Vox

Christina Dalcher · Capítulo 11 de 80

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Vox

Onze

 

Merda.

Três carros significam pelo menos três homens. Algo me diz que eles não estão trazendo presentes. Hoje não, principalmente depois do meu ato no quintal dos fundos ontem à noite.

Haverá um sermão. Talvez mais do que isso.

A senhora tem o direito de permanecer calada… Ok, piada ruim.

Solto as persianas e retorno à cozinha, pronta para exibir minha melhor cara de dona de casa (um avental terá de bastar) e ser a própria imagem da bem-aventurança doméstica. No caminho, pego o controle remoto da TV e mudo de canal, do golfe para a CNN. O canal não é como antigamente – nada é –, mas o emprego de Patrick pode ter mais chance de permanecer intacto se acharem que andei recebendo uma overdose de propaganda presidencial em vez de assistir a bolas voando sobre campos de golfe bem cuidados.

Notícia de última hora: o presidente anuncia…

É só isso que consigo ouvir antes que Patrick e seus acompanhantes – eu estava errada, são seis – invadam meu espaço.

— Jean McClellan? – diz o primeiro sujeito de terno, um homem bronzeado com um rosto anguloso.

Já o vi antes, claro. Todo mundo viu, só que durante as aparições públicas ele costumava usar um daqueles colarinhos clericais pretos e brancos em vez de gravata. Nas manhãs de domingo, enquanto Jackie e eu engolíamos café para espantar uma ressaca de fim de semana, ele aparecia na TV, astro de seu próprio programa. Jackie assistia todas as vezes como se fosse uma das ovelhas do rebanho; dizia que isso aumentava sua raiva.

— Escute. São Carl vai começar o show outra vez.

E ali estava ele em seu uniforme de pastor, pregando sobre a queda da família americana numa semana, o júbilo de se entregar a Deus na outra. Gostava de receber histórias, experiências da vida real, e a faixa na parte de baixo da tela de TV sempre mostrava o mesmo número para ligações grátis. Alguns anos depois ele acrescentou um segundo número; nos últimos tempos havia links do Facebook e, depois, uma conta no Twitter. Deus lhe havia mandado um rebanho, dizia ele, e ele cuidaria disso usando qualquer meio que o Senhor proporcionasse.

Na época, Jackie e eu imaginávamos que só algumas centenas de batistas sulistas do Mississippi seguissem o reverendo Carl Corbin.

É uma merda estar errada.

— Dra. Jean McClellan?

Bom, isso é diferente. Eu não sou “Dra.” desde a primavera passada. Além disso, Patrick está sorrindo.

Eu assinto, porque não posso falar.

Na sala, na televisão, um dos apresentadores diz duas palavrinhas mágicas: trauma cerebral.

Só essas palavras, essas cinco sílabas, bastariam para me deixar de orelha em pé, mas as palavras que as cercam me acertam como um trem descarrilhado. Presidente. Acidente de esqui. Irmão.

— Dra. McClellan, nós temos um problema.

É o reverendo Carl de novo. Pessoalmente, sua pele parece menos pastosa do que quando está na frente da câmera, falando pelo presidente. Ainda assim, tem uma aparência porosa esquisita.

— Ótimo. Resolva – digo. – O que eu sou, a porra de Houston?

Não, não digo isso. Não digo nada.

— Jean – fala Patrick. Não “amor”, não “querida”, nenhuma dessas expressões carinhosas que os casais compartilham. Agora ele se porta de forma totalmente profissional. – Jean, aconteceu uma coisa.

Na televisão, a CNN está histriônica. Entre imagens ao vivo de alguma montanha coberta de neve, Aquele Que Governa o Mundo Livre surge, a própria imagem da solenidade. Anna está ao lado dele, linda em seu conjunto azul e bege. Parece que está sorrindo, ainda que somente com os olhos.

O reverendo Carl sinaliza para um dos outros, que entra na minha cozinha. Não gosto dessa intromissão; se devo ser uma dona de casa silenciosa, pelo menos me deixe manter algum refúgio doméstico que seja só meu.

— Vá em frente, Thomas – diz o homem que está no comando.

E então a coisa mais surpreendente acontece.

Thomas, de terno escuro e semblante sombrio, estende a mão na direção da minha mão direita. Retraio-me instintivamente, como um cão-selvagem que conhece a dor de uma armadilha, mas Patrick vem até mim.

— Tudo bem, querida. Deixe que eles façam isso.

Com a mão livre, Thomas pega uma chavinha. É como uma chave de elevador, um daqueles negócios redondos e com função única, que não parecem ter motivo para existir a não ser num elevador, uma ferramenta que traz à mente todas as outras invençõezinhas idiotas: abridores de lata, espremedores, boleadores. Coisas que têm apenas uma serventia. Temos muitas delas.

Onde a gente arranja essas merdas? Chás de panela e presentes de casamento, lembrancinhas de Natal, compras de última hora na Ikea. Todas são praticamente inúteis, ficam escondidas no fundo das gavetas da cozinha, consideradas óbvias e jamais usadas. É isso que passa pela minha mente quando Thomas me liberta com o equivalente tecnológico de um abridor de lata.

— Pode falar agora, Dra. McClellan.

O reverendo Carl estende a mão na direção da minha sala, como se tivesse se transformado num anfitrião magnânimo.

