Vox

Christina Dalcher · Capítulo 75 de 80

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Vox

Setenta e Cinco

 

 

É como se a porta do elevador fosse a boca do inferno, até mesmo com o alerta medonho, Abandonai toda a esperança, gravado onde deveriam estar os números acesos. Mesmo assim, eu entro atrás dos outros. Dane-se a esperança.

Esse é o meu filho.

Steven cambaleia até mim, de súbito mais menino do que homem. Em dois dias ele emagreceu e os ossos das costelas estão pronunciados sob minhas mãos enquanto eu o puxo para perto. Para onde quer que Poe esteja nos levando, vamos fazer essa viagem juntos.

Poe nos interrompe, separando gentilmente o abraço.

— Mais tarde a senhora terá tempo para isso, Dra. McClellan. Quando chegarmos ao térreo, não levantem os olhos e não falem. – Ele tira três pulseiras pretas do bolso do quadril e as entrega a mim, Lorenzo e Petroski. – Ponham isso.

— De jeito nenhum – diz Lorenzo. – Nem pensar, porra.

Petroski fica pálido, balançando a cabeça.

— Elas são de plástico – explica Poe. – Só façam isso. O sargento Petroski não pode tirar vocês daqui. Mas eu posso. Desde que me obedeçam.

Prendo a argola no braço enquanto a porta do elevador se fecha sibilando. Os homens fazem o mesmo.

Olho interrogativamente para Poe.

— Diga.

— O que está acontecendo? – pergunto, me preparando para a dor familiar.

Mas não sinto dor.

— Confiem em mim. Mantenham a cabeça baixa e… não sei… tentem parecer abatidos até passarmos pela segurança.

Nenhuma das pessoas no elevador – inclusive eu, como percebo ao ver meu reflexo na parede de aço polido – precisa fingir abatimento. Olho o relógio de Lorenzo e vejo que são duas da manhã, mas a impressão é que passou um ano inteiro desde que Morgan nos trouxe de volta na tarde de ontem.

Poe aperta o botão do térreo.

— Quando sairmos, fiquem em fila e entrem na traseira do furgão.

A subida parece demorar uma eternidade.

— Certo – diz Poe. – Primeiro as damas.

Saímos. Lin, Isabel, Jackie e depois eu. Sinto alguma coisa me comprimindo as costas quando saio do elevador, e por um momento breve e irracional penso que é o cano da .45 de Petroski, mas é uma coisa quente e tranquilizadora: a mão de Lorenzo. Ele sussurra: – Estou bem aqui, Gianna.

Onde havia dois soldados, agora conto dez pares de coturnos lustrosos. Um par avança num passo vigoroso.

— Não posso deixar que eles saiam, senhor – diz uma voz. – Ordens do Dr. LeBron.

Estou doida para responder que o Dr. LeBron não vai dar nenhuma ordem num futuro próximo ou distante, se bem que ele pode fazer algumas requisições de gelo enquanto queima no inferno. Me pego sorrindo e mordo o interior da bochecha.

Poe, bem à minha frente, balança um envelope de aparência familiar. No canto superior direito está o brasão presidencial. No canto esquerdo, onde ficaria normalmente um endereço de remetente, há um P maiúsculo em relevo prateado.

— Diga isso a ele – ordena Poe, entregando o envelope.

Há um farfalhar ansioso de papel enquanto o envelope é rasgado e a carta dentro é desdobrada.

— Fort Meade – diz o soldado. – Sei. Certo, o senhor sabe aonde ir. – Então, numa voz mais carrancuda: – Fiquem de lado, homens. Deixem que eles passem.

Sussurros circulam ao meu redor.

— Essa não é a médica?

— Ei… é o garoto que apareceu na televisão ontem à noite.

— Acho que eu a conheço de algum lugar.

— Maldição, sete hoje.

A citação de Burke me vem à cabeça, a mesma que Steven parafraseou quando os homens foram pegar Julia King: “A única coisa necessária para o triunfo do mal é que os homens bons não façam nada.”

Enquanto passamos pelas fileiras de coturnos, ouvindo os sussurros e murmúrios desses homens, não sei se sinto nojo ou pena.

Talvez uma mistura das duas coisas.

Lorenzo é o último a subir no furgão e ocupa um lugar ao meu lado no banco. Antes que Poe nos tranque, noto uma desconfortável ausência de janelas ou de uma maçaneta interna na porta traseira. O terror se esgueira para baixo da minha pele quando o motor é ligado, e me pergunto se eu, se nós não acabamos de ser enganados.

— Todo mundo está bem? – pergunta uma voz. É masculina, suave e baixa. É familiar, mas não consigo situar o timbre. – Acenda as luzes, Christopher.

A voz é bastante familiar.

Quando as luzes se acendem, iluminando não sete, mas nove rostos, vejo por quê: Del e Sharon estão conosco no furgão. Estendo a mão e pego a de Sharon, apertando-a. Ela aperta de volta. Minha vontade é me jogar nos braços dessa mulher que mal conheço.

— Mais tarde teremos tempo para isso – diz ela.

— Sharon, querida, comece a trabalhar nas pulseiras – pede Del, apontando para as que estão nos pulsos de Jackie, Lin e Isabel. – Você se lembra de como fazer?

Sharon revira os olhos.

— Eu fiz nas nossas meninas, não fiz? – Depois, dirigindo-se a mim, ela acrescenta: – Homens… Acham que são os únicos especialistas. – Ela dá um beijo no marido. – Não se preocupe, querido. Amo você até sua morte. Talvez até um pouco depois disso.

Ela trabalha no contador de Jackie com a mesma firmeza de Lin fazendo trepanação na chimpanzé.

— Talvez você receba um pequeno choque, garota, mas não diga uma palavra se não quiser que nós duas caiamos de bunda. Del é bom, mas a chave dele não é a mesma daqueles capangas que colocaram isto. Tudo bem. Preparada?

Jackie assente, depois olha nos meus olhos.

— Pronto! – exclama Sharon, triunfante, e vai até Lin.

As primeiras palavras a saírem da boca de Jackie são exatamente as que eu espero: – Puta que pariu. Isso foi pior do que aquele retiro de meditação de merda aonde eu fui vinte anos atrás.

A mesma velha Jacko, penso, e falo com ela – falo realmente com ela – pela primeira vez em duas décadas.