Vox
Quarenta e Cinco
Julia King não foi a primeira garota a ser vítima da polícia de fornicação do reverendo Carl, e Olivia não foi a primeira mãe que viu a filha ser levada no meio da noite para reaparecer na TV, transformada, no dia seguinte.
E Olivia também não foi a primeira mulher a tentar escapar. Eu as vi no mercado, as freguesas de sempre que desaparecem e voltam depois de uma semana, com o olhar meio entorpecido, os curativos nos pulsos surgindo por baixo das mangas quando levantam a mão para pegar uma lata de ervilhas ou sopa de frango numa prateleira alta.
E houve enterros, claro, nem todos de homens e mulheres idosos que morreram de causas naturais.
O carro de Evan ainda estava na garagem hoje cedo, quando saí com Sonia. Presumi que ele tinha permanecido para consolar a esposa – não que eu acredite que Evan seja capaz de dar muito consolo. Talvez tenha permanecido para vigiá-la até que fossem tomadas as providências para prevenir qualquer tipo de suicídio ou que Olivia ficasse dopada o suficiente para não cair em tentação.
Paro e mando Sonia para dentro de casa assim que a maca sai pela porta da frente dos King.
— Vá para a sala de TV assistir a alguma coisa com seus irmãos, está bem?
— Por quê?
Por quê? Porque o corpo de Olivia King está naquela maca.
— Porque eu mandei, filha. Agora.
Eu estava certa. Vejo o rosto descoberto e sereno. O braço esquerdo pende abaixo do lençol branco.
Ou o que resta do braço.
Os dedos são cinco cotocos queimados, pretos, com tecido necrosado que sobe pela palma até o pulso, ou o que restou do pulso. Acho que até uma das pulseiras de quando Sonia era pequenina ficaria frouxa nele, batendo no osso exposto. Um odor acre enche o ar, e fiapos de fumaça saem pela porta da frente.
Ah, meu Deus…
A nossa porta de tela se abre com barulho e Patrick me segura a tempo, justo quando meus joelhos cedem.
— Tudo bem. Não olhe, Jean. Não precisa ver essas coisas.
Coisa. É sempre uma coisa.
Dentro de casa ele me serve uma bebida e diz que as crianças estão assistindo a um vídeo.
— Nada de televisão hoje. Não depois… – Ele faz uma pausa. – Conto mais tarde. Beba isso.
— O que aconteceu com ela? – Minha voz está fina, esganiçada.
Tomo um gole de uísque, que desce queimando. Patrick também se serve de uísque – não sua cerveja de sempre – e se apoia na bancada da cozinha.
— Evan disse que tinha pensado em tudo. Trancado todas as facas, qualquer coisa afiada. Tirou tudo que ela poderia usar como corda, até desligou a eletricidade.
— Bem pensado.
Mas se esqueceu de alguma coisa, não foi?
— Depois do almoço, Olivia disse que ia dormir um pouco. Por isso ele arrumou a cama e tirou do quarto tudo que ela pudesse… você sabe, usar. Ah, meu Deus, Jean. Não consigo continuar. – Ele toma um grande gole de uísque. – Certo. Ela tinha um gravador pequeno, saca? Um daqueles ditafones, talvez de quando trabalhava como secretária, não sei. Evan a ouviu falando quando foi ver como ela estava, mas Olivia não disse muita coisa, só algumas palavras sobre Julia. Umas vinte. Então ela ficou quieta e ele achou que Olivia estivesse dormindo. Você não quer ouvir o resto, Jean. Juro que não quer.
— Eu preciso ouvir.
Patrick toma mais um gole para ganhar coragem, e continua: – Evan foi à garagem pegar umas caixas, acho, talvez para guardar as facas ou algo assim. Ele não disse. Estava lá há uns dez minutos quando viu a fumaça saindo da janela do quarto. Eles sempre deixavam uma fresta aberta, apesar do calor. Parece que gostavam do ar puro. Não sei, Jean. – A voz de Patrick começa a falhar.
— Tudo bem – digo, pondo a mão sobre a dele.
Ele vira a garrafa de novo.
— Ela gravou vinte palavras e botou o gravador para repeti-las sem parar. Colocou o aparelho fora do alcance. Se ao menos sabia o que estava fazendo depois dos primeiros choques, não pôde alcançar a máquina para desligar.
