Vox

Christina Dalcher · Capítulo 73 de 80

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Setenta e Três

 

 

Morgan LeBron tem 1,62 metro de altura e beira os setenta quilos. Lorenzo é capaz de me levantar com o outro braço amarrado às costas. Não é nem mesmo uma disputa, a não ser que o menor tenha uma vantagem.

Morgan tem.

E no momento está segurando-a junto ao pescoço de Lorenzo, naquele ponto macio um centímetro atrás da orelha.

— Saia!

Não sei se é Lorenzo ou Morgan que grita na sala. Só uma palavra que não tem outro objetivo a não ser me aterrorizar.

— Morgan… – começo.

Ele não permite que eu termine: – Sua puta. Sua escrota.

O maxilar de Lorenzo fica tenso, mas as palavras não me incomodam. A seringa, sim, mas todo o resto que Morgan tem para oferecer não passam de oclusivas emboladas. Posso me isolar disso.

Mas aquela maldita seringa é um problema real.

Dou um passo à frente, muito devagar, como um movimento em câmera lenta num filme antigo de ficção científica.

— Gianna. Não. – Lorenzo parece tão firme quanto seu corpo aparenta estar.

— Gianna? Quem é Gianna, porra? – Quando Morgan diz meu nome, meu outro nome, seus olhos brilham. – Ah, saquei. Vocês dois têm um casinho, não é? Cara, isso é que é matar dois coelhos com uma cajadada só. – Agora ele está quase rindo. – Ah, cara, isso é uma beleza. Os pobres amantes trágicos. Diga, Lorenzo, ela é boa de cama? Parece meio velha para mim. Mas talvez você goste das putas usadas e largadas.

Os músculos no braço esquerdo de Lorenzo se retesam e seu punho se fecha.

— Ah, ah, ah… Dr. Rossi… – Morgan empurra a ponta da agulha com mais força contra a carne.

Um ponto vermelho aparece no local de contato e uma única gota de líquido transparente rola pelo pescoço de Lorenzo. É impossível dizer se é suor ou soro.

— Sabe – diz Morgan, a voz doce como xarope mas ainda ameaçadora –, não sou um grande cientista. Todo esse negócio de ficar examinando dados e refazendo a mesma porra de experiência de novo e de novo. Odeio essa merda. Mas sou um bom leitor. Um bom leitor de pessoas. E sei ler outras coisas. Tipo aquele frasquinho ali onde está escrito “Apenas injeção local”. – Com o queixo, ele indica o conteúdo derrubado da bandeja cirúrgica sem desviar os olhos de mim. – Eu vi isso e precisei me perguntar: por quê? Por que somente local? O que aconteceria se eu enfiasse essa agulha assim… – A agulha se enterra um milímetro ou dois no pescoço de Lorenzo, perto demais da veia jugular. – O que aconteceria se eu começasse a apertar o êmbolo? Alguma ideia?

— Vá em frente, Morgan – diz Lorenzo. – Gianna, saia daqui. Há uma chave extra embaixo do para-choque do meu carro. Pegue e vá embora.

— Não seja tão corajoso, porra. – Os olhos de Morgan, aqueles medonhos olhos de rato, se fixam nos meus. – Se você se mexer, sua puta, eu começo a enfiar esta coisa nele. – Os olhos se viram ligeiramente para a esquerda, por cima do meu ombro. – Volte para o laboratório.

Demoro um momento antes de perceber que ele não está falando comigo. Um aperto firme, não tão forte quanto de um homem, mas bem forte, segura meu cotovelo, me virando ligeiramente.

Jackie.

Sua cabeça faz um movimento brusco, deliberado. Vamos. Na mão livre estão as chaves de Petroski. Elas fazem um som metálico de sinos minúsculos no silêncio de uma sala onde todo mundo parece prender a respiração.

— Chame Petroski – digo a Morgan. – Vamos acabar logo com isso.

Preciso de cada parte do meu cérebro humano para afastar o instinto de fuga.

— Não faça nada idiota, Jean – ameaça Morgan.

— Escute. Se ainda lhe resta um fiapo de humanidade, Morgan, você vai fazer isso do modo certo. Mande Petroski atirar nele. Faça uma coisa limpa. Mais tarde você pode dizer que foi um acidente.

Há uma pausa enquanto Morgan pondera.

— Legítima defesa? – sugiro. – O soro vai ser mais difícil de explicar. Estamos falando de um bioquímico famoso, e não de um idiota que você recrutou numa faculdade. Pense nisso. Pense no que vai dizer quando Lorenzo Rossi sair deste prédio sem falar coisa com coisa. Depois pense no que a embaixada italiana vai dizer.

Morgan demora uma eternidade pensando. Passo metade dela pensando em armas.

Como qualquer mecanismo, elas têm partes. A parte em que você coloca uma bala, a parte por onde a bala sai e a parte que faz a bala ir de um lugar ao outro. Fácil. Simples. Sem alterações durante séculos. Fecho, cabo e cano. Numa ordem ou em outra.

Durante a outra metade do tempo em que Morgan pensa, avalio o sargento Petroski, o estudante de filosofia transformado em soldado. Marido. Pai. Um homem cuja mão treme quando saca a pistola de serviço. Um homem que sabe onde fica a trava e como soltá-la.

Jackie puxa meu braço de novo e eu me viro para ela.

— O que você faria para continuar livre, Jacko? Porque neste momento eu faria praticamente qualquer coisa.

Ela não diz nada, mas sorri.

— Petroski! – grita Morgan.

Botas pesadas ecoam no laboratório. Sob elas, papéis farfalham. Um estalo alto marca a destruição de uns óculos largados. O mundo inteiro fica mais lento enquanto o sargento Petroski se aproxima da porta aberta atrás de mim.

— Senhor! – grita Petroski.

Tudo acontece num piscar de olhos, mas sei que minha mente está registrando cada imagem, cada quadro do filme. Talvez um dia eu possa diminuir a velocidade dessas imagens, repassá-las em tempo real. Neste momento, a sequência é aleatória e entrecortada, a trilha sonora é confusa.

— Atire nele.

Petroski saca a arma. Está tão perto da minha orelha que consigo sentir as pequenas perturbações no ar, ver os pequenos tremores nas mãos dele enquanto tenta estabilizar a pistola.

— Está com a trava? – pergunto.

O estalo é como um tiro, automático e ensurdecedor.

— Agora, Jackie!

Ela está em cima dele. A mão de Petroski se afrouxa. Nunca saberei se ele cooperou ou se foi apanhado de surpresa, mas faço o movimento que planejei, fecho os dedos no cabo e miro alguns centímetros abaixo do broche azul que brilha no colarinho de Morgan.

E aperto o gatilho.