Vox
Cinquenta e Oito
Dizem que o mal não descansa, por isso nenhum de nós dorme esta noite. Vou para a sala e pego minha pasta, a que tem o X vermelho, que escondi de Morgan apenas dois dias atrás, e levo para o escritório de Patrick.
Ele está me esperando no escuro, mas acende a luminária da escrivaninha quando entro.
Página por página, Patrick examina os dados. Para na seção que contém fórmulas escritas na letra bonita, europeia, de Lorenzo.
— Você fez isso?
Balanço a cabeça, depois percebo que ele não pode me ver.
— Não. Lorenzo.
— Aham.
— O quê? – pergunto, me esforçando para ler à luz fraca.
— É uma coisa linda.
Eu entendia, e ainda entendo, um pouco do trabalho de Lorenzo, mas Patrick tem a formação em bioquímica para processá-lo. Ele lê cada anotação, cada comentário rabiscado, os lábios se movendo enquanto vai de página em página. Quando chega ao fim da quarta página, vira-a, colocando o papel sobre os outros, voltado para baixo.
Não sou suficientemente rápida.
A cabeça de Patrick se move um pouquinho à esquerda, para longe da página cinco das anotações de Lorenzo, e seu olhar pousa no verso da folha anterior.
Patrick e eu trabalhamos de modo diferente. Minhas mesas sempre foram atulhadas de coisas desnecessárias: uma foto emoldurada, um pacote de chiclete, creme para as mãos, canetas e lápis além do que preciso. Em consequência eu examino a papelada pegando a folha de cima e colocando na parte de baixo da pilha. Patrick, com uma mesa estéril feito um piso de hospital, faz duas pilhas, uma lida e uma não lida, virando cada página terminada e colocando-a à esquerda.
E é por isso que nunca vi o que Lorenzo escreveu no verso da página quatro.
Parece um poema, mas não muito estruturado. Os versos são cortados aqui e ali, uma palavra numa linha, depois uma pausa, em seguida uma frase. De onde estou sentada, diante de Patrick, é impossível ler o texto de cabeça para baixo, mas identifico o título com bastante clareza.
A Gianna.
— Ah… – diz Patrick.
Seu italiano é tão fluente quanto seu suaíli, por isso sei que não vai entender nada. Mas há certas palavras que entregam: amore, vita, meu nome. Ele tira os óculos de leitura e olha para mim do outro lado da mesa. A luz da luminária mostra cada ruga em seu rosto.
— Ele está muito apaixonado por você.
— É.
— É mútuo?
Hesito, e acho que é isso que me entrega, ali no escuro, ainda que meu rosto não deva ser nada mais do que uma silhueta vaga.
— Certo – diz ele. – Certo.
Como se tudo estivesse certo.
— Que tal você fazer um café, amor? – pede ele.
— Claro.
Sei que ele precisa de um minuto, talvez de vários.
Na cozinha meço cinco colheres de café forte, encho o reservatório com água e olho a cafeteira pingar lágrimas pretas na jarra vazia. Quando o café está pronto – quando eu estou pronta –, coloco, numa bandeja, canecas e açúcar, assim como leite de uma caixa quase cheia, uma lembrança medonha de que Steven foi embora. E volto ao escritório.
Se Patrick chorou ou não, não dá para saber. Agora ele se porta de modo totalmente profissional, tomando notas e examinando símbolos estequiométricos esquecidos num livro de química que ele abriu na mesa.
— E então? – pergunto.
Ele balança a cabeça.
— Parece reversível, até fácil, mas não sei fazer. Para começo de conversa, eu não tenho um laboratório. Em segundo lugar, faz vinte anos que trabalhei em um. E o seu… – Ele faz uma pausa, se corrigindo. – E Lorenzo? Afinal, ele é o pai dessas equações, não é?
Ao ouvir a palavra “pai”, meu café desce pelo lugar errado.
— Certo. E o problema de solubilidade em água?
Patrick chega a sorrir.
— Essa é a parte brilhante. Ele já é solúvel em água, pelo menos para nossos propósitos. Presumindo que você não se incomode com efeitos colaterais indesejados.
Ele aponta para o trabalho final de Lorenzo, a chave cognitiva que, quando virada na fechadura de células do giro temporal superior do hemisfério esquerdo do cérebro, abrirá a porta para a recuperação. Ou, no caso do antissoro, cria uma sala cheia de caos de palavras.
Sei o que Patrick quer dizer, e não me importo com qualquer efeito colateral de uma aplicação sistemática da droga, não quando estamos falando do sistema do reverendo Carl Corbin. Ou do presidente.
— Acha que ele pode ter isso pronto até segunda-feira de manhã? – pergunta Patrick.
— É pouco tempo.
— É para quando a próxima reunião de todo o pessoal do Projeto Wernicke está marcada. Todo o pessoal do seu prédio vai estar na Casa Branca.
— O reverendo Carl também?
Patrick assente.
— Ele também.
Certo, penso. Segunda-feira. O relógio na mesa de Patrick marca 6h41.