Vox

Christina Dalcher · Capítulo 36 de 80

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Trinta e Seis

 

Segundo o contrato, sexta-feira é meu dia de folga, mas há adrenalina demais percorrendo meu corpo para que eu consiga dormir, por isso me levanto, deixo Patrick roncando e vou para a cozinha. É onde reflito melhor.

Quero lutar e não sei como.

Se Jackie estivesse aqui, teria algumas palavras para me dizer. Penso principalmente em um dos seus últimos sermões, naquela tarde de fim de abril no nosso apartamento de Georgetown com seus tapetes da Ikea, pratos da Ikea e talvez alguns potes e panelas de uma venda de garagem.

— Você pode começar pequeno, Jeanie – disse ela. – Vá a alguns comícios, distribua panfletos, participe de debates. Você sabe que não precisa mudar o mundo sozinha.

E as expressões de efeito vieram em seguida: movimentos de base, um passo de cada vez, são as pequenas coisas, esperança-mudança-sim-podemos! Todas as palavras das quais Patrick e eu zombávamos.

Às seis da manhã Steven se arrasta até a cozinha e se serve de um copo de leite, que ele leva de volta para o quarto.

Ótimo. Mal consigo olhar para ele.

Faço umas torradas e chá. Meu cérebro quer café, mas o resto do corpo se rebelou assim que abri o saco de grãos e coloquei no moedor. Até a torrada fede, como se todo o conteúdo da minha despensa tivesse apodrecido durante a noite. Tudo tem gosto de peixe velho.

Sonia acorda em seguida, cheia de perguntas sobre ontem à noite.

— O que aconteceu na casa dos King? Eu vou brincar com a Sra. King hoje? Julia está doente? – Sua fala é como música, mas a letra está totalmente errada.

— Está tudo bem, querida – minto. – Mas acho que a Sra. King precisa de uma folga hoje.

Isso significa, claro, que tenho de arranjar outra babá para Sonia enquanto estiver no trabalho.

Descarto as outras vizinhas, uma por uma. Velha demais, religiosa demais, esquisita demais, descuidada demais. A última coisa de que qualquer um de nós precisa é de Sonia caindo de um balanço ou – pior, penso – recitando passagens do manifesto dos Puros. Esfrego os olhos para afastar o sono e reviro a mente em busca de uma solução.

A ideia me atinge de supetão. Aquela piscadela tripla nos olhos do meu carteiro. E ele tem três filhas.

Enquanto Sonia está comendo seu cereal, delineio meu dia. Marcar consulta com o médico, esperar o carteiro, ver como Olivia está assim que Evan sair para o trabalho, ir ao laboratório e contar a Lin o que encontrei ontem no escritório de Patrick. O que não estou planejando fazer: assistir à humilhação pública de Julia King.

O programa irá ao ar hoje, e provavelmente durante a maior parte do próximo mês, até que haja uma nova vítima a ser exposta pela mídia. Eles sempre fazem isso, em geral inserindo vídeos em algum programa ao qual sabem que as pessoas assistirão. É sinistro. Na verdade, ninguém é obrigado a assistir, mas a alternativa é manter a televisão desligada. As reprises passam quando você menos espera: durante programas de culinária, seriados, um documentário sobre zebras.

Steven volta para a cozinha.

— Não estou me sentindo bem. Acho que não vou à escola hoje.

Claro que ele não quer ir. Julia King vai ser o assunto principal.

— Você não está doente, Steven – digo. – Então chame seus irmãos e vá se vestir. – Olho o relógio. – O ônibus chega em uma hora.

— Mas, mãe…

— Não.

Ele precisa assistir ao programa, precisa estar amarrado na cadeira com as pálpebras forçadas a ficar abertas como aquele filho da puta no filme do Anthony Burgess. Talvez, para completar, eles coloquem alguns vídeos da vida futura de Julia nos campos ou nos criadouros de peixes.

O telefone toca enquanto estou lavando a louça.

— Atenda para mim, por favor. Depois acorde Sam e Leo. – Viro-me para Sonia. – Que tal ir dar uma olhada no seu pai? Pode levar isto para ele, se tiver cuidado.

Entrego a ela uma caneca de café pela metade, me encolhendo um pouco por causa do fedor. Nunca antes me ocorreu pensar em como café tem cheiro de merda.

— Certo! – exclama Sonia, e sai carregando a caneca com as duas mãos, andando a passo de lesma.

Com sorte, Patrick vai receber seu café em algum dia da semana que vem.

— É para você – diz Steven. – É o Babbo.

Esse apelido para o avô quase me mata, uma sobra da infância, de um tempo em que meu filho tinha a idade de Sonia, quando ainda corria por aí com calça de veludo cotelê vermelho-vivo e uma camiseta amarelo-canário com as palavras SUPERCRIANÇA! na frente. Tenho uma memória nítida, de nós dois na cozinha, antes da reforma, quando os utensílios eram verde-abacate e uma fórmica branca com salpicos dourados cobria as bancadas. Eu estava fazendo brownies, e Steven, em vez de pedir a colher para lamber, puxou a tigela vazia da batedeira, usando a mãozinha como espátula.

Por que eles crescem tão depressa?

Pego o telefone. É meu pai.

— Oi, Papà. Por que está ligando pelo telefone, e não pelo FaceTime?

Qualquer que seja a resposta que ele tenha para isso, não ouço. Meu pai está chorando, e o ruído de fundo de um hospital italiano se infiltra pela linha telefônica.

— Papà, o que aconteceu?

Uma voz nova substitui a dele.

— Professoressa McClellan? – pergunta uma mulher. Só que ela pronuncia o sobrenome não italiano de Patrick como macalella, evitando os grupos consonantais, transformando-o em algo familiar para ela.

— Sim. – O chá e a torrada começam a se revirar no meu estômago. – O que houve?

— Sua mãe – diz a médica depois de se apresentar. O inglês dela é bom, o suficiente para eu não ter de me preocupar com o jargão médico numa língua que não uso há mais de um ano. – Sua mãe teve um aneurisma hoje cedo.

Meu chá com torrada sobe mais ainda, ficando preso no peito.

— Onde?

— No cérebro – responde a médica.

— Sim. Eu sei. Em que parte do cérebro? Eu tenho alguma formação em neurologia.

— Na seção posterior do giro temporal superior.

— Esquerdo ou direito? – pergunto, já sabendo a resposta.

Papéis farfalham ao telefone.

— Hemisfério esquerdo.

Inclino-me para a frente, na bancada, a cabeça encostada no granito frio.

— Área de Wernicke – sussurro.

— Sim, perto da área de Wernicke. – Outro jorro de italiano vem pelo telefone, abafando as palavras da médica. – Sinto muito. De verdade. Mas tenho outro paciente que preciso ver. Se puder ligar de volta daqui a algumas horas, talvez saibamos mais sobre a situação da sua mãe.

Ela põe meu pai de novo na linha.

— Ela está consciente? – pergunto.

— Não.

Quando desligamos, sou deixada com as palavras de Jackie: Um passo de cada vez, Jeanie. Comece pequeno.

Não sei como começar, grande ou pequeno, mas sei que qualquer coisa que eu faça precisa ser enorme.

Gostaria que Jackie estivesse aqui.