Vox
Cinco
Nada disso é culpa de Patrick. É o que digo a mim mesma hoje.
Ele tentou se manifestar quando o conceito reverberou pela primeira vez nas paredes côncavas de uma sala azul num prédio branco na Pennsylvania Avenue. Sei que tentou. É difícil não ver o pedido de desculpas em seus olhos, mas protestar nunca foi seu forte.
E não foi Patrick que fez chover votos para Sam Myers antes da última eleição, não foi ele o homem que prometeu mais votos ainda na próxima vez que Myers se candidatasse. O homem que, anos antes, Jackie gostava de chamar de São Carl.
Tudo que o presidente precisava fazer era ouvir, obedecer a instruções e assinar umas merdas – um pequeno preço a pagar por oito anos como o homem mais poderoso do mundo. Mas quando ele foi eleito não restava muita coisa para assinar. Cada detalhe demoníaco já estava encaminhado.
Em algum momento, o que era conhecido como Cinturão da Bíblia, o conjunto de estados sulistas onde a religião era influente, começou a se expandir. Transformou-se de cinturão em espartilho, só não cobrindo os membros do país – as utopias democráticas da Califórnia, Nova Inglaterra, o noroeste do Pacífico, o Distrito de Colúmbia, as jurisdições sulistas do Texas e da Flórida –, lugares tão distantes no espectro democrata a ponto de parecer intocáveis. Mas o espartilho acabou se transformando num macacão de corpo inteiro, alcançando até o Havaí.
E nós não previmos nada disso.
Mulheres como Jackie previram. Ela chegou a liderar uma passeata dos dez membros do grupo Ateus pela Anarquia em volta do campus, gritando profecias ridículas como Alabama agora, Vermont em seguida! E Não o seu corpo… um corpo PURO! Jackie não estava nem aí para as pessoas que riam dela.
— Fique de olho, Jeanie – disse ela. – Ano passado 21 mulheres faziam parte do Senado. Agora só temos 15 senadoras naquela porra de recinto divino. – Ela levantou a mão e começou a contar nos dedos, uma por uma. – Virgínia Ocidental. Não foi reeleita. Iowa. Não foi reeleita. Dakota do Norte. Não foi reeleita. Missouri, Minnesota e Arkansas renunciaram por “motivos desconhecidos”. A representação feminina caiu de 21% para 15% em menos de um ano. E correm boatos de que Nebraska e Wisconsin tendem a eleger candidatos que… estas são as palavras exatas: “têm em mente o bem do país”.
Antes que eu pudesse impedi-la, ela citou os números da Câmara: – Caíram de 19% para 10%, e isso somente por causa da Califórnia, de Nova York e da Flórida. – Jackie fez uma pausa para se certificar de que eu estava escutando. – Texas? Nada. Ohio? Nada. Todos os estados do Sul? A porra do vento levou, é isso aí. E você acha que é coincidência? Quero dizer, a gente vai voltar ao início dos anos noventa depois da próxima eleição de meio de mandato. Se a representatividade tornar a cair pela metade de novo, vamos retornar à idade das trevas de 1970 e poucos.
— Honestamente, Jacko… Você está ficando histérica.
Suas palavras dispararam como flechas envenenadas: – Bom, alguém precisa ficar histérica por aqui.
A pior parte de tudo era que Jackie estava errada. Nós não diminuímos de 20% para 5% de mulheres no Congresso. Nos quinze anos seguintes, fomos reduzidas a praticamente zero.
Nessa última eleição chegamos até mesmo àquele objetivo impensável, e a previsão de Jackie de voltar ao início dos anos noventa parecia sólida – se a pessoa estivesse se referindo ao início da década de 1890. O Congresso tinha toda a diversidade de um pote de sorvete de baunilha, e as duas mulheres que ainda possuíam mandatos foram substituídas rapidamente por homens que, nas palavras de Jackie, “tinham em mente o bem do país”.
O Cinturão da Bíblia havia se expandido, espalhado e crescido até se transformar numa Dama de Ferro, numa câmara de tortura.
Mas o que ela precisava era de um punho de ferro, de um braço executor. De novo, Jackie foi clarividente.
— Espere só, Jeanie – disse ela enquanto fumávamos cigarros de cravo baratos na única janela do nosso apartamento. Ela apontou para as cinco fileiras bem organizadas de estudantes marchando. – Está vendo aquele pessoal do CPOR?
