimo.

Lorenzo pronuncia uma única palavra em italiano, tão ubíqua e produtiva quanto o nosso “porra”.

— Cazzo.

Os dois estão certos. Este lugar é diferente de tudo que eu já vi.

À minha direita há três portas com placas onde está escrito: SALA DE PREPARO DE PACIENTES: POR FAVOR, BATA ANTES DE ENTRAR. Um pouco mais adiante vejo uma área aberta com uma fila de computadores e armários com equipamentos menores. ULTRASSOM PORTÁTIL, EMT e ETCC estão impressos em etiquetas abaixo dos armários.

— Ótimo – diz Lorenzo. – Estimulação magnética transcraniana e estimulação transcraniana por corrente contínua. Quantas unidades?

— Cinco de cada – responde Morgan, abrindo um armário de cada vez. – E três kits de ultrassom portáteis, todos com vários transdutores. – Ele lê as etiquetas. – Linear, setor, convexo, neonatal, transvaginal.

Há uma pausa antes do último item, como se ele tivesse ficado sem graça com a menção à anatomia feminina, ainda que Morgan soubesse que precisamos das sondas transvaginais para nossos pacientes menores. Como falei antes, ele é um cientista de merda.

Lorenzo pisca para mim.

— Tem mais – diz Morgan, e conduz nosso grupo minúsculo em direção aos fundos.

Ali, duas portas levam a salas de ressonância magnética.

— Vocês têm dois equipamentos completos de ressonância magnética? – pergunto, cutucando Lin, que está quase babando.

Em Georgetown nós precisávamos implorar para usar o do hospital, que ficava a uns vinte minutos de caminhada. E isso quando nos davam permissão, o que não era frequente.

Morgan sorri.

— Dois equipamentos de ressonância Tesla. E aqui fica a sala de tomografia.

Ele abre outra porta e nos deixa espiar dentro.

Nós precisávamos esperar meses para ter acesso ao equipamento de tomografia por emissão de pósitrons, ou PET scan, do hospital.

— E eletroencefalogramas? – pergunta Lorenzo. – E o laboratório de bioquímica?

— Tudo aqui. O material de eletrocefalograma fica na área de equipamentos pequenos.

— Eletroencefalograma – corrijo.

Morgan franze a testa.

— Tanto faz. Bem, eu me esqueci de mencionar, mas vocês vão encontrar os eletrodos e a impressora no último armário da direita. O laboratório de bioquímica fica atrás dessa porta. – Ele indica o cartão-chave de Lorenzo. – Vá em frente. Sem dúvida você vai se interessar mais pelo módulo de expressão de proteínas. Fica aqui, à direita.

Morgan aponta, mas Lorenzo ainda está examinando a sala, onde poderiam caber cinco laboratórios escolares de química.

Somos apenas três. Quatro, se contarmos Morgan, mas não creio que nenhum de nós o inclua. E só um é bioquímico.

— Certo, pessoal. – Morgan olha o relógio. – Tenho uma reunião com os figurões, então vou precisar deixá-los.

— Sem problema – diz Lorenzo, e enfia a chave na porta do laboratório de bioquímica. – Vamos ficar bem.

— Internet? – pergunto, apontando para uma fila de computadores com monitores do tamanho de TVs de tela plana no laboratório principal.

— Nem pensar, Jean. – Morgan liga uma das estações de trabalho. – Excel, Word, SPSS para o caso de precisarem rodar estatísticas. LatLab. Tudo de que vocês precisarem.

Tudo de que eu preciso se quiser trabalhar no vácuo, penso.

— Que tal acesso ao mundo dos periódicos, Morgan? Não estou carregando os últimos cinco anos do Journal of Cognitive Neuroscience na bolsa.

— Ah, isso. Certo. – Ele vai em direção a uma prateleira cheia de tablets. – Todos estão conectados aos bancos de dados acadêmicos. Se não encontrarem o que quiserem, liguem pelo interfone. Eu faço acontecer. – Morgan sorri, mostrando duas fileiras de dentes pequenos. Lembram os dentes de um hamster. Ou de um rato de laboratório. – Preciso ir, pessoal – diz ele, e desaparece pela sala dos roedores e pela porta principal.

Finalmente estamos sozinhos.

— Quinze milhões só pelos dois equipamentos Tesla e a máquina de PET scan – diz Lin quando ouvimos o estalo duplo da porta principal do laboratório. – Quinze milhões. E ainda tem todo o resto.

Nós conhecemos os números. A Fundação Nacional de Ciência fez tudo, menos grudar um emoticon sorrindo na nossa última proposta de verba, quando solicitamos um único equipamento de ressonância. Fiz alguns cálculos de cabeça e cheguei a uma cifra.

Lorenzo assente.

— Vinte e cinco milhões parece uma boa aposta. Mas não é isso que me incomoda.

— Também não – digo.

Nós nos encaramos, os três, alternadamente, e sei que estamos pensando a mesma coisa. Cada equipamento é novo, brilhante, instalado recentemente. E é exatamente do que precisamos para trabalhar na cura da afasia de Wernicke. Você não monta um laboratório de 25 milhões de dólares em três dias. Além disso, havia o cheiro de animais na primeira sala. Os ratos e coelhos já estão aqui há um tempo.

Há mais tempo do que o irmão do presidente está na UTI.

— É quase como se eles já soubessem – diz Lin. – Como se tivessem planejado isso.

Olho em volta, indo do laboratório de bioquímica, passando pelas salas de tomografia e ressonância, em direção à área aberta onde ficam os equipamentos pequenos. No nosso mundo, pequeno não significa barato.

— Precisamos conversar – digo aos dois, mas sei que estou olhando apenas para Lorenzo.