Vox

Christina Dalcher · Capítulo 12 de 80

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Vox

Doze

 

Na nossa equipe.

Uma centena de respostas borbulham dentro de mim, 90% das quais significariam demissão – ou algo pior – para Patrick. Mas qualquer coisa que se aproxime de concordância ou ansiedade em concordar jamais percorrerá o caminho do meu cérebro até minha boca. Em vez de empolgação, sinto como se tivesse levado um soco no estômago, como se as palavras do reverendo Carl tivessem me perfurado feito garras. Eles podem precisar de mim, mas precisar é diferente de querer. E não confio em nenhum desses homens.

— Eu tenho escolha? – Parece uma pergunta segura.

O reverendo Carl separa as mãos num gesto santificado de oração. Já o vi fazer isso, na TV, quando está pedindo ajuda, pedindo que mais Mulheres Puras, Homens Puros e Famílias Puras se juntem ao seu rebanho, quando está pedindo dinheiro. Neste momento essas mãos se parecem mais com um torno pronto para me apertar até eu ser esmagada.

— Claro – diz ele, a voz exageradamente generosa e falsamente gentil. – Sei como a senhora deve se sentir, sei que deixar seu lar e seus filhos para voltar à labuta diária deve ser…

Ele procura uma palavra enquanto seus olhos examinam minha casa. Há bagunça e confusão em toda parte: há três pares de sapatos meus num canto, para onde os chutei na semana passada, poeira nos parapeitos das janelas, uma velha mancha de café no tapete perto dos sapatos dele.

Nunca fui uma boa dona de casa.

Ele continua:

— Nós conversamos com outra cientista, a Dra. Kwan, para o caso de precisarmos de uma segunda opção. Creio que a senhora a conhece.

— Conheço.

Lin Kwan é a chefe do meu antigo departamento. Ou era, até que a substituíram pelo primeiro homem que puderam encontrar. Não preciso perguntar por que não o procuraram para esse projeto: se Lin tivesse conseguido impor sua vontade, as verbas do sujeito teriam sido cortadas depois do primeiro experimento desastroso. Para ver como ele era inepto.

— Então… – Agora as mãos do reverendo Carl se abaixaram e ele não mais me olha, mas fita a algema de aço que Thomas está segurando nos últimos vinte minutos. – A escolha é sua. A senhora pode montar um novo laboratório, recomeçar sua pesquisa e ir adiante. Ou…

— Ou…? – pergunto, meus olhos encontrando os de Patrick.

— Ou tudo pode voltar ao normal. Tenho certeza de que sua família gostaria disso. – O reverendo não me olha enquanto está falando; ele encara Patrick, como se estivesse estudando a reação do meu marido.

Como se alguma coisa da nossa vida no último ano tivesse sido normal. Então entendo: Carl Corbin acredita mesmo no que prega. A princípio eu tinha achado que ele havia engendrado o Movimento Puro, que suas motivações para ressuscitar o culto vitoriano da domesticidade e manter as mulheres fora da esfera pública eram puramente misóginas. Com certeza era melhor que isso fosse verdade; é menos assustador do que a alternativa.

Steven foi o primeiro a me explicar, numa manhã de domingo dois anos atrás.

— É meio tradicional, mãe. Tipo nos tempos antigos.

— Tempos antigos? Como o quê? Grécia? Suméria? Babilônia?

Ele se serviu de uma segunda tigela de cereal misturado com duas bananas e cobriu tudo com leite. Quando Sam e Leo chegarem aos quinze anos, terei de comprar ações da Cherrios.

— Bom, é. A ideia das esferas pública e privada já estava lá na época dos gregos, mas ela é ainda mais antiga. Desde as comunidades de caçadores-coletores. Biologicamente, nós somos adequados a coisas diferentes.

— Nós? – perguntei.

— Homens e mulheres. – Ele parou de mastigar e flexionou o braço direito. – Está vendo isto? Você poderia malhar todo dia, durante um ano, e ainda assim não teria músculos como eu. – Provavelmente vendo minha expressão de pura incredulidade, ele mudou de rumo: – Não quero dizer que você é fraca. Só é diferente.

Meu Deus.

Apontei para minha têmpora.

— Está vendo isto, garoto? Com mais dez anos de escola talvez você tenha um igual. Ou talvez não. E isso não tem merda nenhuma a ver com sexo. – Minha voz estava subindo de volume.

— Calma, mãe.

— Não diga para eu me acalmar.

— Você está ficando histérica. Só estou dizendo que, em termos biológicos, as mulheres fazem certas coisas, e os homens, outras. Por exemplo, você é uma professora fantástica, mas provavelmente não duraria uma hora se… não sei… se tivesse de trabalhar cavando valas.

