Vox
Trinta e Dois
Ponho minha máscara de mãe e esposa quando entro pela porta dos fundos. Sonia e os gêmeos estão jogando cartas no tapete da sala; Patrick está cortando legumes na cozinha, com uma garrafa de cerveja aberta perto da tábua de corte. Imagino se é a primeira da tarde.
— Oi – digo, largando a bolsa na bancada. Ela foi meticulosamente revistada na inspeção de segurança antes de eu sair do laboratório.
— Oi, amor. – Patrick larga a faca e me dá um abraço apertado. – Correu tudo bem?
— Muito bem.
— Como foi?
— Podemos ser torturados se falarmos sobre isso. – Provavelmente é mais verdadeiro do que imagino. – Cadê Steven? Ele vai perder o lanchinho pré-jantar das seis horas.
Patrick inclina o queixo para o lado esquerdo da nossa casa.
— No vizinho.
— Ele e Julia devem estar conversando de novo. Você precisa mesmo falar com ele sobre esse negócio de casamento. Ele é novo demais.
— Vou falar. Ah, e seus pais ligaram pelo FaceTime. Falei que você ia ligar amanhã, mas sua mãe quer falar com você hoje.
— Posso usar seu laptop?
— Cadê o seu?
Neste momento está de quarentena com um dos gênios da computação do Poe.
— Trancado num prédio sem nome em algum lugar de Washington – respondo. – Tem certeza de que não quer ajuda?
Ele sacode um pano de prato para mim.
— Anda. Vai. Não preciso de críticos culinários na minha cozinha.
Nós dois rimos de sua tentativa de piada.
Bom, isso é diferente.
Depois de uma partida-relâmpago de um jogo de cartas com as crianças (Sonia diz algumas palavras cautelosas), vou para o escritório de Patrick, que ele deixou destrancado, e ligo para meus pais. A princípio, o italiano volta lentamente, depois entra numa cadência firme, todo cheio de vogais e sílabas rimando. Papà não tem nada de positivo a dizer sobre o presidente, sobre o irmão do presidente ou sobre qualquer outra parte deste país; Mamma está mais contida, mais quieta do que o usual.
— Tutto bene, Mamma? – pergunto.
Ela me garante que está tudo bem, só tem umas dores de cabeça ultimamente.
— Você precisa parar de fumar – digo.
— Aqui é a Itália, Gianna. Todo mundo fuma.
Isso é verdade. Depois do futebol, fumar é o principal passatempo do país, especialmente no Sul. Por enquanto, deixo isso para lá e me concentro em conversas mais felizes. Durante um tempo, escuto enquanto eles me contam sobre os limoeiros e as laranjeiras do quintal, a horta, as fofocas sobre o Signore Marco, o peixeiro, que finalmente vai se casar com a Signora Matilda, a padeira. Já não era sem tempo: juntos, Marco e Matilda devem ter 170 anos.
A bomba explode quando minha mãe pergunta se vou visitá-la no verão.
— Você não quer que eu morra sozinha – diz ela.
— Ninguém vai morrer, Mamma. – Mesmo assim, um calafrio desce pela minha coluna. – Prometa que vai se consultar com o Dr. Michele, está bem?
Entre os “Ciaos”, os beijos e as promessas de nos falarmos de novo amanhã, demoramos dez minutos para encerrar a ligação. Se as italianas tivessem cotas, como nós, gastariam até a última palavra na despedida de uma conversa telefônica.
Só depois de fechar o FaceTime eu noto o envelope pardo com ALTAMENTE SECRETO carimbado em cima da mesa de Patrick. Quem teve a ideia de rotular documentos sigilosos com carimbos vermelhos gigantes que anunciam – ou pelo menos sugerem – o conteúdo, é um imbecil, penso. Seria o mesmo que colocar uma etiqueta dizendo ME ABRA! Se fosse eu, esconderia todos os segredos em exemplares antigos da Reader’s Digest.
Patrick assobia na cozinha, e agora as crianças estão discutindo se Sam trapaceou ao pegar uma dama de espadas de outro baralho e escondê-la na manga da camisa.
Seria fácil demais dar uma espiada no conteúdo do envelope. Posso praticamente sentir o peso daquele diabinho vermelho no meu ombro esquerdo, instigando: Vamos, Jean. Dê uma olhada. Ninguém precisa saber.
Portanto, é o que eu faço.
O conteúdo não me surpreende. Como conselheiro de ciências do presidente, Patrick, claro, estaria sabendo do projeto Wernicke. O que não entendo é por que a primeira página dentro do envelope altamente secreto do meu marido se refere a três equipes diferentes: Dourada, Vermelha e Branca. Lorenzo, Lin e eu estamos na equipe Branca. Outros nomes, todos desconhecidos para mim, estão listados sob “Dourada” e “Vermelha”. Alguns têm postos militares.
— Mamãe! – A voz de Sonia no corredor me dá um susto. – Ganhei o jogo!
Agora a dama de espadas sequestrada por Sam faz sentido. Rapidamente enfio o memorando do projeto de volta no envelope, esperando ter deixado as coisas como estavam na mesa de Patrick, que sempre parece organizada com a ajuda de uma régua T.
— Fantástico, querida. Que tal a gente ir ver o que o papai está fazendo na cozinha?
— Eu te amo, mamãe. Eu te amo muito.
Bastam oito palavras para fazer meu coração palpitar.