Vox

Christina Dalcher · Capítulo 46 de 80

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Quarenta e Seis

 

 

É uma situação quase normal. Estamos sentados em volta da mesa em meio a caixas de pizza, Sam e Leo discutindo sobre os melhores times de futebol, Sonia nos instruindo sobre os pontos positivos e negativos de ordenhar vacas e limpar estábulos. Se eu fechar os olhos, Patrick não está largado frouxo na cadeira, quase encolhido, e Steven está devorando sua sexta fatia, com borda e tudo. Há conversas, discussões e interrupções. Toda aquela merda normal de jantar em família.

Só que não é o que acontece.

Patrick bebeu mais do que deveria. Steven tirou o pepperoni de uma fatia e fez pilhas na lateral do prato. E eu? O cansaço virou uma música chiclete, um círculo de exaustão sem fim percorrendo minha cabeça e meu corpo, me puxando para baixo.

Mas, afinal de contas, esta é minha chance, e aconteceu por conta própria.

Ponho Patrick na cama – um feito e tanto, considerando o tamanho dele e a minha fadiga – e leio uma história para Sonia. Ela dorme antes que o Ursinho Pooh fique entalado na toca de Abel.

Bom para você, menina, penso.

O pequeno relógio em sua mesinha de cabeceira me diz que são oito horas – muito cedo para os gêmeos estarem na cama, e cedo demais para Steven. Preciso dar uma olhada nos três.

Sam e Leo estão ensinando truques de cartas um ao outro na sala – também algo normal. Quando bato à porta do quarto de Steven, ele diz que quer ficar sozinho. “Para se desligar”, explica através das paredes grossas.

Isso me faz pensar em Olivia.

— Tem certeza de que está bem? – pergunto.

O que não digo é Não faça nada estúpido, garoto.

Talvez ele tenha lido a minha mente; talvez tenha mais juízo do que acho.

— Eu não vou… você sabe.

Nada como ter uma conversinha sobre suicídio com seu filho antes da hora de dormir, penso, e vou pegar as chaves de Patrick.

Meu marido tem um ritual noturno: uma hora em seu escritório com uma cerveja depois do jantar, escovar os dentes e – em ocasiões que ficaram mais raras no correr dos anos e tão raras quanto dentes numa galinha nos últimos doze meses – sexo. Em algum ponto entre o tempo passado no escritório e o arrastar até a cama, ele tranca as chaves num cofre de aço em sua mesinha de cabeceira, uma daquelas caixas com um teclado que a gente vê em quartos de hotel.

Uma vez ele tentou me convencer de que esse hábito é um efeito colateral de seu novo emprego, mas sei que não é verdade. Sei que, se ele se demitisse do cargo de conselheiro amanhã e voltasse a ser consultor da AMA, essas chaves, gavetas e caixas continuariam lá, como estão em todas as outras casas. Vi Evan King fazendo as mesmas coisas no mês passado, numa noite em que ele se esqueceu de baixar as persianas. E Evan não é conselheiro de ciências do presidente dos Estados Unidos. Evan é uma merda de contador de uma rede de mercearias. Não pode haver muitos segredos nesse cargo.

Agora é tipo Papai sabe tudo, amor. Totalmente.

Esta noite Patrick deixou de lado boa parte de seu ritual de trancar e destrancar, mas o hábito o obrigou a rolar na cama, abrir a gaveta e digitar o código de seis números que ele mantém mais em segredo do que uma amante. Ouvi as chaves caírem em seu esconderijo e o som eletrônico de mais cinco números antes de ele fechar a gaveta e rolar de costas, murmurando alguma coisa sobre se esforçar muito e precisar de mais tempo.

Enchi um copo com água gelada e o coloquei num descanso ao alcance da mão dele, junto com três aspirinas para a manhã. Depois fui ler para Sonia. No meio das aventuras de Abel, Pooh e Tigrão, pensei naqueles cinco bipes quando Patrick trancou o cofre.

Cinco bipes. Não seis.

Depois de dar uma olhada nos meninos, tiro os sapatos e sigo pelo corredor até meu quarto. Patrick está roncando baixinho nos travesseiros, o peito subindo e descendo sob o lençol fino. Na claridade fraca do relógio ao lado da cama, tateio o puxador de latão do criado-mudo e, com certa hesitação, tento abrir a gaveta com um único dedo. A umidade deixou a madeira velha pegajosa, e um dedo não basta. Minha mão inteira se fecha em volta do puxador.

A física é uma coisa fascinante. Penso nas ocasiões em que saí para beber com amigos, num daqueles bares onde servem cerveja em pesadas canecas de vidro, só que você descobre – justo quando a cerveja atinge sua cara – que as canecas não são feitas de vidro e, sim, de plástico, algum tipo de composto que tem a aparência de vidro, mas não o peso. Você calcula a força necessária para levantar cerca de meio quilo de caneca de cerveja e – epa! – fica com a cara cheia de lager. “Problema de bebida”, você diz, e começa a se enxugar.

Bom agora eu tenho um problema de puxão.

A força que exerço sobre a gaveta seria suficiente para abri-la. Seria, se o puxador de latão não tivesse se soltado.

