Vox
Seis
Patrick está se sentindo fogoso esta noite, ainda que eu não esteja. Ou isso ou está querendo aliviar o estresse antes de outro dia no emprego que lhe dá dinheiro para abastecer o carro e pagar as consultas das crianças no dentista. Nem mesmo um emprego de alto nível no governo parece suficiente, agora que não estou mais trabalhando.
As luzes na varanda se apagam, os garotos desabam nas suas camas e Patrick despenca na nossa.
— Te amo, amor.
As mãos perambulantes de Patrick dizem que ele não está pronto para dormir. Ainda não. E já faz um tempo desde a última vez. Alguns meses, acho. Talvez mais.
Assim, partimos para a ação.
Nunca fui de falar muito enquanto faço amor. As palavras pareciam desajeitadas; interrupções bruscas de um ritmo natural, de uma cópula básica. E esqueça os mantras pornôs idiotas: Vai, vai mais rápido. Vou gozar. Mete com força. Ai amor, ai amor, ai amor. Isso tinha lugar nos flertes de cozinha ou nas piadas sujas com as amigas, mas não na cama. Não com Patrick.
Mesmo assim nós conversávamos. Antes e depois. Durante. Um eu te amo, seis fonemas suaves, um ditongo, o som nasal, com apenas um t enfático, uma consoante oclusiva, forte, adequada ao cenário. Nossos nomes, sussurrados. Patrick. Jean.
Esta noite, com as crianças na cama e Patrick em mim, sua respiração pesada no meu ouvido, meus olhos fechados para o brilho da lua refletido no espelho da penteadeira, penso no que eu preferiria. Será que estaria mais feliz se ele compartilhasse meu silêncio? Seria mais fácil? Ou será que eu preciso das palavras do meu marido para preencher as lacunas no quarto e dentro de mim?
Ele para.
— Está tudo bem, amor?
Há preocupação na sua voz, mas acho que ouço um traço de outro sentimento, um tom que jamais quero escutar de novo. Parece pena.
Seguro o rosto dele e puxo sua boca para a minha. Com o beijo falo com ele, o tranquilizo, digo como tudo vai ficar bem. É mentira, mas é uma mentira adequada para o momento, e ele não fala de novo.
Esta noite, quero que tudo esteja quieto. Silêncio total. Um vácuo.
Agora estou em dois lugares ao mesmo tempo. Estou aqui, embaixo de Patrick, com o peso dele sobre minha pele, fazendo e não fazendo parte dele ao mesmo tempo. Estou no meu outro eu, tentando abrir os botões do vestido do baile de formatura do ensino médio no banco de trás do Grand National de Jimmy Reed, a maior viatura do sexo que já existiu. Estou ofegando, rindo e tonta de ponche enquanto Jimmy tateia e agarra. Então estou cantando no coral da escola, torcendo para nosso time de futebol americano sem grandes destaques, fazendo o discurso na cerimônia de formatura da faculdade, gritando palavrões para Patrick quando ele me diz para fazer força só mais uma vez, amor, antes de a cabeça do bebê aparecer. Estou num chalé alugado, dois meses atrás, deitada sob o corpo de um homem que quero desesperadamente ver de novo, um homem cujas mãos ainda posso sentir na minha pele.
Lorenzo, sussurro na minha mente antes de empurrar as três sílabas deliciosas para longe, para que não doam demais.
Meu eu está ficando cada vez mais fragmentado.
Em ocasiões assim, penso nas outras mulheres. Na Dra. Claudia, por exemplo. Uma vez, no consultório dela, perguntei se as ginecologistas gostam mais de sexo do que nós ou se elas se perdem na natureza clínica do ato. Será que se deitam e pensam: Ah, agora minha vagina está se expandindo e se alongando, agora meu clitóris está se retraindo, agora o primeiro terço (mas só o primeiro terço) das paredes vaginais está se contraindo com uma pulsação a cada oito décimos de segundo.
A Dra. Claudia tirou o espéculo num movimento suave e respondeu: – Na verdade, quando entrei para a faculdade de medicina, era exatamente isso que eu fazia. Não dava para evitar. Graças a Deus meu parceiro também estudava medicina; caso contrário, acho que ele teria se vestido e ido embora, me deixando rindo histérica embaixo dos lençóis. – Ela deu um tapinha no meu joelho e tirou um pé, depois o outro, dos estribos cobertos de pelúcia cor-de-rosa. – Agora eu simplesmente curto. Como todo mundo.
Enquanto estou pensando na Dra. Claudia e seu brilhante espéculo de aço, Patrick chega ao orgasmo e desmorona em cima de mim, beijando minhas orelhas e meu pescoço.
Imagino o que as outras mulheres fazem. Como elas lidam com isso. Será que ainda encontram alguma coisa para curtir? Será que ainda amam os maridos como antes? Será que os odeiam, nem que seja só um pouquinho?