— Ah, não…
Patrick tomba contra a bancada, a cabeça nas mãos, ainda falando, apesar de a voz sair num sussurro: – Evan disse que, quando entrou no quarto, a gravação ainda estava tocando. As mesmas palavras, repetidamente. “Sinto muito, Julia.” E o tempo todo aquilo a estava queimando, aquele maldito monstro de metal no pulso, consumindo a pele até… até…
Ponho um pano de prato embaixo da torneira, embrulho alguns cubos de gelo nele e o coloco na nuca de Patrick.
— Shh. Fique parado um minuto.
— Quando foi que ficou tão ruim, Jean? Nós estamos fazendo tudo que podemos. Mas quando foi que ficou tão ruim, porra?
Nós.
Um gemido… Não, um soluço alto, como um animal agonizante, vem da sala. Deixo Patrick na bancada, com a toalha em sua cabeça imóvel, atravesso a sala de jantar e estico o pescoço na direção da janela.
Steven está ali, olhando a ambulância dar marcha a ré, descendo a entrada de veículos dos King, e vai embora tocando a sirene. Os ombros do meu filho estremecem num padrão espasmódico, sem ritmo.
— Ela vai ficar bem – digo, chegando perto dele, mas ainda mantendo alguma distância.
— Nada está bem!
Não é a hora certa para falar sobre plantar vento e colher tempestade, por isso fico quieta.
— Você não faz ideia, mãe. Você não faz ideia do que falaram sobre ela hoje.
Ele assistiu a tudo na escola, a transmissão com Julia e o reverendo Carl.
— Sobre a Julia?
Steven se vira, e seu rosto é uma imagem do horror, pálido e abatido, os olhos inchados. Seu nariz está escorrendo e ele o limpa com a manga da camisa.
— Quem você acha?
De repente ele tem cinco anos de novo, fungando e chorando por causa de um joelho ralado ou a palma da mão machucada quando tombou com a bicicleta e derrapou. Nem um pouco o adolescente carrancudo de dezessete anos.
— Quer falar sobre isso?
— Não foi como no dia em que viram a dona que morava no fim da rua. Você se lembra dela? A Sra. Wilson? Enquanto ela estava na televisão, eles só bocejaram. – Outra fungada, outra manga limpando o nariz. – Talvez porque ela era velha ou porque não a conheciam. Mas todos conheciam Julia. Nós todos estudávamos juntos antes… antes de a coisa toda mudar.
— A coisa – repito.
— Ela apareceu na tela, e o Sr. Gustavson disse que era o tipo de garota para a qual todos nós deveríamos ficar alertas, porque tinha o demônio e iria arrastar a gente para baixo. Saca, tipo, pro inferno.
— Meu Deus, Steven.
Ele está se recompondo, respirando fundo e firmando a voz.
— Sabe o que ele disse?
Acho que não quero saber.
— Não. O quê?
— Disse que a gente nunca deveria xingar as mulheres de coisas feias, chamá-las de prostituta, vagabunda ou puta. Mas então falou que algumas mereciam ser chamadas assim. Como Julia. Por isso ele fez a gente xingá-la enquanto Julia estava na televisão. Ela parecia tão pequena, mãe! Tão triste! E cortaram todo o cabelo dela. Todo. Tipo corte de fuzileiro. O Sr. Gustavson disse que isso era bom. Era o que faziam com os hereges na Inquisição espanhola e com as bruxas de Salém.
Steven começa a rir, quase gargalhando. É um riso histérico.
Ele continua:
— E foi ficando pior. Ele andou pela sala, rindo, e entregou um pedaço de papel com o lixo mais imundo escrito. Você se lembra daquela lista antiga sobre as sete palavras sujas? Bom, elas estavam lá, e mais umas cinquenta. Ele queria que a gente pegasse os cadernos e escrevesse uma carta, uma carta de cada um de nós, para Julia King, usando o máximo de merdas que a gente conseguisse inventar. A gente deveria dizer que ela merecia qualquer coisa que sofresse, que se divertisse ferrando as costas nas plantações.
Não me encolho quando Steven diz “merdas”. Comparado com todo o resto que ele está falando, o palavrão parece um maldito acalanto.
— Você fez isso?
— Eu tive que fazer, mãe. Se não fizesse, todos iriam pensar… – Ele para, e um sorriso se esgueira pelo canto da sua boca. – O mal triunfa quando homens bons não fazem nada. É o que dizem, não é?
Steven captou a essência das palavras de Burke, ainda que não as palavras exatas. Mas sei o que ele quer dizer, e assinto.
Jackie gostaria disso.