Vox
Três
Quando tudo começou, antes que qualquer um de nós pudesse perceber o que o futuro reservava, uma mulher em especial chamava atenção, pois era uma das mais barulhentas. Seu nome era Jackie Juarez.
Não quero me lembrar de Jackie, mas de repente me vejo um ano e meio atrás, pouco depois da posse, sentada na sala. Estou assistindo à TV com as crianças, pedindo que riam baixo para não acordar Sonia.
Steven aparece com três tigelas de sorvete e comenta que a mulher na televisão está histérica.
Histérica. Odeio essa palavra.
— O quê? – pergunto.
— As mulheres são todas malucas – continua ele. – Isso não é novidade, mãe. É aquela história das mulheres histéricas e de “surtos da mãe”.
— O quê? Onde você ouviu isso?
— Aprendi hoje na escola. Um cara chamado Cooke, ou sei lá o quê. – Steven distribui a sobremesa. – Droga. Uma das tigelas é menor. Mãe, você quer a menor ou a maior?
— A menor.
Eu vinha lutando para controlar o peso desde a última gravidez.
Ele revira os olhos.
— Espere só chegar aos quarenta, aí você vai ver seu metabolismo – retruquei. – E quando foi que você começou a ler Crooke? Eu não sabia que Descrição do corpo do homem tinha sido adotado no ensino médio. – Pego a primeira colherada de sorvete de chocolate com nozes e marshmallow. Acho que só dá para mais duas. – Mesmo em Literatura Avançada.
— Na verdade, foi em Estudos Religiosos Avançados – diz Steven. – Cooke, Crooke... Enfim, qual é a diferença?
— Um r, garoto.
Eu me viro de volta para a mulher furiosa na TV. Ela já apareceu antes naquele programa, tagarelando sobre as diferenças salariais entre gêneros e o teto de carreira para mulheres, sempre dando um jeito de divulgar seu último livro de título inspirador, no estilo de uma pregação do Juízo Final: Eles vão nos calar. Subtítulo: O que você precisa saber sobre a sua voz e o patriarcado. Na capa, uma série de bonecas em tecnicolor – de todo tipo, desde Moranguinhos até Barbies e bonecas de pano – olhando para a frente, com uma mordaça de bola na boca, feita no Photoshop.
— Macabro – digo a Patrick.
— Um exagero, não acha? – Ele olha, um pouco desejoso demais, para meu sorvete meio derretido. – Você vai comer isso aí?
Entrego a tigela sem tirar os olhos da TV. Alguma coisa naquelas mordaças me incomoda – mais do que uma boneca de pano com uma bola vermelha na boca deveria me incomodar. São as tiras de couro, acho. O X preto com o centro vermelho-sangue riscando o rosto de cada boneca. Parecem véus malfeitos, cobrindo tudo menos os olhos. Talvez esse seja o objetivo.
Jackie Juarez é autora de meia dúzia de outros livros, todos com títulos tão aflitivos quanto unhas arranhando um quadro-negro, como Cale a boca e apenas obedeça, Dona de casa e parideira: o que a direita religiosa quer que você seja, e o predileto de Patrick e Steven: O útero ambulante. Neste, a arte de capa é medonha.
Agora ela está gritando com o entrevistador, que provavelmente não deveria ter dito “feminazi”.
— Sabe o que acontece se você tira o “feminista” de “feminazi”? – Jackie não espera uma resposta. – Nazi. Nazista. Prefere assim?
O entrevistador fica sem jeito.
Jackie o ignora e crava seus olhos enlouquecidos, os cílios cheios de rímel, na direção da câmera, de modo que parece me encarar.
— Vocês não fazem ideia, senhoritas. Absolutamente nenhuma ideia. Estamos a um passo de voltar à pré-história, meninas. Pensem nisso. Pensem onde vocês vão estar, onde suas filhas vão estar, quando os tribunais atrasarem os relógios. Pensem em expressões como “permissão do cônjuge” e “consentimento paterno”. Pensem em acordar um dia e descobrir que não têm voz em nada. – Ela faz uma pausa depois de cada uma das últimas cinco palavras, com os dentes trincados.
