Vox

Christina Dalcher · Capítulo 18 de 80

Páginas do PDF

Vox

Dezoito

 

Desta vez o reverendo Carl vem à minha casa sozinho. Seu terno é da mesma lã cinza e cara de ontem, mas trespassado, e não simples. Conto os botões: três do lado direito, três do esquerdo, quatro em cada manga. Os botões nas mangas são do tipo que se sobrepõem por alguns milímetros, botões beijando, como dizia meu pai quando tinha seu armarinho, sinal de um terno feito sob medida. Além disso, são botões de verdade, que funcionam, e o reverendo Carl deixa os de baixo abertos. Quer que o mundo veja como ele tem gosto refinado, acho.

Lorenzo nunca quis se mostrar assim.

Enquanto tomávamos café numa tarde – acho que foi há dois invernos, enquanto tentávamos superar outro impedimento no projeto Wernicke –, sem querer rocei a manga do seu paletó com minha caneta, deixando uma marca pequena mas feia no tecido cinza.

— Deixa pra lá – disse ele.

— Já volto.

Naquele tempo eu mantinha uma lata de spray de cabelo na minha sala. Em “naquele tempo” quero dizer o período depois de Lorenzo e eu começarmos a trabalhar juntos. Antes eu não me incomodava, geralmente me contentando em deixar os cachos escuros que herdei da minha mãe caírem como quisessem. Mas naquela tarde eu tinha uma lata de Paul Mitchell Freeze and Shine espreitando numa gaveta junto de uma lixa, um palito de unha e um kit de maquiagem de emergência. Só para o caso de Lin convocar alguma reunião surpresa para o projeto.

As coisas que nós, mulheres, fazemos.

Depois de borrifar o spray e enxugar a marca de tinta, passei a unha pela cachoeira de quatro botões. Eles estalaram quando os toquei.

— Botões beijando – falei. – Não vejo desses há tempos.

Meu pai tinha dito que só colocavam botões de mangas assim na Itália.

E então… foi assim que aconteceu. Um comentário idiota, de improviso, sobre uma memória de infância, e o pé de Lorenzo fechou a porta enquanto sua boca encontrava a minha.

Era um bom lugar para estar, mas agora voltei à minha sala, com Patrick, o reverendo Carl e seus botões das mangas, o de baixo aberto.

— Nós esperávamos, Dra. McClellan, que a senhora… – começa o reverendo Carl, olhando desejoso para minha caneca de café.

Não ofereço nenhuma bebida e não deixo que ele termine.

— Bom, não vou fazer.

— Nós podemos aumentar o pagamento.

Os olhos de Patrick lampejam, primeiro para o reverendo Carl, depois para mim.

— Nós conseguimos nos virar – digo, e tomo outro gole de café.

Eu me acostumei com o desafio em pequenas atitudes, como quando escolhi aquele contador vermelho-sangue para Sonia.

Não há desespero na voz dele, nenhum tom suplicante, apenas os cantos dos lábios se inclinam para cima quando diz: – E se eu dissesse que temos outros incentivos?

Agora me imagino numa sala em algum lugar, um local sujo e estéril, com paredes que abafam o som, sem janelas e com homens suados, de olhos cruéis, que seguem ordens do tipo “Acho que ela aguenta mais um pouco”, “Deem um momento para ela repensar” e “Vamos recomeçar”. Preciso fazer força para não me encolher, para manter o olhar firme.

— Por exemplo?

Seu sorriso se alarga.

— Poderíamos, por exemplo, aumentar a cota da sua filha. Para cento e cinquenta, talvez? Não. Duzentas.

— Pode aumentar para dez mil, reverendo. Ela já não fala o suficiente para a cota atual.

— Lamento – diz ele, mas nada em seu tom indica que lamenta mesmo.

Era isso que ele queria: mulheres e meninas dóceis. As gerações mais velhas precisam ser controladas, mas por fim, quando Sonia tiver filhos, o sonho do reverendo Corbin, de Mulheres Puras e Homens Puros, dominará o mundo. E eu o odeio por isso.

— Mais alguma coisa? – pergunto.

Patrick me lança um olhar, mas permanece em silêncio.

O reverendo Carl pega uma caixinha de metal no bolso.

— Então precisarei colocar isto de volta.

O “isto” a que ele está se referindo é o contador preto dentro da caixa.

— Esse não é o meu – digo. – O meu é prateado.

Outro sorriso, mas agora os olhos do reverendo também brilham.

— É um modelo novo. A senhora vai descobrir que ele funciona exatamente como sua pulseira antiga, mas esta tem duas características extras.

— O quê? Um chicote em miniatura?

— Jean! – exclama Patrick.

Eu o ignoro.

— Nada disso, Dra. McClellan. A primeira novidade é um moderador de linguajar.

— Um o quê?

— Nós gostamos de pensar que é um suave empurrãozinho na direção certa, nada mais. Só mantenha as coisas limpas e tudo vai funcionar normalmente. Nenhum palavrão, nenhuma blasfêmia. Se a senhora escorregar, tudo bem, mas sua cota se reduz em dez números a cada infração. Com o tempo, vai se acostumar.

Estou me sentindo igual ao Cartman naquele filme do South Park, quando implantam um chip em sua cabeça que lhe dá um choque sempre que ele diz “porra” – como é South Park, isso acontece o tempo todo.

