Vox
Sessenta e Três
Uso o telefone de Lorenzo para entrar em contato com Patrick e dizer que estou indo para casa. Lorenzo, claro, ainda tem celular; eu, não.
Você teria se estivesse na Itália, digo a mim mesma, mas afasto o pensamento da cabeça. Não posso pensar nisso agora. Não posso pensar em nada, a não ser em entrar no carro e tirar esse veneno de dentro de mim.
— Então… – fala Lorenzo, segurando meu pulso esquerdo e acariciando a velha queimadura com o polegar. – Preciso ir, você sabe. Enquanto ainda há tempo.
— Sei.
Ele se afasta e abre a porta do carona do seu carro. Tira do porta-luvas um envelope fino e me entrega.
— Isso é para você.
Parece um passaporte e algo mais, chato e duro. Imagino que seja um celular.
— Me dê um segundo – peço.
Fecho a porta e levanto a saia, me livrando do embrulho de látex e colocando-o dentro de um copinho com canudo, de Sonia. Ela já tem idade para não usar canudo, mas suco num copo de plástico sempre foi uma boa alternativa a suco espalhado por todo o para-brisa do Honda. Fecho a tampa e suspiro de alívio.
— Jean!
Morgan está correndo até nós, os braços estendidos, frenético. O soldado atrás dele dá passos comedidos, os braços relaxados, a não ser pelo cotovelo esquerdo e a mão espalmada, perto demais da arma. É a própria imagem da disciplina militar. Morgan tem sorte de não estar por aqui na era dos alistamentos obrigatórios. O cara provavelmente morreria em sua primeira trincheira. Isto é, se o seu pelotão não acabasse com ele antes.
O envelope de Lorenzo vai para baixo do banco do carro, como se a mão de outra pessoa estivesse obedecendo a instruções de um cérebro estranho. De modo automático, abaixo a mão, escondendo a prova antes que Morgan, agora junto da janela, me pegue com o passaporte da esposa morta de Lorenzo. Não sei qual é a pena por andar com documento de identidade falso e não estou ansiosa para descobrir.
O soro, infelizmente, precisa ficar onde está por mais um tempinho.
— Precisamos de você lá dentro – diz Morgan.
— Por quê? – pergunto, ligando o motor do Honda e fingindo ignorância. – Se esqueci alguma coisa, posso vir buscar amanhã. Não vi meus filhos durante todo o fim de semana.
Só então me ocorre por que querem que eu volte para dentro. O projeto acabou, assim como minha liberação do silêncio.
Morgan enfia a mão pequena e rosada pela janela. Lorenzo se coloca entre nós na mesma hora.
— Deixe ela ir – manda Lorenzo.
O soldado não se moveu, a não ser para sacar a arma. Não sei merda nenhuma sobre armas, mas sei o suficiente para entender onde isso pode acabar se eu não assumir algum controle. Depressa.
— Enzo, você precisa ir embora – peço, vendo em seus olhos que ele não tem nenhuma intenção de sair de sua posição entre a dureza daquele cano de aço e minha janela aberta. Ele comprova minha percepção.
— Nenhum dos dois vai embora – diz Morgan.
O relógio no meu painel leva uma eternidade para passar de 13h36 para 13h37.
— Certo. – Tiro as mãos do volante. – Estou desligando o carro. – Com a mão esquerda ainda no ar, desligo o motor usando a direita. – Está bem? Posso sair agora?
Morgan, que se encolheu o mais para longe possível da linha de tiro, sinaliza para o soldado e a arma baixa ligeiramente. Ela não volta para o coldre enquanto abro a porta do carro.
Morgan guia os três pelo estacionamento. Sinto pouco consolo em saber que Lorenzo está alguns passos atrás de mim, um escudo vulnerável entre várias balas e meu corpo. Passamos pelo posto de segurança e somos arrebanhados até um elevador. Em vez de apertar o botão para o subsolo, Morgan insere seu crachá e aperta SS2, subsolo 2.
Encaro Lorenzo. Meu olhar é uma mistura de dúvida, medo e derrota enquanto a porta se abre. Ele põe a mão na base das minhas costas, me firmando, e seguimos Morgan, com o soldado atrás de nós, imóvel e silencioso, mas definitivamente presente.