Patrick me dá um beijo de boa-noite.
— Preciso acordar bem cedo amanhã, amor. Tenho uma reunião no café da manhã com o figurão, você sabe onde. Boa noite.
— Boa noite, querido.
— Ela precisa tomar um calmante – diz Steven, ainda olhando para a TV.
Agora ele está com um saco de Doritos no colo, mastigando cinco de cada vez, uma lembrança de que a adolescência não é totalmente ruim.
— Sorvete de chocolate e Doritos, filho? Isso vai arruinar seu rosto.
— Sobremesa dos campeões, mãe. Ei, será que a gente pode ver outra coisa? Essa mulher é muito chata.
— Claro. – Dou o controle remoto para ele e Jackie Juarez se cala, substituída por uma reprise de Os reis dos patos.
— Sério, Steve? – pergunto, olhando montanheses barbudos com roupa camuflada soltarem baboseiras filosóficas sobre a situação política.
— É. Eles são engraçados pra caralho.
— São malucos. E veja como fala.
— É só uma piada, mãe. Caramba... Não existe gente de verdade assim.
— Já esteve na Louisiana? – Pego o saco de salgadinhos e me explico: – Seu pai comeu meu sorvete todo.
— Há dois anos, no Mardi Gras. Mãe, estou começando a me preocupar com a sua memória.
— Nova Orleans não é Louisiana.
Ou talvez seja, penso. Afinal, qual é a diferença entre um caipira escroto aconselhando os homens a se casar com adolescentes e um punhado de bêbados fantasiados jogando colares de contas para qualquer uma que mostre os peitos na St. Charles Avenue?
Provavelmente nenhuma.
E eis o país resumido em vinhetas de cinco minutos: Jackie Juarez em seu terninho e maquiagem profissional pregando o medo; o pessoal dos patos pregando o ódio. Ou talvez seja o contrário. Pelo menos o pessoal dos patos não fica me acusando através da tela.
Steven agora está na segunda lata de Coca-Cola e na segunda tigela de sorvete – uma imagem imprecisa, na verdade, porque ele largou a tigela e está raspando o resto de sorvete direto do pote. Depois de terminar, ele anuncia que vai para a cama.
— Tenho prova de Estudos Religiosos Avançados amanhã.
Quando foi que os alunos do segundo ano começaram a ter matérias avançadas? E por que ele não está estudando alguma coisa útil, como biologia ou história? Resolvo questioná-lo.
— O curso de estudos religiosos é novo. Eles ofereceram a todo mundo, até aos calouros. Acho que ano que vem vão colocar na grade regular – explica ele da cozinha. – Bom, isso significa que não vai sobrar tempo para biologia ou história este ano.
— E sobre o que é o curso? Teologia comparativa? Acho que dá para tolerar, mesmo numa escola pública.
Ele volta para a sala com um brownie. Seu encerramento do dia.
— Não. É mais tipo… sei lá, filosofia do cristianismo. Enfim, boa noite, mãe. Te amo.
Steven dá um beijo no meu rosto e desaparece no corredor. Volto para Jackie Juarez.
Ela era muito mais bonita pessoalmente, e é impossível saber se ganhou peso desde a faculdade ou se a câmera acrescentou uns cinco quilos, como se costuma dizer que acontece na TV. Por baixo da maquiagem profissional e do cabelo arrumado, Jackie parece cansada, como se vinte anos de raiva tivessem se desenhado em seu rosto, uma ruga de cada vez.
Mastigo mais um Doritos e lambo o pó alaranjado dos dedos antes de fechar o saco e colocá-lo fora do alcance.
Jackie me encara com aqueles olhos frios que não mudaram, acusadores.
Não preciso das acusações dela. Não precisava há vinte anos e não preciso agora, mas ainda me lembro do dia em que começaram. No dia em que minha amizade com Jackie começou a azedar.
— Você vai à passeata, não vai, Jean?
Jackie estava parada, sem sutiã e sem maquiagem, junto à porta do meu quarto, onde eu estava esparramada no meio de metade da coleção de neurolinguística da biblioteca.