— A segunda novidade exige um pouco mais de ação de sua parte. – Ele aponta para o botão vermelho na lateral do contador. – Uma vez por dia, numa hora de sua escolha, a senhora vai apertar este botão e falar com a pulseira. Há um microfone embutido aqui. – Ele aponta para o outro lado, oposto ao botão vermelho. – Esperamos que essa prática ajude as pessoas…

— As mulheres – interrompo.

— Sim. As mulheres. Esperamos que ela ajude a colocar vocês no clima, a entender o que é fundamental.

— Como?

Ele tira do bolso do peito um papel dobrado e o alisa. É uma lista digitada.

— A senhora vai ler isso uma vez por dia ao microfone. Aperte o botão vermelho duas vezes antes de começar, e duas quando terminar. Isso não vai ser descontado da sua cota.

— O que não vai ser descontado?

Minha boca ficou seca. Tomo mais um gole de café, agora frio.

Ele me entrega a folha.

— Por que não lê agora, enquanto ajusto o dispositivo à sua voz? Desse jeito matamos dois coelhos com uma cajadada só.

A primeira palavra que leio está destacada em azul no topo da página:

 

ACREDITO que o homem foi criado à imagem e glória de Deus, e que a mulher é a glória do homem, pois o homem não foi feito da mulher, mas a mulher foi feita do homem.

 

– Não posso ler isso.

O reverendo Carl verifica seu relógio.

— Dra. McClellan, eu tenho uma reunião no centro da cidade em uma hora. Se não pudermos terminar isso, terei de chamar alguém que possa.

Visualizo Thomas, do terno escuro, pele escura e olhos mais escuros ainda, o homem que tirou meu contador ontem de manhã. O que eu vi uma vez antes, há um ano, quando vieram me buscar pela primeira vez.

No dia em que anunciei o progresso da nossa equipe a um auditório apinhado de gente, uns vinte homens uniformizados, com o brasão presidencial numa braçadeira, armas pretas na mão direita, atravessaram a plateia. A luz do projetor diminuiu enquanto eu prendia a respiração. Atrás de mim permaneciam apenas fantasmas das minhas fórmulas na tela branca.

Tinha começado. A coisa terrível, impensável, sobre a qual Patrick havia me alertado apenas alguns dias antes.

Eles separaram a plateia, mandando os homens para fora, obrigando o resto a fazer fila e levando cinquenta alunas e professoras, algumas titulares, por corredores vazios. Lin foi a primeira a verbalizar sua resistência.

Thomas partiu para cima dela como um puma, apontando aquele seu cassetete de tortura preto ameaçador para o corpo pequeno de Lin Kwan.

Olhei-a se dobrar, se curvar e desmoronar, sem palavras, com apenas o fiapo de um suspiro de dor, agudo e retesado, saindo dos lábios. Cinco de nós corremos para a mulher caída no chão de ladrilhos, mas fomos afastadas violentamente. As que se demoraram também receberam choques ou levaram coronhadas. Como animais desobedientes. Vacas. Cachorros.

O que estou dizendo é que nada disso aconteceu sem luta.

— Dra. McClellan?

Agora o reverendo Carl está com o telefone na mão, um dedo comprido prestes a completar a ligação, pronto para convocar um homem com pouco charme e técnicas longas e persuasivas.

— Ótimo. Eu leio – digo, achando que posso falar aquelas palavras horríveis sem deixar que elas me invadam.

Assim eu começo.

Quando estou na metade da página, a pele de Patrick empalideceu até ficar sem cor. O reverendo Carl assente toda vez que falo uma das crenças, afirmações ou declarações de intenção para a pulseira preta.

— Como mulheres, devemos manter o silêncio e obedecer. Se precisarmos saber de algo, perguntemos aos nossos maridos na intimidade do lar, porque é vergonhoso uma mulher questionar a liderança do homem, ordenada por Deus.

Ele assente.

— Quando obedecemos à liderança do homem com humildade e submissão, reconhecemos que a cabeça de cada homem é Cristo, e que a cabeça de cada mulher é o homem.

Ele assente.

— O plano de Deus para a mulher, seja casada ou solteira, é que ela se adorne com pudor e sobriedade, e que exiba modéstia e feminilidade sem demonstrações de capricho ou orgulho.

Ele assente.

— Procurarei me adornar interiormente e ser pura, modesta e submissa. Desse modo glorificarei o homem, assim glorificando Deus.

Ele assente.

— Honrarei a santidade do matrimônio, tanto o meu quanto o dos outros, pois Deus julgará os adúlteros sem hesitação.

Ele assente.

Espero que Patrick interprete minha voz embargada como sinal de desconforto.

O reverendo Carl assente mais uma vez quando termino a página, e bate duas vezes no botão vermelho.

— Muito bem, Sra. McClellan. – Há uma ênfase no “Sra.”. – Patrick, pode fazer as honras?

Patrick se levanta e põe sua xícara de café ainda cheia na mesa, derramando um pouco. Em seguida, pega o contador preto da mão do reverendo Carl, põe no meu pulso e fecha.

E é assim que perco a voz pela segunda vez. Com um estalo que parece uma bomba.