Vox

Christina Dalcher · Capítulo 10 de 80

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Dez

 

Olivia demorou uma eternidade para ir embora, ela e seu maldito copo de açúcar. Ela provavelmente nem precisava do açúcar e só veio xeretar, ver o que eu estava fazendo. Olivia se tornou a mais pura das Mulheres Puras, sempre se balançando na cadeira da varanda com sua Bíblia abreviada e cheia de anotações, sempre cobrindo o cabelo, sempre sorrindo e baixando a cabeça – literalmente – para Evan quando ele estaciona o Buick na entrada de veículos.

As Bíblias ainda são permitidas, se forem do tipo certo.

A de Olívia é rosa; a de Evan é azul. Você nunca os vê trocar, nunca vê o livro azul nas mãos de Olivia enquanto ela está sentada à sombra com sua xícara de chá adoçado ou vai aos cultos no outro carro. É um veículo compacto, muito menor do que o que Evan usa para ir ao trabalho.

Às duas da tarde eu quase desejo que Olivia ainda estivesse aqui.

Tiro dois pacotes de hambúrguer do freezer e coloco na bancada para descongelar. Não há batatas suficientes para todos nós, quanto mais para três garotos em fase de crescimento que parecem ter solitárias persistentes, de modo que arroz terá de servir. Ou eu poderia fazer biscoitos, se conseguir me lembrar da receita. Automaticamente me viro para a estante ao lado do que costumava ser minha mesa de leitura na cozinha e procuro pelo exemplar manchado de A alegria de cozinhar, como se esperasse que ele estivesse ali. No lugar dele, e no lugar de todos os outros livros, estão algumas fotos das crianças, uma dos meus pais, uma de Patrick e eu em nossas últimas férias. Sam ou Leo tirou essa, e estou cortada ao meio, o lado direito do rosto escondido pela moldura de palitos de picolé que Sonia fez na escola. Parece que ainda fazem trabalhos de arte.

Se eu mudar as fotos de lugar, a estante não ficará parecendo tão abandonada, por isso mexo nos porta-retratos, coloco o cronômetro de cozinha e a balança nos espaços vazios e dou um passo atrás para examinar o feito do dia. Com um pouco de imaginação, posso me convencer de que acabei de esculpir a porra do monte Rushmore. Que comece a chuva de papel picado.

Meus pais estão agora numa posição muito mais proeminente do que antes desta empreitada na área de decoração de interiores. Não sei se quero que eles fiquem desse jeito. Eles ligam da Itália ou falam com Patrick pelo Skype, no laptop que ele mantém trancado em seu escritório, o que tem registrador de digitação, câmera e mil outros alarmes conectados. Em geral isso acontece nos domingos, quando as crianças estão em casa e a diferença de fuso horário permite que elas digam olá a toda a família. Deveria ser uma ocasião alegre, mas minha mãe termina toda ligação chorando ou entrega o telefone para o meu pai antes de desmoronar.

Bom… O jantar.

As crianças adorariam biscoitos. Estou vestindo calça jeans e uma velha blusa de linho, pronta para me arriscar a uma ida ao mercado, quando o carro de Patrick vem rugindo pela rua. Sei que é o dele – se há uma habilidade que desenvolvi enormemente no ano passado é a de discriminar sons. Mustang, Corvette, Prius, Mini Cooper. É só dizer o nome do carro que eu reconheço o som.

O que me incomoda, enquanto olho pelas persianas, não é Patrick chegar cedo em casa, mas os três utilitários pretos atrás dele. Já vi esses veículos antes.

O interior deles também.