Chega.

— Sou uma cientista, Steven, e não professora do jardim de infância. E não estou histérica.

Bom, estava um pouco.

Servi minha segunda xícara de café com as mãos trêmulas.

Steven não deixou para lá. Abriu o livro daquela maldita aula da turma avançada – Babaquices Religiosas 1, ou sei lá como chamavam – e começou a ler: – “A mulher não deve ir às urnas, mas tem uma esfera própria, de incrível responsabilidade e importância. Ela é a guardiã do lar, nomeada por Deus… Ela deve ter total consciência de que sua posição de esposa e mãe, e de anjo do lar, é a tarefa mais santa, mais responsável e régia designada para os mortais; e descartar qualquer ambição de algo mais elevado, já que não existe nada tão elevado para os mortais.” Esse texto é do reverendo John Milton Williams. Está vendo? Você é uma rainha.

— Fantástico. – Eu precisava do café, mas não queria que Steven visse como eu estava à beira de explodir, por isso deixei-o na bancada. – Acho que você deveria abandonar esse curso.

— De jeito nenhum. Eu estou até curtindo. Quer dizer, há uma tonelada de coisas em que pensar. Até algumas garotas dizem isso.

— Acho difícil acreditar – falei, não me incomodando em esconder o escárnio.

— Julia King, por exemplo.

— Julia King não representa toda a população feminina. – Coitada, pensei, imaginando qual lavagem cerebral meus vizinhos tinham feito na filha. – Estou falando sério, Steven. Largue o curso.

— Não.

Quinze anos. A idade do desafio. Eu a conhecia bem, tinha passado por isso.

Patrick entrou na cozinha, esvaziou a jarra de café numa caneca e colocou o resto do leite.

— O que está acontecendo? – perguntou, bagunçando o cabelo de Steven e depois me dando um beijo no rosto. – Está meio cedo para uma briga.

— Ela quer que eu largue a aula de religião da turma avançada.

— Por quê? – perguntou Patrick.

— Não sei. Pergunte a ela. Acho que ela não gosta do livro.

— O livro é uma bosta – falei.

Patrick pegou-o e folheou as páginas como se fossem um velho desenho animado.

— Não me parece tão ruim.

— Talvez se você tentasse ler, querido.

— Qual é, amor. Deixe Steve cursar o que quiser. Não vai fazer mal.

Talvez tenha sido nesse momento que comecei a odiar meu marido.

Agora estou de volta à sala, odiando os sete homens sentados ou de pé ao meu redor, esperando que eu me junte às suas fileiras.

— Preciso de mais detalhes…

Talvez eles não notem que estou embromando.

Talvez você ache que sou louca por não agarrar essa chance de voltar ao trabalho. Dá para entender.

O dinheiro extra seria bom. É um ponto relevante. E sinto falta da minha pesquisa, dos meus livros, da colaboração com Lin e meus assistentes de pós-graduação. Senti falta de falar.

Acima de tudo, senti falta de ter esperança.

Estávamos tão perto, porra!

Foi ideia de Lin abandonar nosso trabalho inicial sobre a afasia de Broca e passar para a de Wernicke. Eu conseguia entender seu raciocínio: os pacientes da afasia de Broca gaguejavam com uma frustração palpável, mas conseguiam se expressar. No geral, a linguagem continuava intacta; apenas a capacidade de transmiti-la em palavras fora prejudicada por um derrame, uma queda numa escada, um ferimento na cabeça enquanto percorria algum país desértico usando fardas do mundo livre. Eles ainda podiam compreender, ainda tinham as esposas, as filhas e os pais encorajando-os. Eram as outras vítimas – as que sofriam danos numa parte posterior do cérebro, como Bobby Myers – que sofriam a pior perda. Para eles a linguagem havia se transformado num labirinto inescapável de falta de significado. Imagino que deve ser como estar perdido no meio do oceano.

Então sim, quero voltar. Quero continuar a pesquisa sobre o soro e – quando estiver pronta – injetar aquela poção nas veias idosas da Sra. Ray. Quero ouvi-la me contar sobre a Quercus virginiana, a Magnolia stellata e a Syringa vulgaris, como fez quando veio pela primeira vez à minha casa, identificando os carvalhos, as gigantescas árvores estreladas e os lilases com um cheiro que nenhum perfumista conseguiu igualar. Ela os considerava presentes de Deus, e eu tolerava isso. Independentemente do que existisse lá em cima, ele ou ela fez um serviço fantástico com as árvores e as flores.

Mas estou pouco me lixando para o presidente, seu irmão ou, na verdade, qualquer homem.

— E então, Dra. McClellan? – pergunta o reverendo Carl.

Quero dizer que não.