Vox
Cinquenta
Lorenzo e eu preparamos dois grupos de camundongos para as injeções. Cada um vai receber uma das duas neuroproteínas que ele esteve formulando. E, com sorte, saberemos que direção precisamos tomar no fim do dia, quando metade dos ratos estiverem mortos. Enquanto retiro as criaturinhas das gaiolas e raspo um quadrado de pelos neles, um por um, uma pergunta quica feito uma bola de pingue-pongue no meu cérebro.
Por quê?
A resposta vem muito facilmente, na forma de uma única palavra: silêncio.
Lorenzo estende a mão e pega o camundongo marrom das minhas mãos trêmulas.
— Eu faço isso – afirma ele, deslizando o tosquiador pelo flanco do bichinho. – Pronto. Ponha o Mickey na gaiola do Grupo Um. E não se preocupe, eu cuido das injeções.
— Estou tão mal assim?
— Digamos que nesta manhã você está um pouquinho insegura. Nada de mais. – Ele me dá um tapinha no ombro, e eu pulo. – Uma coisa de cada vez, Gianna.
Olho as mãos dele – com calos nas pontas dos dedos longos, devido aos anos em que tocava bandolim – enquanto ele seda o rato seguinte, espera que o bichinho relaxe na palma de sua mão e raspa outro quadrado de pele.
— Este é do Grupo Dois – diz, me devolvendo o corpo frouxo do bicho. Outro Mickey ou Minnie vai para a segunda gaiola.
— Eles são monstros.
Lorenzo assente. Sabe que não estou falando dos ratos.
Agora me vejo há dois invernos e estou de volta à minha sala, sentada perto de Olivia King enquanto ela toma café e vê Jackie batalhar contra três Mulheres Puras, cujos tailleurs em cores pastel fazem um contraste silencioso com o terninho vermelho de Jackie. Olivia assente para as mulheres que parecem gêmeas e sacode a cabeça violentamente toda vez que Jackie abre a boca.
— Alguém deveria calar essa mulher – diz Olivia. – Permanentemente.
Ah, Olivia, era o que você esperava que fosse acontecer?
Eles vão começar com as mulheres nos campos de concentração, suponho. Jackie, Julia, Annie Wilson. Não veremos nada disso pela televisão. Em seguida, o reverendo Carl vai ajuntar pessoas como Del e Sharon, esmagando qualquer esperança de resistência. Mas, antes de tirarem a voz de Del, trabalharão nele, talvez usem suas três filhas como incentivo. E Del, claro, vai falar. Que pai não falaria?
Patrick será o próximo da fila. Sinto o coração parar quando penso nos métodos que utilizarão com ele, nas ameaças a Sonia que vão encorajá-lo a confessar. E assim por diante, até que todos os membros do que já deve ser uma operação esgarçada sejam encontrados, obrigados a falar e silenciados.
Com o uso da minha criação maldita.
Não acredito que esse será o fim.
Lorenzo toca no meu ombro de novo.
— Por agora terminamos. Você está bem?
Balanço a cabeça.
Sem um marido e com o contador de pulso que vai voltar assim que terminar o serviço aqui, não terei meios de cuidar de uma casa nem dos meus filhos. Steven talvez consiga manter as coisas por um tempo, se voltar. Se não, com os pais de Patrick mortos e os meus na Itália, o clã McClellan estará terminado, extinto.
E há o meu bebê. O bebê de Lorenzo.
Passei tempo demais pensando em como tudo era antigamente, em como eu era, mas o futuro sempre permaneceu como um borrão. Isto é, até agora. Agora vejo fantasmas dos anos vindouros, a princípio apenas redemoinhos malformados, depois se fundindo em imagens absolutamente nítidas e coloridas. Eu, balbuciando frases absurdas depois de me injetarem um soro que criei. Eu, com as costas encurvadas e grisalha, arrancando ervas daninhas com uma mão que não reconheço mais. Eu, deitada num catre sob um cobertor fino, tremendo no inverno. Eu, de olhos vazios e, talvez, oscilando no limite entre a consciência e a insanidade, imaginando para onde foram todos. Steven, Sam, Leo, Sonia. O bebê.
Só quando Lorenzo segura meu braço e me puxa para cima percebo que estava sentada no chão do laboratório, as costas apoiadas na fila de baixo de gaiolas de arame.
— Tudo bem, Gianna – diz ele, enxugando as lágrimas dos meus olhos com os dedos. – Está tudo bem.
— Não está. Você sabe disso.
— Vai ficar.
Quero mergulhar no corpo dele, mas me lembro das câmeras.
— Estou bem – digo, me ajeitando. – Vamos continuar com as injeções.
Quando comecei as experiências com animais de laboratório, tinha uma regra de ouro: não dê nomes a eles. Em outras palavras, não pense neles como bichos de estimação; não pense neles como nada além de um modo de ir do ponto A ao ponto B. Pense neles como tubos de ensaio, placas de Petri ou lâminas de microscópio, nada além de veículos inatos para preencher e observar. Enquanto seguro cada camundongo minúsculo para Lorenzo injetar com uma dose que irá curá-lo ou matá-lo, só consigo pensar nos nomes que dei a eles: Jackie. Lin. Jean.