Vox
Sessenta e Quatro
Se o andar do nosso laboratório e o dos escritórios eram tumbas solitárias, o subsolo 2 é uma colmeia zumbindo de atividade. Cubículos lado a lado abrigam dois homens cada. Suas paredes frágeis, da altura dos ombros, não permitem privacidade, apenas observação constante por parte dos guardas uniformizados que patrulham os corredores. Conto doze deles, todos desprovidos de jovialidade como o homem que agora anda atrás de mim, suficientemente perto para eu sentir cheiro de tabaco, café e alguma loção pós-barba enjoativamente doce. Nenhum dos ocupantes dos cubículos levanta a cabeça quando passamos; estão de cabeça baixa, examinando pilhas de gráficos do Excel e fórmulas escritas à mão ou olhando inexpressivos para as telas dos computadores.
Deve haver cinquenta pessoas na sala sem janela, abafada. Alguns – a maioria – são jovens, mal saídos da faculdade.
Paro e olho dentro de um cubículo, pensando reconhecer a letra de Lin. Morgan estala os dedos diante do meu rosto.
— Olhos para a frente, Jean.
A mistura de loção pós-barba, tabaco e café está quente na minha nuca. A mão de Lorenzo roça na minha, demorando-se, me lembrando de que não estou sozinha.
Passamos pelos cubículos e chegamos à extremidade oposta da colmeia. Morgan enfia seu crachá em outra fenda e uma porta dupla se abre para uma sala que não é diferente da toca de roedores e coelhos um andar acima de nós. Aqui, em vez de ratos guinchando e coelhinhos farejando, as gaiolas abrigam primatas. Grandes símios, para ser específica. Três fileiras de portas de aramado cobrem as paredes à esquerda e à direita, cada uma rotulada com um número de identificação e quatro linhas de dados: idade, espécie, data do experimento, técnico supervisor. Os gritos e grunhidos dos chimpanzés, quando entramos, são ensurdecedores.
Mas não é isso que me incomoda.
A maioria das gaiolas está vazia. Os rótulos continuam nas portas: BONOBO, GORILA, ORANGOTANGO – três dos cinco grandes primatas. Com os chimpanzés que gritam, são quatro, e metade deles já se foi.
Engulo em seco e olho para Lorenzo, pálido a ponto de se fundir com as paredes brancas do laboratório. Claro que está lívido. Sem dúvida pensa o mesmo que eu.
Eles estão trabalhando com os símios, uma espécie de cada vez, e guardaram os chimpanzés, o parente mais próximo dos humanos, para o último lugar.
Ou o penúltimo. Há um último primata que ainda não está nas jaulas, pelo menos por enquanto, um que eles não ousaram colocar. Todo o sangue nas minhas veias gela.
A quinta espécie de grandes primatas somos nós. Humanos.
Meus joelhos cedem e eu cambaleio para a esquerda, batendo na jaula do Experimento Número 412, um chimpanzé macho que deve ter uns 35 quilos a mais do que eu. Os alertas repetidos de Lin soam na minha cabeça como uma sirene antiaérea.
— Nunca, Jean, nunca chegue perto deles. Nós temos técnicos e treinadores para isso. Não dê comida, não faça carinho, nem chegue à distância de uma cuspida das jaulas. Fique no meio do corredor. Esses caras alcançam até um metro e, acredite, não são fofinhos – disse Lin no nosso primeiro passeio pelo laboratório, alguns meses depois de sua verba chegar e permitir que comprássemos dois chimpanzés.
— Eles parecem fofinhos – falei. – Olhe só aquele ali.
Mason, um macho de 1,20 metro usando fralda, chupava picolé numa jaula perto.
— Espere até ele mostrar os caninos, querida. Esses caras são bombas-relógio instáveis. Nem um lutador profissional conseguiria segurar um deles, mesmo se tentasse. Já ouviu falar de Charla Nash?
Balancei a cabeça.
— Deveria querer ouvir?
— Não. Pense naquele tal de Hannibal Lecter. Pense no que ele fez com aquela linda enfermeira quando esqueceram de colocar a máscara de hóquei esquisita nele. Comparado com um chimpanzé, Lecter é inofensivo como um gatinho anestesiado. E você nem vai saber o que a acertou.
O que me acerta agora é um tapa na cara e o gosto amargo de sangue nos lábios. Parte do meu couro cabeludo – a parte que o Número 412 está puxando com a força de uma picape-monstro num campeonato de reboque – foi incendiada ou cravada com a extremidade hedionda de uma picareta. Meus joelhos cantam um dó agudo quando o osso encontra os ladrilhos e duas forças opostas agem sobre mim: a gravidade me puxando para baixo e o chimpanzé tentando me levantar pelos cabelos.
A voz de Lorenzo, fraca e distante, grita: – Faça alguma coisa, pelo amor de Deus! Faça alguma coisa!
Ele está falando comigo? Ergo o braço para o fogo na minha cabeça, e uma mão que não é uma mão, mas uma garra, a segura com um aperto de torno. Charla Nash, Charla Nash, Charla Nash, penso, o nome surgindo dentro de mim junto com fotos dos olhos dela arrancados, das mãos que pareciam ter sido postas num moedor de carne, do talho no lugar onde deveria estar a boca.
Um disparo atravessa o ar acima da minha cabeça, e eu caio.