Não é a única reversão de papéis no dia de hoje. Tudo que eles querem está sendo transmitido pela CNN como a história do acidente de esqui do irmão do presidente. À medida que mais detalhes são informados – hemisfério esquerdo posterior, alerta mas incapaz de se comunicar, balbuciando –, descubro o que mais o reverendo Carl e seu pessoal querem.

Eles me querem.

Se fosse Anna Myers que tivesse se desviado da pista de esqui e dado de cara numa árvore, eu sairia pela porta sem pensar duas vezes – mesmo duvidando de que haveria homens vindo em utilitários se fosse a esposa do presidente que estivesse internada na UTI.

— O que os senhores querem que eu fale?

Minhas palavras brotam lentamente, hesitantes, enquanto eu saio da cozinha, desligo a televisão ao entrar na sala e me sento numa poltrona. Não quero ter de dividir o espaço com nenhuma dessas pessoas.

— Está quente hoje – diz o reverendo Carl, olhando para a geladeira com dispensador de água e gelo.

— É verdade – concordo.

Um dos outros homens, não Thomas, tosse.

Capto a deixa.

— Patrick, querido, por que não pega um copo d’água para nossos visitantes, já que você está de pé?

Ele obedece, e nenhum de nós deixa de perceber o ligeiro balanço da cabeça do reverendo Carl. Eu sou a esposa. Eu é que deveria servir.

— E então? – digo. – Parece que Bobby Myers pode estar com dano cerebral. Foi o locus coeruleus?

O reverendo Carl se ajeita no pequeno sofá que fica de frente para a minha poltrona.

— Você é o homem da área médica, Patrick. Mostre a ela os relatórios que o hospital mandou por fax hoje de manhã.

Meu marido, que aparentemente é íntimo do indivíduo que colocou aquela algema de metal em mim, entra na sala trazendo uma bandeja com copos d’água e uma pasta de papel fina. Para à minha frente antes de entregar os copos.

— Acho que você vai se interessar, Jean.

E me interesso mesmo. A primeira página é toda de texto, e na segunda linha meus olhos encontram o motivo para a visita inesperada do reverendo Carl: lesão na seção posterior do GTS. Giro temporal superior. Hemisfério esquerdo. O paciente é destro, portanto o hemisfério esquerdo é dominante.

— Área de Wernicke – digo em voz alta.

Enquanto continuo lendo, meu braço esquerdo parece leve e há uma faixa de pele mais clara no pulso, como se eu tivesse tirado o relógio antes de mergulhar numa piscina. Um dos homens do serviço secreto – presumo que eles sejam isso, dada a presença de Carl Corbin – esfrega o próprio pulso. Ele usa uma aliança de ouro no dedo anelar da mão esquerda, por isso conhece a sensação. Não está clara qual é sua especialização; como Patrick, todos são treinados para seguir ordens, como cachorrinhos.

O reverendo Carl assente.

— O presidente está muito preocupado.

Claro que está. Penso que o Sr. Presidente confia bastante no irmão mais velho. E terá uma tremenda dificuldade para passar informações a Bobby ou recebê-las dele. Trechos de conversas futuras passam na minha mente: Há uma situação no Afeganistão, Bobby, dirá o presidente.

A reação de Bobby será algo do tipo Belos brilhos nas chamas da sua banana. A fala será precisa e fluida, cada sílaba articulada perfeitamente e sem hesitação. O que sairá será uma algaravia completa: não em código, não um discurso entrecortado, mas as incoerências de alguém que antigamente chamávamos de idiota, no sentido clínico da palavra, claro.

Preciso me esforçar para não sorrir. Preciso morder a parte interna da bochecha – com força – para manter a aparência adequada de seriedade, preocupação e dever.

Folheio as páginas seguintes. As imagens de ressonância magnética mostram uma lesão substancial exatamente onde espero, na área de Brodmann 22.

— Isso foi devido a um acidente de esqui? Sem indicação de danos anteriores?

Claro que eles não sabem. Homens de 54 anos não têm o hábito de fazer ressonâncias cerebrais, a não ser que haja um motivo.

— Ele sofria de dores de cabeça?

O reverendo Carl dá de ombros.

— Isso é sim ou não, reverendo?

— Não tenho essa informação.

Agora me viro para Patrick, mas ele balança a cabeça.

— Você precisa entender, Jean. Não podemos divulgar o histórico médico da família do presidente.

— Mas querem que eu ajude.

— A senhora é a principal especialista do país, Dra. McClellan.

O reverendo Carl intervém, inclinando-se por cima da mesinha de centro. Seu rosto anguloso está a centímetros do meu. Apesar de ter um quê de personagem de anime, ele é bonito. Ainda está usando o paletó do terno, apesar do calor, mas por baixo do tecido há uma estrutura sólida. Imagino se mulheres como Olivia King estão secretamente apaixonadas por ele.

A chance de corrigir seu tempo verbal é boa demais para deixar passar.

— Era. Não preciso lhe dizer que não trabalho há um ano.

O reverendo Carl não reage, apenas se recosta e junta as pontas dos dedos das duas mãos, formando um triângulo isósceles perfeito. Talvez ele treine isso na frente do espelho.

— Bom, é por isso que estamos aqui hoje.

Ele faz uma pausa, como costumava fazer durante seus sermões televisivos, com um pouco de suspense teatral.

Mas já sei o que ele vai dizer. Meu olhar vai dos olhos dele para os de Patrick e dos outros homens na sala.

— Dra. McClellan, gostaríamos de tê-la na nossa equipe.