Voo para trás, com a peça na mão, e minha cabeça bate no piso. Patrick para de roncar.

— O que você está fazendo, amor? – murmura ele.

— Tropecei no tapete. Pode voltar a dormir.

Espantosamente, isso funciona, e espero cinco minutos inteiros ouvindo sua respiração se suavizar antes de ir à cozinha procurar uma chave de fenda.

São nove horas quando consigo abrir a gaveta do criado-mudo o suficiente para enfiar a mão dentro, tatear a porta do cofre – fechada, mas não trancada – e enfiar uma unha na fresta. O cofre se abre e eu pego o metal frio das chaves de Patrick antes de fechar a gaveta.

Hora de mandar Sam e Leo para a cama.

Eles resistem, Sam me dizendo que quer fazer só mais um truque.

— Agora – ordeno, e espero até ouvi-los se acomodar.

Então vou até o fim do corredor, até a porta fechada do escritório de Patrick.

Já tenho a mentira pronta, para o caso de Patrick acordar e me encontrar sentada atrás da sua mesa, folheando pilhas de papéis e envelopes. Afinal de contas, minha mãe está num hospital a milhares de quilômetros, com o centro de linguagem do cérebro provavelmente danificado de forma irreversível. Claro que preciso telefonar, mesmo sendo tarde. Papai não vai dormir hoje.

Mas estou sozinha, eu, meus dedos pegajosos e as pilhas organizadas de Patrick arrumadas como soldados de papel em fileiras sobre a mesa. Tudo parece exatamente como estava na noite anterior, e não é de espantar, já que ninguém esteve nesta sala hoje. A medonha eletrocussão de Olivia não deixou tempo para banalidades como trabalhar com a papelada. Tentativa de eletrocussão, lembro, tentando tirar da mente a imagem do braço queimado.

Tudo está exatamente igual, exceto a presença do envelope pardo com o carimbo de ALTAMENTE SECRETO.

Às onze horas já examinei cada gaveta e armário, olhei embaixo dos dois tapetes persas falsos, tateei cada centímetro de rodapé procurando uma tábua solta. Finalmente desisto e me deito no chão duro, a cabeça ainda latejando da queda de antes.

Estou cansada demais, totalmente exausta. Seria bom ficar aqui, os membros esticados e os olhos semicerrados, até de manhã.

Seria bom, mas me colocaria numa encrenca das boas, mesmo com o pretexto de tentar falar com meu pai pelo FaceTime.

Levanto-me, forçando as pernas a aceitar o peso, e ando uma última vez até a mesa de Patrick, ajeitando as pilhas de relatórios e memorandos. Se ele falar alguma coisa de manhã, eu digo que ele tentou trabalhar enquanto estava bêbado.

Enquanto a chave do escritório gira na fechadura, as outras tilintam. Fecho a mão em volta delas para mantê-las imóveis e silenciosas, e reviro a mente pensando no que elas poderiam destrancar. São três no total: a do escritório e outras duas, menores. Acho que uma se encaixa na fechadura do baú do sótão, onde está a maioria dos meus livros. Mas a menor de todas, arredondada, me lembra Jackie.

Nós tínhamos um chaveiro de parede, um negociozinho cafona que Jackie comprou numa venda de garagem, e ficava perto da porta do apartamento. Ela o repintou com um tema nativo americano, colorindo por cima das marcas de pegadas e do texto que proclamava VOCÊ SÓ PRECISA DE AMOR… E DE UM CACHORRO, substituindo o texto pelos nossos nomes, por PORTA e CORREIO . Eu vivia colocando a chave da caixa de correio no lugar errado, dizia ela, de modo que a partir de então a sacaninha ficaria pendurada no gancho. Ainda consigo visualizá-la, aquela chave minúscula arredondada.

Quando tenho certeza de que o escritório de Patrick está trancado e de que Steven não saiu do quarto procurando uma tigela de cereal ou uma barra de chocolate no meio da noite, saio pela porta da frente. O ar noturno faz minha pele pinicar, me lembrando de que estou suada.

A casa dos King está totalmente às escuras, sem ao menos uma luz da varanda acesa. Claro, Evan saiu na ambulância com Olivia enquanto o sol ainda estava alto no céu. Talvez ainda não tenha voltado. Tateio a parede, procurando o interruptor que apaga nossa luz, aperto-o e espero que meus olhos se acostumem com a noite. Acima de mim, acima do telhado dos King, paira uma lasca da lua crescente. Parece um anzol.

Enxugando o suor das palmas das mãos na saia, seguro a chavezinha. Com a mão trêmula, encontro a fechadura da caixa de correio em que Del Ray espiou hoje de manhã, encontrando um único envelope. A chave gira com facilidade assim que a enfio na fechadura, e eu prendo a respiração.

Que diabo você está esperando, Jean?, penso. Documentos altamente secretos do governo em sua caixa de correio?

No entanto, sob aquela lasca de lua que parece capaz de flutuar para baixo e carregar a casa vizinha para longe, até as nuvens noturnas, vejo a silhueta de um envelope de papel pardo.