Vox

Christina Dalcher · Capítulo 30 de 80

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Trinta

 

Lin nos deixa na área dos equipamentos pequenos, com a desculpa de que quer verificar os tubos das máquinas de ressonância Tesla. Para uma mulher tão pequena, seu olhar é penetrante como o soco de um boxeador peso pesado. Cuidado, é o que ela diz.

— Venha comigo.

Lorenzo curva um dedo comprido e fica quieto até voltarmos ao laboratório de bioquímica, perto de uma pia. Ele abre a água e se encosta na bancada de epóxi preta. Bate no ouvido direito e olha para o teto.

Câmeras.

Entendo. Se há câmeras, também há microfones. Eu me inclino para frente e finjo ler o relatório que ele tirou do bolso do peito. É uma conta de luz, mas eu me concentro na página como se fosse o último teorema de Fermat.

— Você disse a eles que teríamos concluído em um mês? Por quê? – pergunto.

— Porque Morgan não ia chamar você. Nem Lin. Ele não queria nenhuma mulher no projeto. Eu garanti que faríamos uma tentativa bem-sucedida antes que o presidente fosse para a França, mas só se você estivesse na equipe. – Depois de um momento, ele acrescenta: – E nós já chegamos lá.

Não sei se lhe dou um beijo ou um tapa.

— Você sabe o que vai acontecer comigo quando terminarmos, não sabe? E com Lin?

Lorenzo olha para meu pulso, para o círculo desbotado de uma queimadura antiga em volta dele.

— Sei.

Sua voz soa triste, mas percebo a fúria borbulhando por baixo. De novo me lembro da diferença entre Patrick e Lorenzo: os dois sentem simpatia, mas apenas Lorenzo é capaz de lutar.

— Além disso, eu preciso do dinheiro do bônus – diz ele.

— Para quê?

— Um projeto pessoal.

— Que tipo de projeto pessoal custa cem mil dólares?

Seu olhar encontra o meu acima da torneira aberta.

— Uma coisa muito pessoal – diz ele antes de fechar a água. – Certo, está se sentindo melhor?

— Sim – respondo, sem entender se ele está falando do meu festival de vômito hoje cedo ou de nossa conversa. – Estou ótima.

— Que bom. Porque temos trabalho a fazer.

— Espere. – Abro a água fria de novo. – Quando eles contataram você para falar do projeto?

— Logo depois de Bobby Myers quebrar a cabeça.

Assinto.

— Ninguém consegue encomendar, receber e instalar dois tubos de ressonância Tesla em três dias, Enzo. Nem o governo.

Ele abre um sorriso ao ouvir seu antigo apelido.

— É. Eu sei. Venha. Vamos tirar Lin do tecno-orgasmo e almoçar.

A torneira é fechada pela segunda vez, e nós voltamos à seção de neurologia do laboratório quando o relógio marca uma hora.

— Quem você tem em mente para o primeiro teste? – pergunta Lorenzo.

— Delilah Ray, sem dúvida. Eu encontrei o filho dela outro dia, sabe? Ele é nosso carteiro.

E também é o homem que piscou três vezes para mim e disse que tinha esposa e três filhas. Faço uma anotação mental de estar à porta na próxima vez que ele fizer a entrega. Neste momento, a única outra coisa que tenho na mente é comida.