Vox
Dezesseis
Depois de ler a história para Sonia dormir e me deitar ao lado dela, esperando ouvir a respiração tranquila que me diz que ela caiu no sono, vou para o meu quarto. Nossa cama. Esta noite ela é toda minha, porque Patrick ainda está no escritório, apesar de ser quase meia-noite. Raramente ele fica acordado até tão tarde.
Esta noite penso em homens.
Quando coloquei os gêmeos na cama, Steven estava na sala tomando sorvete e assistindo a parte de uma série de palestras do reverendo Carl – agora acredito que ele seja o herói do meu filho. Os dois combinam, ambos firmes em suas ideias de reversão a um tempo anterior, uma época em que homens eram homens e mulheres eram mulheres e glória aleluia, as coisas eram muito mais fáceis quando todos sabíamos quais eram nossos papéis. Não posso odiar Steven porque ele acredita numa coisa tão errada, ainda que eu odeie aquilo em que ele acredita.
Mas outros homens são diferentes.
Pouco depois do quinto aniversário de Sonia, depois de recebermos os contadores, telefonei para a casa da minha médica, preparada com um conjunto de perguntas feitas com palavras exatas, uma espécie de pidgin. Aparei as frases, eliminando verbos de ligação e adjetivos, indo ao cerne o mais rapidamente possível. O gravador captaria cada palavra, até um sussurro.
Quem sabe o que eu esperava dela? O que minha médica por mais de dez anos poderia dizer? Talvez eu quisesse uma companheira no silêncio. Talvez só quisesse ouvir como ela estava puta da vida.
A Dra. Claudia atendeu, ouviu, e um gemido baixo escapou antes que seu marido surgisse na linha.
— De quem você acha que foi a culpa? – perguntou ele.
Fiquei parada na cozinha, querendo me explicar, tendo cuidado para não fazer isso, enquanto ele dizia que tínhamos feito passeatas demais, escrito cartas demais, gritado palavras demais.
— Vocês, mulheres. Agora precisam aprender uma lição.
E desligou.
Não liguei de novo para ela, para perguntar como a haviam silenciado, se tinham invadido seu consultório ou sua cozinha, se a haviam colocado num furgão junto com as filhas e descrito o futuro numa sala cinza e escura antes de pôr pulseiras brilhantes em todas elas e mandá-las para casa, para cozinhar, limpar e serem Mulheres Puras que apoiam os pais e maridos. Para aprender nossa lição.
A Dra. Claudia nunca teria colocado aquele broche na gola, não sem lutar, mas sei que ela ainda o usa. Provavelmente suas filhas também, assim como Julia King, a filha da vizinha. Eu conhecia Julia quando ela usava shortinhos jeans e blusas curtas, quando corria de bicicleta pela rua com um tocador de MP3 no volume máximo, cantando junto com as Dixie Chicks, quando me viu no quintal e contou mais uma história sobre como sua mãe estava esquisita, e revirou os olhos diante do ridículo de toda aquela merda Pura. Quando seu pai a flagrou falando comigo – acho que foi há cerca de um ano e meio –, ele pegou Julia pelo braço e a empurrou pela porta de tela nos fundos da sua casa.
Ainda me lembro do choro dela quando Evan a espancou.
A porta do escritório de Patrick se abre com um rangido e ouço seus passos no corredor, seguindo para longe do nosso quarto, em direção à cozinha. Eu poderia ir até ele, servir uma bebida forte para nós dois e contar o que aconteceu com Steven depois do jantar. Deveria. Sei disso.
Mas não vou.
Patrick é o terceiro tipo de homem. Não é crente e não é um escroto que odeia as mulheres; só é fraco. E prefiro pensar em homens que não são.
Assim, esta noite, quando Patrick finalmente deita na cama, mesmo depois de se desculpar comigo, decido sonhar de novo com Lorenzo.
Nunca sei o que provoca isso, o que me faz imaginar que é o braço dele, e não o do meu marido, que está envolvendo minha cintura à noite. Não falo com Lorenzo desde meu último dia na universidade. Bom, e naquela única outra vez, algum tempo depois, que não envolveu uma abundância de vocalizações.
Eu me desvencilho do braço pesado que me envolve. Esse gesto é muito parecido com propriedade, é possessivo demais. Além disso, a pele muito lisa de Patrick, sua mão macia de médico e os pelos finos estão interferindo em minhas lembranças, bloqueando-as.
