Vox

Christina Dalcher · Capítulo 72 de 80

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Vox

Setenta e Dois

 

 

Um contato íntimo e pessoal com um primata furioso já bastou para mim. Não tenho vontade de reviver a experiência.

— Precisamos tirá-la daqui, Enzo. Agora – ordeno, olhando horrorizada o peito da chimpanzé subir e descer mais depressa. – Lin, quanto tempo temos até ela acordar?

Lin meneia a cabeça para a frente e para trás, levanta quatro dedos, depois dois. Não é necessário que Lorenzo traduza.

— Seis minutos? – digo, esperançosa.

Ela balança a cabeça, levantando dois dedos e apontando-os na minha direção.

Olho em volta procurando alguma coisa – qualquer coisa – que possamos usar como contenção, e só encontro fio de sutura na mesa cirúrgica. Nada bom.

— Certo. Certo. – Não há tempo a perder. – Lin, certifique-se de que a jaula está aberta. Enzo, você e eu vamos empurrar essa bebê para o lugar dela.

Meus batimentos cardíacos marcam cada segundo que passa enquanto Lin sai correndo da sala de operação improvisada e segue o barulho dos outros chimpanzés que gritam na parte da frente do laboratório.

A chimpanzé número 413, com olhar perplexo, estende um braço comprido e peludo na direção da cabeça. Depois olha para mim.

— Enzo, empurre!

A maca bate em dois bancos, derrubando-os. Lorenzo pega um antes que ele trombe em outros dois, impedindo por pouco um efeito dominó com móveis que poderiam bloquear nosso caminho. Jackie e Isabel estão no centro do laboratório, horrorizadas e impotentes.

— Não fale nada, Jacko – imploro. – Não fale nada. Leve Isabel para outro lugar. Tranquem-se num armário se for preciso.

A imagem mental que tenho é de Charla Nash, a mulher mutilada que perdeu o rosto inteiro, menos a pele da testa.

— Petroski! – grito para o laboratório enquanto Lorenzo empurra a maca passando por bancadas cheias de papel voando, óculos, uma régua de cálculo. – Petroski!

Petroski sai correndo de seu posto. A chimpanzé solta um gemido grave, não um uivo, não um berro, mas um gemido triste, surdo.

Não olhe para ela, Jean. Não ouse olhar para ela.

Mas, claro, eu olho.

A fúria reluz em seus olhos castanhos suaves quando chegamos à jaula aberta.

Petroski saca a arma. Sua mão treme enquanto ele faz algo estalar com o polegar. A trava, talvez.

— Não atire nela se não for necessário – ordeno. – Certo, Enzo, na minha contagem. Um…

A mão da chimpanzé se afasta da cabeça e se estende para mim.

— Dois – digo, ofegante.

O iodo do ferimento preenche minhas narinas enquanto ela estende o braço.

— Três!

Com toda a força que me resta, tiro o bicho da maca, Lorenzo pegando a maior parte do peso. Uma garra roça nos meus lábios enquanto a chimpanzé 413 rola para dentro da jaula. Lorenzo tranca a porta e se afasta para a linha central do cômodo, me levando junto. Uma pata peluda salta entre as barras, os dedos em garras, e em seguida se retrai. A chimpanzé volta a massagear a lateral da cabeça.

Quase parece que ela está tentando se lembrar de alguma coisa.

— Ai, meu Deus, Enzo. Morgan. Cadê o Morgan?

Sei que só há uma entrada e saída do laboratório, e Morgan não passou por nós. Lorenzo retrocede pela sala em quatro passos largos enquanto grito para ele tirar Jackie e Isabel do caminho. Não sei se me escuta.

Lin sinaliza alguma coisa que eu não entendo, aponta para mim e para o chimpanzé enjaulado.

— Foi por pouco – falo, sem saber se é isso que ela quer dizer.

Ela assente.

— Vá ver como estão Jackie e Isabel – peço. – Vou ajudar Lorenzo.

Outra confirmação.

Não sei se me dou conta enquanto ainda estou na sala dos primatas ou quando passo pelo laboratório com os bancos caídos e os papéis espalhados. O baque é tão violento quanto um piano de cauda caindo de um andar alto. Morgan. Uma seringa. Lorenzo.

Isso não é solúvel em água. Nem injetável na corrente sanguínea.

Se tentar injetar, vai fritar o cérebro dele.

Minhas pernas parecem se mover por vontade própria.