— Não posso. Estou ocupada.
— Caramba, Jean, isso é mais relevante do que um estudo idiota sobre afasia. Que tal se concentrar nas pessoas que realmente importam?
Olhei para ela, inclinando a cabeça para a direita, numa pergunta silenciosa.
— Certo. Certo. – Ela ergueu as mãos. – Os afásicos são importantes. Desculpe. Só quero dizer que essa coisa que está acontecendo na Suprema Corte é… bom… agora.
Jackie sempre chamava as situações políticas (eleições, indicações, confirmações, discursos, tudo) de “coisas”. A coisa da corte. A coisa do discurso. A coisa da eleição. Isso me deixava maluca. Era de se imaginar que uma sociolinguista tiraria um tempo para trabalhar no próprio vocabulário de vez em quando...
— De qualquer modo, eu vou – disse ela. – Você pode me agradecer mais tarde quando o Senado confirmar a nomeação de Grace Murray. É a única senadora agora, caso você esteja interessada. – Ela começou a falar de novo sobre “aqueles escrotos misóginos que estavam na comissão de inquérito há dois anos”.
— Obrigada, Jackie – respondi, me contendo para não sorrir.
Ela tampouco sorriu.
— Certo. – Empurrei o caderno para o lado e enfiei o lápis no rabo de cavalo. – Quer parar de pegar no meu pé? Poxa, essa aula de neurociência está muito puxada. A professora deste período é a Wu, e ela é um verdadeiro carrasco. Joe abandonou. Mark abandonou. Hannah abandonou. Aquelas duas garotas de Nova Délhi, que sempre andam de braço dado e deixaram a bunda gravada nos cubículos da biblioteca, abandonaram. A gente não fica sentada trocando historinhas sobre maridos raivosos e esposas tristes e compartilhando toda terça-feira nossa visão de como a linguagem das SMS dos adolescentes é o futuro.
Jackie pegou um dos livros da biblioteca na minha cama e o abriu, lendo o título no topo da página.
— “Etiologia do derrame em pacientes com afasia de Wernicke”. Fascinante, Jean.
Ela largou o livro, que atingiu o edredom com uma pancada abafada.
— Também acho.
— Ótimo. Fique aqui na sua bolhinha de laboratório enquanto todo mundo vai à passeata. – Jackie pegou o livro, escreveu duas linhas no verso da contracapa e o deixou cair de novo. – Só para o caso de você conseguir um minuto de folga para ligar para os seus senadores, Garota da Bolha.
— Gosto da minha bolha. E esse livro é da biblioteca.
Jackie não parecia que ia se importar nem se tivesse acabado de pichar a Pedra de Roseta com spray.
— É. Claro que gosta, você e o resto das feministas brancas. Espero que ninguém estoure essa bolha.
Ela foi embora, carregando um monte de cartazes coloridos.
Quando nosso aluguel venceu, Jackie disse que não queria renovar. Ela e algumas outras mulheres decidiram pegar um apartamento em Adams Morgan.
— Curto mais o ambiente de lá – explicou ela. – Parabéns, por sinal. Você vai fazer um quarto de século ano que vem. Como disse Marilyn Monroe, isso faz uma garota pensar. Fique fria, cara. E pense no que precisa fazer para continuar livre.
O presente que ela deixou era uma variedade de bugigangas, um pacote temático de bolhas e bolas. Enrolado no plástico-bolha havia um saco de chiclete, daqueles com figurinhas idiotas dentro de cada tijolinho embrulhado individualmente; um frasco de sabão líquido rosa e outro de bolinhas de sabão; uma garrafinha de espumante californiano; e um pacote com 25 balões de festa.
Naquela noite, bebi o espumante direto da garrafa e estourei cada bolha do plástico. Todo o resto foi para o lixo.
Nunca mais falei com Jackie. Em noites como esta, gostaria de ter falado. Talvez as coisas – a coisa da eleição, a coisa da nomeação, a coisa da confirmação, a coisa da ordem executiva – não tivessem chegado a este ponto.