Lorenzo já deve ter voltado para a Itália. Não tenho certeza. Faz dois meses desde que segui meu coração e minha libido e saí com ele. Dois meses desde que arrisquei tudo por uma transa.
Transa não, Jean. Amor, lembro a mim mesma.
O plano dele, desde o início, era voltar ao que chamávamos de “a Bota” assim que o período como professor visitante tivesse terminado. Ele sentia falta da cozinha e do mar, de laranjas e pêssegos engordados com o rico solo vulcânico até crescerem grandes como o sol. E da sua língua. Nossa língua.
Patrick se mexe ao meu lado, e eu me levanto. Na cozinha, pego a velha macchinetta num armário, comprimo pó para espresso no copinho perfurado e encho a parte de baixo com água antes de colocar sobre fogo baixo no fogão. São quase cinco da manhã e não vou dormir mais.
Teria sido o café que começou tudo? Ou o italiano? De repente me sinto fria e quente ao mesmo tempo.
Ele mantinha um fogareiro elétrico no escritório, um daqueles com queimador único que a gente encontra em quitinetes e motéis baratos. Enfiado entre aquilo e seus textos de semântica estava uma lata de café, café de verdade, não a poeira moída que colocavam na copa dos professores. Nós tínhamos nos encontrado para rever o progresso da recordação léxica nos meus pacientes com anomia. Por algum motivo, os anômicos tinham me deixado num beco sem saída; sua incapacidade de conjurar os nomes dos objetos mais comuns ao mesmo tempo que conseguiam descrevê-los perfeitamente tinha mandado minha pesquisa de volta à estaca zero. Se não conseguisse entregar um relatório positivo no fim do mês, diria adeus à verba e sayonara ao cargo.
Lorenzo pôs o café para coar e nós olhamos os últimos exames. Ali, em meio às ressonâncias magnéticas, aos eletroencefalogramas e ao café italiano, tudo começou.
A primeira coisa que notei foi sua mão ao encher uma xícara com o espresso preto e espesso. Sua pele era morena, não tinha nada do rosa pálido da mão de Patrick. Uma unha estava lascada e havia calos nas pontas dos dedos, que eram compridos e finos.
— Você toca violão? – perguntei.
— Bandolim. E um pouco de violão.
— Meu pai tocava bandolim. Minha mãe cantava junto; todos nós cantávamos. Nada fantástico, só as músicas folclóricas de sempre: “Torna a Surriento”, “Core ’ngrato”, coisas assim.
Ele riu.
— Qual é a graça?
— Uma família americana cantando “Core ’ngrato”.
Agora foi minha vez de rir.
— O que faz você pensar que sou americana? – Só que não falei desse jeito. Falei em italiano.
Nós nos conhecemos assim, no escritório dele, onde ficava o fogareiro elétrico e a pequena cafeteira. Assim que entreguei o projeto da anomia, garantindo meu futuro um tanto instável por mais um semestre, continuamos a nos encontrar.
— Comprei um pedacinho da Itália para você – disse ele certo dia, não muito depois de ter voltado de uma visita à família nas férias de primavera.
Nossa conversa tinha migrado de uma mistura de inglês e italiano para napolitano total, e o escritório de Lorenzo virou um oásis de continentalismos: caffè, música, os crocantes biscoitos taralli que ele trazia nas segundas-feiras depois de trabalhar todo o fim de semana na receita de sua avó.
Ele empurrou um objeto embrulhado em jornal por cima da mesa.
— O que é? – perguntei.
— Um pouco de música para você, Gianna. Abra.
Abri. Dentro do jornal havia uma caixa de madeira envernizada com um padrão de rosas de cinco pétalas ao longo da borda. Não se parecia muito com música, até que Lorenzo levantou a tampa com um dedo.
Ainda me lembro disso, de como ele levantou a tampa com tanto cuidado, como um recém-casado deslizando uma saia de renda por cima do joelho da esposa, preparando-se para puxar a liga. Um ato lascivo tornado afetuoso pela gentileza.
Foi a primeira vez que imaginei a mão de Lorenzo na minha pele nua; naquela segunda-feira em seu escritório atulhado, com a caixa de música tilintando “Torna a Surriento” e a cafeteira de espresso borbulhando seu café espesso e doce.
Lorenzo não é crente, não odeia mulheres nem é covarde. Está numa categoria própria, escondido num canto escuro e agradável da minha mente.