— Estou – respondi, exalando fumaça pela janela, com uma lata de odorizador de ambientes a postos para o caso de a senhoria aparecer. – O que é que tem?
— Quinze por cento pertencem a algum tipo de grupo batista. Vinte por cento são católicos. Quase outros quinze dizem que são cristãos não confessionais, o que quer que isso signifique.
Ela tentou fazer alguns anéis de fumaça e observou-os dançar para fora da janela.
— E daí? Com isso resta o quê? Quase metade é de agnósticos.
Jackie gargalhou.
— Ficou sem espaço no cérebro, Jeanie? Eu nem mencionei os mórmons, os metodistas, os luteranos ou a Conferência Cristã do Rio Tioga.
— Rio o quê? São quantos?
— Um. Acho que está na Força Aérea.
Agora foi minha vez de rir. Engasguei com um trago mais longo, apaguei o cigarro e me envolvi em spray odorizador.
— Então não é grande coisa.
— Ele não é. Mas os outros são. É uma organização com enorme peso religioso. – Jackie se inclinou pela janela, para ver melhor. – E são principalmente homens. Homens conservadores que amam seu Deus e seu país. – Ela suspirou. – As mulheres, nem tanto.
— Isso é ridículo – falei, deixando-a destruir o outro pulmão com um segundo cigarro. – Eles não odeiam mulheres.
— Você precisa sair mais, garota. Que estados você acha que têm as maiores taxas de alistamento? Dica: não é a porra da Nova Inglaterra. Eles são os bons e velhos rapazes.
— E daí? – Eu sabia que a estava exasperando, mas não conseguia enxergar a conexão que Jackie tentava fazer.
— E daí que eles são conservadores. Na maioria brancos. Na maioria héteros. – Jackie apagou o cigarro de cravo ainda na metade, enrolou-o num saquinho plástico e me encarou com os braços cruzados. – Quem você acha que são os mais irritados agora? No nosso país?
Dei de ombros.
— Os afro-americanos?
Ela fez um som de campainha, tipo “você perdeu mas temos lindos prêmios de consolação”.
— Tente de novo.
— Os gays?
— Não, sua tonta. Os brancos héteros. Estão morrendo de raiva. Acham que sua masculinidade está sendo afetada.
— Fala sério, Jacko.
— Estou falando sério. – Jackie apontou uma unha roxa para mim. – Espere só. Daqui a alguns anos vai ser um mundo diferente se a gente não fizer alguma coisa. Expansão do Cinturão da Bíblia, uma representação de bosta no Congresso e um bando de garotinhos famintos por poder que estão cansados de ouvir dizer que precisam ser mais sensíveis. – Então ela deu um riso maligno que sacudiu todo o seu corpo. – E não pense que serão todos homens. As Recatadas do Lar vão estar do lado deles.
— Quem?
Jackie apontou para meu moletom e meu cabelo despenteado de quem acabou de acordar, para a pilha de pratos do dia anterior na pia e, finalmente, para a própria roupa. Era uma das criações de moda mais interessantes que eu a via usar em um bom tempo: calça legging estampada, um suéter de crochê enorme que antes era bege mas agora havia adquirido a cor de várias outras peças de roupa, e botas roxas de salto agulha.
— As Recatadas do Lar. Aquelas garotas com saias e suéteres iguais e sapatos discretos indo para seus cursos de dona de casa. Você acha que elas são como a gente? Não mesmo.
— Qual é, Jackie!
— Espere para ver, Jeanie.
E eu esperei. Tudo acabou acontecendo mais ou menos do jeito que Jackie achou que aconteceria. Até pior. Foi uma conjunção de forças tão silenciosa que nem tivemos chance de organizar nossas fileiras.
Uma coisa eu aprendi com Jackie: você não pode protestar contra o que não vê se aproximar.
Aprendi outras coisas nesse último ano. Aprendi como é difícil escrever uma carta para meu congressista sem ter uma caneta, ou postar uma carta sem ter selo. Aprendi como é fácil para o vendedor da papelaria dizer “Sinto muito, senhora, não posso vender isso para você”, ou para o trabalhador dos correios balançar a cabeça quando uma pessoa sem o cromossomo Y pede selos. Aprendi com que rapidez uma conta de celular pode ser cancelada e como os rapazes alistados podem ser eficientes em instalar câmeras.
Aprendi que, assim que um plano é estabelecido, tudo pode acontecer da noite para o dia.